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16 de agosto de 2013

O que é a cultura?

Ao longo da História, a noção de cultura teve diferentes significados e matizes. Durante muitos séculos foi um conceito inseparável da religião e do conhecimento teológico; na Grécia foi marcado pela filosofia e em Roma pelo direito, enquanto no Renascimento era impregnado sobretudo pela literatura e pelas artes. 



Em épocas mais recentes como o iluminismo foram a ciência e as grandes descobertas científicas que deram a orientação principal à ideia de cultura. 

Caricaturas de escritores e escritoras por Mike Caplanis

Mas, apesar dessas variantes e até à nossa época, cultura sempre significou um conjunto de fatores e disciplinas que, segundo amplo consenso social, a constituíam e ela implicava: a reivindicação de um património de ideias, valores e obras de arte, de conhecimentos históricos, religiosos, filosóficos e científicos em constante evolução, o fomento da exploração de novas formas artísticas e literárias e da investigação em todos os campos do saber.


Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, p. 61

14 de agosto de 2013

Arte e literatura não morrem



Caricatura de Pessoa por Tullio Pericoli


A obra literária e artística que alcança um certo grau de excelência não morre com o passar do tempo: continua a viver e a enriquecer as novas gerações e evoluindo com elas.


Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, p. 69

12 de agosto de 2013

Arte e sensualidade

Ilustração de Cecile Veilhan
A arte e a sensualidade são a mesma coisa.

Picasso

citado por Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, p. 114

11 de agosto de 2013

Ritual do amor



Ilustração de Leandro Lamas


...se quisermos que o amor físico contribua para enriquecer a vida das pessoas, libertemo-lo dos preconceitos, mas não das formas e dos rituais que o embelezam e civilizam e, em vez de o exibir à luz do dia e pelas ruas, preservemos essa privacidade e discrição que permitem que os amantes brinquem a ser deuses e sentir que o são naqueles instantes intensos e únicos da paixão e do desejo partilhados.



Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, p.111

A um jovem poeta



Ilustração de Arianna Russo
Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê.
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.


Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal, 
Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 59

10 de agosto de 2013

Imortalidade

Desenho de Júlio Pomar





Há dois tipos de pessoas no mundo: 


as que acreditam que Pessoa morreu 

e as que o leram ainda no outro dia.

L. Ventura



Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 64

Einstein estava errado

Ilustração de Vladymyr Lukash

Einstein está cada vez mais errado. Isto não é um contínuo espaço/tempo. É um contínuo falta-de-espaço/falta-de-tempo.


Lukasz Szczepanski

Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 43

8 de agosto de 2013

Evolução da sociedade

Ilustração de Vladymyr Lukash


Chama-se 
evolução
da sociedade
ao tempo que
se leva a concordar
com os artistas 
do século passado.

Tsilia Kacev, Exposição em Paris, 1979



Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 49

7 de agosto de 2013

Viver e estar vivo

Ilustração de Liu-Qiming


Todos os que vivem
morrem, 
mas nem todos 
os que morrem
viveram.

Kláta Sors



Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 105

6 de agosto de 2013

Escultura

Ilustração de Vanessa Cooper


O homem é como a pedra
dum escultor.
Quem diria que, desbastada,
se encontraria lá dentro
uma obra-prima?
Dentro do homem,
quem diria que poderíamos
encontrar Deus?

Fragmento Anónimo, século I depois da Hégira



Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 43

5 de agosto de 2013

Poliopsia



Ilustrações de Vladimir Kryloff

Existe uma doença oftálmica chamada poliopsia. Consiste em ver várias imagens dum mesmo objecto. Quando a poliopsia ataca o cérebro, chamamos-lhe sabedoria: consiste em ver o mesmo objecto, mas de perspectivas diferentes, como se fosse visto por várias pessoas.

Tsilia Kacev, frase que adorna a obra "Mesa", citado por Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 79

Berlinde

Ilustração de Kaatje Vermeire
No futuro
iremos passar durante
um minuto todos os dias,
interromper o que estivermos
a fazer, de repente, a meio
de uma palavra, de uma passada,                                    
de uma garfada. E, perfeitamente
imóveis, veremos que o mundo
é uma cruz para quem o carrega
e um berlinde para quem o empurra.
Depois é só escolher.

(Petar Stamboliski, Poesia)

Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 24

Arte de ladrões

Ilustração de Shiori Matsumoto


...a literatura é uma arte

escura de ladrões que roubam a ladrões


Manuel António Pina,  "Emet" in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal, 

Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 72

4 de agosto de 2013

Primeiro domingo

Ilustração de Lily Greenwood

A tarde estava errada, 

não era dali, era de outro domingo,

quando ainda não tinhas acontecido,
e apenas eras uma memória parada
sonhando (no meu sonho) comigo.

E eu, como um estranho, passava
no jardim fora de mim
como alguém de quem alguém se lembrava
vagamente (talvez tu),
num tempo alheio e impresente.

Tudo estava no seu lugar
(o teu lugar), excepto a tua existência,
que te aguardava ainda, no limiar
de uma súbita ausência,
principalmente de sentido.

Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal, 
Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 49

3 de agosto de 2013

Avarento

Ilustração de Ryszard Chmiel

O avarento segue o caminho das trevas só para não ter de apagar a luz.
 
Malgorzata Zajac
 
 
Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 19

O velho abutre

Ilustração de Jean-Baptiste  Monge

O velho abutre é sábio e alisa as suas penas
A podridão lhe agrada e seus discursos
Têm o dom de tornar as almas mais pequenas

                                              Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

1 de agosto de 2013

Somos assim...



Ilustração de Cosei Kawa


Lili  Sou muito incompleta, pois, pois. Como um frasco destapado. É assim.


             Afonso Cruz, in O cultivo de flores de plástico, Alfaguara, 2013, ed. limitada, nº 0544, p.50

Um olhar sobre a rua

Ilustração de Elisabetta Decontardi




Senhora de fato   Mas tem coisas boas, não tem? 

Lili   O quê?

Senhora de fato   Viver na rua. As pessoas preocupam-se com as coisas essenciais, com comer e dormir, em vez de andarem a pensar em sapatos italianos.

Afonso Cruz, in O cultivo de flores de plástico, Alfaguara, 2013, ed. limitada, nº 0544, p.53

31 de julho de 2013

O cultivo de flores de plástico

Ilustração de John Blake

Andamos a regar flores de plástico, é isso que fazemos. Temos coisas que não servem para nada. É tudo plástico. E nós regamos essas flores e esperamos que cheirem a coisas boas. Mas é plástico. Temos coisas, em vez de tentarmos ser felizes, substituímos a vida por plástico e o próprio plástico por plástico. Trabalhamos para regar uma vida destas.

Afonso Cruz, in O cultivo de flores de plástico, Alfaguara, 2013, ed. limitada, nº 0544, pp.53-54

O lado de fora



Ilustração de Catrin Welz-Stein
Eu não procuro nada em ti, 
nem a mim próprio, é algo em ti
que procura algo em ti
no labirinto dos meus pensamentos.

Eu estou entre ti e ti,
a minha vida, os meus sentidos
(principalmente os meus sentidos)
toldam de sombras o teu rosto.

O meu rosto não reflecte a tua imagem,
o meu silêncio não te deixa falar,
o meu corpo não deixa que se juntem
as partes dispersas de ti em mim.

Eu sou talvez
aquele que procuras,
e as minhas dúvidas a tua voz
chamando do fundo do meu coração.


Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal, 
Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 44