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22 de maio de 2014

O relógio

O senhor Juarroz pensou num relógio que em vez de mostrar o tempo mostrasse o espaço. Um relógio onde o ponteiro maior indicasse no mapa o local preciso onde a pessoa se encontrava num determinado instante.

Ilustração de Deidre Wicks
- Então, e o ponteiro pequeno? Que indica? – perguntou a esposa.
- A localização de Deus – respondeu o senhor Juarroz.


Gonçalo M. Tavares, in O senhor Juarroz

19 de maio de 2014

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

Ilustração de Cory Loftis


O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.


                                                Camões

18 de maio de 2014

Elegia segunda

Ilustração de Mary Blair

Todos os pássaros, todos os pássaros

Asas abriam, erguiam cantos,

De Amor cantavam.

Todos os homens, todos os homens,

De almas abertas, de olhos erguidos,

De Amor cantavam.

De Amor cantavam todos os rios,

Todas as serras, todas as flores,

Todos os bichos, todas as árvores,

Todos os pássaros, todos os pássaros,

Todos os homens, todos os homens.

De Amor cantavam...
                                          Sebastião da Gama, in Campo Aberto

17 de maio de 2014

Significado superior

Acredito, como os antigos, que deve haver um significado único e superior por detrás de cada erva, flor, nuvem que passa ou criança que nasce. 


Ilustração de Virpi Pekkalan

Para mim, a arte deve ser o espelho dessa íntima relação, desse encantamento, dessa magia. Estou farto da lógica horizontal que nos impõe um olhar conformado sobre a banalização do mundo.

Rui Chafes, escultor

À chegada dos dias grandes

Ilustração de Virpi Pekkalan
Da luva lentamente aliviada
a minha mão procura a primavera
Nas pétalas não poisa já geada
e o dia é já maior que ontem era

Não temo mesmo aquilo que temera
se antes viesse: chuva ou trovoada
é este o Deus que o meu peito venera
Sinto-me ser eu que não era nada

A primavera é o meu país
Saio à rua sento-me no chão
e abro os braços e deito raiz

E dá flores até a minha mão
Sei que foi isto que sem querer quis
e reconheço a minha condição.


                                                   Ruy Belo

13 de maio de 2014

Ondados fios de ouro reluzente

O Nascimento de Vénus, de Boticelli


Ondados fios de ouro reluzente,
Que, agora da mão bela recolhidos,
Agora sobre as rosas estendidos,
Fazeis que a sua beleza se acrecente;

Olhos, que vos moveis tão docemente,
Em mil divinos raios encendidos,
Se de cá me levais alma e sentidos,
Que fora, se de vós não fora ausente?

Honesto riso, que entre a mor fineza
De perlas e corais nace e parece,
Se na alma em doces ecos não o ouvisse!...

Se imaginando só tanta beleza,
De si, em nova glória a alma se esquece,
Que será quando a vir?... Ah! Quem a visse…


                                                 Luís de Camões

Presença bela, angélica figura

A Primavera, de Boticelli

Presença bela, angélica figura,
Em quem, quanto o Céu tinha, nos tem dado;
Gesto alegre, de rosas semeado,
Entre as quais se está rindo a Fermosura;

Olhos, onde tem feito tal mistura
Em cristal branco e preto marchetado,
Que vemos já no verde delicado
Não esperança, mas enveja escura;

Brandura, aviso e graça que, aumentando
A natural beleza c'um desprezo
Com que, mais desprezada, mais se aumenta;

São as prisões de um coração que, preso,
Seu mal ao som dos ferros vai cantando,
Como faz a sereia na tormenta.


                                   Luís de Camões

11 de maio de 2014

Como afastar os fantasmas?





O poema, esse sim, tinha o poder de lixiviar todos os fantasmas.

Miguel Miranda, in Todas as cores do vento, Porto Editora, 2012, 1ª ed., p. 14

9 de maio de 2014

As metades de Novalis

Ilustração de Raquel Aparício


A ciência é apenas uma metade. A outra é a fé.


in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), Assírio & Alvim, 2000, 2ª ed., p. 21

7 de maio de 2014

A sombra quieta

Ilustração de Young Ju Choi


Era uma vez uma sombra
que não parava de estar quieta.
Quanto mais quieta estava
mais o pobre corpo
se mexia
e saltava,
esbracejava, corria.
Tomado pelo medo,o corpo acabou por fugir
daquele sinistro lugar.
Nunca mais ninguém o viu.
E a sombra?
Ainda lá está.
Ali, naquele lugar.


