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19 de janeiro de 2015

O mundo e o amor


Ilustração de Saré Evgenia



O mundo inteiro puxa-nos para baixo, mas as mãos de quem gosta de nós atiram-nos para o alto. Sem se cansarem.



Afonso Cruz, in O pintor debaixo do lava-loiças, Caminho, 2011, 1ª ed., p. 36

17 de janeiro de 2015

O estômago da cabeça

Ilustração de Sandrine Kao

- Há muitos tipos de comida - disse o coronel Möller enquanto abanava o filho. - Um homem possui três estômagos: um na barriga, outro no peito e outro na cabeça. O da barriga toda a gente sabe para que serve; o do peito mastiga a respiração, que é a nossa comida mais urgente. Uma pessoa morre sem ar muito mais depressa do que sem água e pão. 

Ilustração de Lirios Bou

E por fim há o estômago da cabeça, que se alimenta de palavras e de letras.

Afonso Cruz, in O pintor debaixo do lava-loiças, Caminho, 2011, 1ª ed., p. 20

14 de janeiro de 2015

Homero

Ilustração de Asako Eguchi


Escrever o poema como um boi lavra o campo 

Sem que tropece no metro o pensamento 


Sem que nada seja reduzido ou exilado 


Sem que nada separe o homem do vivido




                  Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Búzio de Cós e Outros Poemas, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 815

11 de janeiro de 2015

Oásis

Ilustração de Richolly Rosazza


Penetraremos no palmar
A água será clara o leite doce
O calor será leve o linho branco e fresco
O silêncio estará nu – o canto
Da flauta será nítido no liso
Da penumbra


Lavaremos nossas mãos de desencontro e poeira


Sophia de Mello Breyner Andresen, in O nome das coisas Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 643

Não te chamo para te conhecer

Ilustração de Jing Jing Tsong


Não te chamo para te conhecer      
Eu quero abrir os braços e sentir-te
       Como a vela de um barco sente o vento


Não te chamo para te conhecer 

Conheço tudo à força de não ser


Peço-te que venhas e me dês   

            Um pouco de ti mesmo onde eu habite


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Poemas de um livro destruído", VIII, in No Tempo Dividido, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 270 

10 de janeiro de 2015

Guitarra

Ilustração de Raija Nokkala



Na voz de oiro e de sombra da guitarra

Algo de mim a si próprio renuncia






Sophia de Mello Breyner Andresen, in Ilhas Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 747

8 de janeiro de 2015

Senhor

Ilustração de Asako Eguchi

Senhor sempre te adiei

Embora sempre soubesse que me vias 

Quis ver o mundo em si e não em ti 

E embora nunca te negasse te apartei

                             1987


                              Sophia de Mello Breyner Andresen, in Ilhas Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 753

7 de janeiro de 2015

Exílio

Ilustração de Сержантова Олеся
Exilámos os deuses e fomos

Exilados da nossa inteireza

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O nome das coisas Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 642

6 de janeiro de 2015

Os três reis do Oriente

Ilustração de Noemí Villamuza


E foi para seguir essa estrela que Gaspar abandonou o seu palácio.



 Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente", in Contos Exemplares, Figueirinhas, 2006, 36ª ed., pp. 147-148

5 de janeiro de 2015

Palavra ou estrela?

ilustração de Eugen Sopko


Primeiro pareceu a Gaspar que a estrela era uma palavra, uma palavra de repente dita na muda atenção do céu. 


Mas depois o seu olhar habituou-se ao novo brilho e ele viu que era uma estrela, uma nova estrela, semelhante às outras, mas um pouco mais próxima e mais clara e que, muito devagar, deslizava para o Ocidente. 




Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente", in Contos Exemplares, Figueirinhas, 2006, 36ª ed., pp. 147-148

4 de janeiro de 2015

Reis Magos

Ajoelhado no terraço Gaspar olhava o céu da noite. Olhava a alta e vasta abóbada nocturna, escura e luminosa, que simultaneamente mostrava e escondia.

