Novalis, in Fragmentos, Assírio & Alvim, col. Gato Maltês
Um blogue que se alimenta de e com ilustrações e palavras, sobretudo textos literários.
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21 de abril de 2013
20 de abril de 2013
Poeticidade
19 de abril de 2013
Natureza e regra
18 de abril de 2013
Paixão e abismo
17 de abril de 2013
Poesia e verdade
16 de abril de 2013
Absolutismos
15 de abril de 2013
Domingo em casa
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| Ilustrações de Sun Haeng Heo |



Amanhã podia ser domingo, e
não haver sol; podia ouvir os sinos e
dizer que era apenas uma ilusão; podia
descer a rua e não encontrar o homem
que vende os jornais; podia chegar
ao largo e não ver as mulheres
em grupo a caminho da igreja, onde
vai começar a missa.
Amanhã podia ser domingo,
e as ruas estarem vazias como se
não houvesse nada para fazer; podia não
ser domingo e todas as lojas
fecharem, podia não
ser domingo e alguém perguntar
o que é que se faz quando não
é domingo.
Amanhã podia ser um dia qualquer,
e não saber em que dia estou; podia
olhar para o relógio e descobrir que
os ponteiros estão parados, podia
ouvir alguém falar, e não saber de onde
vem a voz que sai da sua boca, como
se estivesse sozinho.
Ou então, podia abrir a porta e
ver que o domingo quer entrar; e
puxá-lo para dentro da casa, para
que lá fora fique sem domingo; e
sair para a rua num dia qualquer,
perguntando a quem passa
se viu passar o domingo.
Nuno Júdice, in As coisas mais simples
14 de abril de 2013
Às vezes
Às vezes sentimos que o tempo chegou ao fim...
...A solução é pegar
no fim e metê-lo à boca, como se fosse uma pastilha
elástica, derreter o sabor que o envolve, por amargo
que seja, e no fim pegar nesse resto que ficou e, tal
como se faz à pastilha elástica, deitá-lo fora. Para
que queremos nós o nosso próprio fim? Já bastou
tê-lo saboreado, derretido na boca, sentido o seu
amargo sabor. Então, libertos do nosso fim, veremos
que as portas se voltarão a abrir, que a gente continua
a andar à nossa volta, que a sombra já não nos mete medo,
e que se nos voltarmos teremos pela frente o rosto
desejado, o amor, a vida de que o fim nos queria ter privado.
![]() |
| Ilustração de Makoto Muramatsu |
...A solução é pegar
no fim e metê-lo à boca, como se fosse uma pastilha
elástica, derreter o sabor que o envolve, por amargo
que seja, e no fim pegar nesse resto que ficou e, tal
como se faz à pastilha elástica, deitá-lo fora. Para
que queremos nós o nosso próprio fim? Já bastou
tê-lo saboreado, derretido na boca, sentido o seu
amargo sabor. Então, libertos do nosso fim, veremos
que as portas se voltarão a abrir, que a gente continua
a andar à nossa volta, que a sombra já não nos mete medo,
e que se nos voltarmos teremos pela frente o rosto
desejado, o amor, a vida de que o fim nos queria ter privado.
Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável
13 de abril de 2013
Um conceito inexprimível
12 de abril de 2013
A força da dignidade humana
9 de abril de 2013
Ler é bom!
7 de abril de 2013
O poema
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| Ilustrações de Kristina Swarner |
O poema me levará no tempo
Quando eu já não for a habitação do tempo
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê
O poema alguém o dirá
Às searas
Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento
O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento
No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas
(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas
E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto
6 de abril de 2013
Frutos a voar
3 de abril de 2013
O milagre da amizade
2 de abril de 2013
Deserto
31 de março de 2013
Reconheci tua presença
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| Ilustração de Laimonas Smergelis |
Pela estrela da noite tão límpida e serena
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia - por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci tua presença incerta
Tua presença fantástica e liberta
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Felicidade", in Livro Sexto
30 de março de 2013
Caminho para a Páscoa
Sozinha caminhei no labirinto
Aproximei meu rosto do silêncio e da treva
Para buscar a luz dum dia limpo
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Labirinto" in Livro Sexto
29 de março de 2013
Eis-me
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| Ilustração de Laimonas Smergelis |
Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantosTendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face
Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio
Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto
28 de março de 2013
Amar-se a si mesmo
Implicação humana
27 de março de 2013
A existência de Deus
26 de março de 2013
O milagre da vida
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| Ilustração de Moony Khoa Le |
Sou contra a dessacralização das coisas e das pessoas. Pelo contrário, acredito que o milagre da vida continua a ser sagrado. O milagre é a explicação inocente do mistério real que habita o homem, do poder que nele se dissimula. Não se pode morrer inculto, profano. Se não procuramos saber por que viemos a este mundo, qual o sentido superior da nossa existência na Terra, o que nos resta é esta sociedade desencantada, ignorante e materialista.