João Pedro Mésseder, in Pequeno Livro das Coisas, Caminho, 2012, p. 9

6 de maio de 2014

Poema da Auto-estrada

Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta.
Vai na brasa, de lambreta.

Leva calções de pirata,
vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina,
de impaciente nervura.
como guache lustroso,
amarelo de idantreno,
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.

Fuge, fuge, Leonoreta:
Vai na brasa, de lambreta.
 
Ilustração de Paula Dominguez Romeo

Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa e bem segura.

Com um rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que se enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta,
lembra um demónio com asas.

Na confusão dos sentidos
já nem percebe Leonor
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.

Fuge, fuge, Leonoreta
Vai na brasa, de lambreta.

António Gedeão, in Poesias Completas

4 de maio de 2014

Saberás que não te amo e que te amo

Ilustração de Claudia Tremblay


Saberás que não te amo e que te amo
porquanto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem sua metade fria.

Eu te amo para começar a te amar,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de te amar nunca:
por isso mesmo é que ainda não te amo.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos a chave da ventura
e um incerto destino desditado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te. 

Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.


Pablo Neruda, Cien sonetos de amor, in Presentes de um poeta, Arte Plural ed., 2003, pp. 26-27

3 de maio de 2014

A terra

Ilustração de Sonia MariaLuce Possentini

Quando estamos longe da pátria
nunca a recordamos em seus invernos.


Pablo Neruda, Confesso que he vivido, in Presentes de um poeta, Arte Plural ed., 2003, pp. 26-27

2 de maio de 2014

A poesia é indestrutível

Ilustração de Sonia MariaLuce Possentini


Minha fé em todas as colheitas do futuro


se afirma no presente. E declaro, por muito


que se saiba, que a poesia é indestrutível.



Pablo Neruda, Discurso en Chile, in Presentes de um poeta, Arte Plural ed., 2003, p. 73

1 de maio de 2014

O poeta

Ilustração de Moony Khoa Le 

O poeta é igual ao jardim das estátuas


Ao perfume do Verão que se perde no vento



Veio sem que os outros nunca o vissem



E as suas palavras devoraram o tempo.




Sophia de Mello Breyner Andresen, "No Tempo Dividido", in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 302

30 de abril de 2014

O que é um poeta na terra?

Ilustração de Sonia MariaLuce Possentini 

O que é um poeta na terra? É alguém que ensina a ver. Alguém que não se conforma que o olhar dos homens fique capturado pelo breu, pela desesperança ou pelo medo. É alguém que nos infernos e purgatórios da história rasga saídas criativas, fendas para olhar mais longe, miradouros debruçados sobre um futuro outro, capaz de estilhaçar a fatalidade. Claro que a matéria de trabalho de um poeta é a palavra. Mas a palavra não é só palavra: é sede, é desejo de comunicar, é mergulho na realidade para a compreender melhor, é a sabedoria de perceber que o visível é também um signo do invisível e que não se pode separar o audível do inaudível, a palavra do silêncio.


José Tolentino Mendonça, "Em memória de Vasco Graça Moura: Um poeta é alguém que ensina a ver", in
SNPC | 29.04.14

28 de abril de 2014

blues da morte de amor


Ilustração de Toshiyuki Enoki


já ninguém morre de amor, eu uma vez 
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.

há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim.


                                         
                                         Vasco Graça Moura, in Antologia dos Sessenta Anos

insinceridade

Ilustração de Carlotta Castelnovi
quis-nos aos dois enlaçados 
meu amor ao lusco-fusco
mas sem saber o que busco:
há poentes desolados
e o vento às vezes é brusco

nem o cheiro a maresia
a rebate nas marés
na costa de lés a lés
mais tempo nos duraria
do que a espuma a nossos pés

a vida no sol-poente
fica assim num triste enleio
entre melindre e receio
de que a sombra se acrescente
e nós perdidos no meio

sem perdão e sem disfarce,                                                                
sem deixar uma pegada
por sobre a areia molhada,
a ver o dia apagar-se
e a noite feita de nada

por isso afinal não quero
ir contigo ao lusco-fusco,
meu amor, nem é sincero
fingir eu que assim te espero,
sem saber bem o que busco.

Vasco Graça Moura, in Antologia dos Sessenta Anos

27 de abril de 2014

soneto do amor e da morte

quando eu morrer murmura esta canção 
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão. 

Ilustração de Jenny Meilihove
quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura, in Antologia dos Sessenta Anos

Vasco Graça Moura

Ilustração de Bella Sinclaire


A poesia é a minha forma verbal de estar no mundo.


Vasco Graça Moura