Ilustração de Maarit Ailio

E disse: 


— Senhor, como estás longe e oculto e presente! Oiço apenas o ressoar do teu silêncio que avança para mim e a minha vida apenas toca a franja límpida da tua ausência. Fito em meu redor a solenidade das coisas como quem tenta decifrar uma escrita difícil. Mas és tu que me lês e me conheces. Faz que nada do meu ser se esconda. Chama à tua claridade a totalidade do meu ser para que o meu pensamento se torne transparente e possa escutar a palavra que desde sempre me dizes.



                        Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente", in Contos Exemplares, Figueirinhas, 2006, 36ª ed., pp. 147-148

3 de janeiro de 2015

Noite

Ilustração de Friedrich Hechelmann


Noite. Noite em nossa roda. Noite aberta.
E encontramos um silêncio imenso,
Um silêncio perfeito que nos esperava desde sempre.
E uma solidão que era a nossa imagem,
E uma profunda esperança,
Como se a noite tremesse
De tocar a aurora.



Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poemas Dispersos, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 856

31 de dezembro de 2014

Viajar! Perder países!

Ilustração de Basia Konczarek


Viajar! Perder países! 
Ser outro constantemente, 
Por a alma não ter raízes 
De viver de ver somente! 

Não pertencer nem a mim! 
Ir em frente, ir a seguir 
A ausência de ter um fim, 
E a ânsia de o conseguir! 

Viajar assim é viagem. 
Mas faço-o sem ter de meu 
Mais que o sonho da passagem. 
O resto é só terra e céu.


Fernando Pessoa

30 de dezembro de 2014

Criar o leitor

Ilustração de Shinya Okayama

Cada palavra pronunciada supõe o ouvinte, cada palavra escrita o leitor: criar também este é a parte encoberta, mas a mais importante da acção do escritor.



 Hugo Von Hofmannsthal, in Livro dos Amigos

27 de dezembro de 2014

O tigre e os morangos

Há algum tempo atrás, um homem que estava a caminhar pelo campo encontrou um tigre.

Assustado, começou a correr e o tigre correu atrás dele.

Ilustração de Mariam Ben-Arab
Aproximou-se de um precipício, pegou nas raízes expostas de um arbusto selvagem e pendurou-se, precipitadamente, para baixo. O tigre farejava-o. Tremendo de medo, o homem olhou para baixo e viu, no fundo do precipício, outro tigre à sua espera. Só estava agarrado pela raiz do arbusto.


Porém, ao olhar para a planta, descobriu uns morangos, mesmo ali ao lado.

Ilustração de Wojtek Kowalczyk 
Então o homem segurou a raiz só com uma mão e, com a outra, pegou nos morangos, comeu-os e exclamou:

- Que delícia!


(Conto Zen)

26 de dezembro de 2014

Amigos

Ilustração de Mariusz Stawarski


Uma pessoa tem alguns amigos menos do que supõe e alguns mais do que conhece.



 Hugo Von Hofmannsthal, in Livro dos Amigos

25 de dezembro de 2014


Enquanto ali se encontravam, chegou o dia de ela dar à luz e teve o seu Filho primogénito.

Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria. 


Ilustração de Faruffa



Havia naquela região uns pastores que viviam nos campos e guardavam de noite os rebanhos. 
O Anjo do Senhor aproximou-se deles, e a glória do Senhor cercou-os de luz; e eles tiveram grande medo. 
Disse-lhes o Anjo: «Não temais, porque vos anuncio uma grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado numa manjedoura». 

Lucas 2, 6-12

Uma grande luz


Ilustração de Nino Chakvetadze

O povo que andava nas trevas
viu uma grande luz; 
habitavam numa terra de sombras,
mas uma luz brilhou.


Isaías 9, 1

24 de dezembro de 2014

Que neste Natal nos deixemos surpreender!

Ilustração de Milena Jahier


Feliz Natal

são os votos do Portefólio de Leituras para todos os seus leitores, amigos e seguidores!