Rui Chafes, "O perfume das buganvílias 17" , in Entre o céu e a terra, Documenta, 2012
24 de março de 2013
Alimentar-se de luz
Só a privação faz sentir a necessidade. E, em caso de privação, o homem não pode impedir-se de se voltar para não importa o quê de comestível.
Só há um remédio para isto: uma clorofila que permita alimentar-se de luz.
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| Ilustração de Mike Worral |
Não julgar. Todos os erros são semelhantes. Existe apenas um erro: não possuir a capacidade de se alimentar da luz. Porque, estando esta capacidade anulada, todos os erros são possíveis.
Simone Weil, in A gravidade e a graça
Ovos de coelho
23 de março de 2013
Acreditar que é aquilo
22 de março de 2013
Carregar primaveras
21 de março de 2013
Poética
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| Ilustração de Amanda Cass |
Quero que o meu poema fale de barcos e de azul, fale
do mar e do corpo que o procura, fale de pássaros edo céu em que habitam. Quero um poema puro, limpo
do lixo das coisas banais, das contaminações de quem
só olha para o chão; um poema onde o sublime nos
toque, e o poético seja a palavra plena. É este poema
que escrevo na página branca com a parede que
acabou por ser caiada,com as suas imperfeições
apagadas pela luz do dia, e um reflexo de sol
a gritar pela vida. E quero que este poema desça
às caves onde a miséria se acumula, aos bancos onde
dormem os que não têm tecto nem esperança,
às mesas sujas dos restos da madrugada, às
esquinas onde a mulher da noite espera o último
cliente, ao desespero dos que não sabem para onde
fugir quando a morte lhes bate à porta. E canto
a beleza que sobrevive às frases comuns, às
palavras sujas pelo quotidiano dos medíocres,
aos versos deslavados de quem nunca ouviu
o grito do anjo. E digo isto para que fique, no
poema, como a pedra esculpida por um fogo divino.
Nuno Júdice, in A matéria do poema
Primavera
20 de março de 2013
Anunciação da primavera
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| Ilustração de Marie Cardouat |
vieram da Holanda
para
que a primavera entrasse
em janeiro pela casa dentro.
Com o seu aroma e o vento solar
farei o lume,
farei o lume onde aquecer as mãos
e de chama em chama regressar
às oliveiras do sul lentas e claras,
ao azul estendido nas pedras nuas
da Cantareira,
aos pardais ardendo nos ramos
do crepúsculo com a luz derradeira.
em janeiro pela casa dentro.
Com o seu aroma e o vento solar
farei o lume,
farei o lume onde aquecer as mãos
e de chama em chama regressar
às oliveiras do sul lentas e claras,
ao azul estendido nas pedras nuas
da Cantareira,
aos pardais ardendo nos ramos
do crepúsculo com a luz derradeira.
Eugénio de Andrade, in Os lugares do lume
18 de março de 2013
Migalhas de palavras
16 de março de 2013
Não chames ao mundo morada
| Ilustracão de LooKarna |
Não chames ao mundo morada, não lhe dês um nome
pois falhas a tua Primavera as sugestões atmosféricas tornam as paisagens equívocas
e nunca chegamos a perceber
como avança uma história
ou uma tempestade
Diante da janela iluminada
acredita apenas na duração
do amor
José Tolentino Mendonça
15 de março de 2013
Alberto Caeiro
| Ilustração de Afonso Cruz |
Pus em Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática.
Fernando Pessoa
Era a voz da terra que é tudo e ninguém.
Álvaro de Campos
A vida de Caeiro não pode narrar-se, pois que não há nada que narrar. Seus poemas são o que houve nele de vida. Em tudo o mais não houve incidentes nem há história.
Ricardo Reis
Há metafísica bastante em não pensar em nada
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| Ilustração de Lombardini Marco |
Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo? Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
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| Ilustração de Joan Louis |
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
"Constituição íntima das coisas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
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| Ilustração de Victoria Kirdy |
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
![]() |
| Ilustração de Ingrid Mann-Willis |
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
Alberto Caeiro, "Poema quinto" in O Guardador de Rebanhos
Panteísmo
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| Ilustração de Asako Eguchi |
Os Antigos viam Deus por detrás de cada erva, cada pedra, cada nuvem, cada criança que nascia. Tudo era apenas visão e voz, outra voz: a Natureza falava. O vento que passava nas folhas das árvores, a espuma do mar, o silêncio, o aroma...tudo era rasto da Sua presença. E existiam rituais que introduziam o mito na realidade e o tornavam parte da vivência diária. A arte era o espelho dessa íntima relação, era o produto do seu encantamento, era a testemunha e o motor dessa magia. "Um homem é um deus mortal, um deus é um homem imortal", disse Heraclito. Como se costuma explicar às crianças, os deuses fizeram os homens e os homens fizeram os deuses.
Rui Chafes, "O perfume das buganvílias 17" , in Entre o céu e a terra, Documenta, 2012
14 de março de 2013
Gato que brincas na rua
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| Ilustração de Amy Lyn Bihrle |
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
Fernando Pessoa
O menino de sua mãe
![]() |
| Ilustração de Horacio Gatto |
No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
- Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
- Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe.
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe.
Fernando Pessoa
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