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13 de abril de 2013

Um conceito inexprimível

Ilustração de Yoon Jae Lee
...se as palavras são duras
como as pedras, e sólidas como a terra áspera
do verão, porque não ficamos em silêncio?

Nuno Júdice, "Um conceito inexprimível", 

in Fórmulas de uma luz inexplicável

12 de abril de 2013

A força da dignidade humana

Ilustração de Maria Jose Olavarria Madariaga

...o homem muito forte que pode carregar toneladas não é mais que o velhinho que só pode ajudar.

"Abbé Pierre", in António Marujo, Deus vem a público, Entrevistas sobre a transcendência, vol. I, p. 295

9 de abril de 2013

Ler é bom!


Ilustrações de
Nathalie Jomard

...ter os pés soerguidos é a primeira condição para desfrutar da leitura.


Italo Calvino, in Se numa noite de Inverno um viajante

7 de abril de 2013

O poema


Ilustrações de Kristina Swarner


O poema me levará no tempo
Quando eu já não for a habitação do tempo
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)




















Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

6 de abril de 2013

Frutos a voar

Ilustração de Afonso Cruz



O meu irmão corrigiu-me enquanto eu apontava  
para a árvore: não são frutos a voar,
são pássaros.



Afonso Cruz, "13 de Julho" in O livro do Ano

3 de abril de 2013

O milagre da amizade

Ilustrações de 
Jimmy Liao












A amizade não se procura, não se imagina, não se deseja; exercita-se...

A amizade não se deixa afastar da realidade, tal como o belo. E o milagre consiste, simplesmente, no facto de que ela existe.


Simone Weil, in A gravidade e a graça

2 de abril de 2013

Deserto


Às vezes, trago um deserto para casa. 

É quando me sinto sozinha.

Afonso Cruz, "14 de Julho" in O livro do Ano



Ilustrações de Laimonas Smergelis 


O meu irmão diz que é muito fácil fazer    
um oásis num deserto.



Basta juntar água.


Afonso Cruz, "15 de Julho" in O livro do Ano





31 de março de 2013

Reconheci tua presença

Ilustração de Laimonas Smergelis


Pela flor pelo vento pelo fogo
Pela estrela da noite tão límpida e serena
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia - por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci tua presença incerta
Tua presença fantástica e liberta


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Felicidade", in Livro Sexto 

30 de março de 2013

Caminho para a Páscoa


Ilustração de Laimonas Smergelis

Sozinha caminhei no labirinto


Aproximei meu rosto do silêncio e da treva 

Para buscar a luz dum dia limpo

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Labirinto" in Livro Sexto

29 de março de 2013

Eis-me

Ilustração de Laimonas Smergelis


Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto 

28 de março de 2013

Amar-se a si mesmo

Ilustração de Laimonas Smergelis

Não é porque Deus nos ama que nós devemos amá-Lo. É porque Deus nos ama que nos devemos amar. Como é possível amar-se a si mesmo sem este motivo?


O amor a si mesmo é impossível ao homem a não ser através deste subterfúgio.


Simone Weil, in A gravidade e a graça

Implicação humana

Ilustração de Laimonas Smergelis 

Aquele que nos criou sem nós não nos salvará sem nós.


Santo Agostinho

27 de março de 2013

A existência de Deus

Ilustração de Laimonas Smergelis 

Se amarmos Deus pensando que não existe, ele manifestará a sua existência.


Simone Weil, in A gravidade e a graça

26 de março de 2013

O milagre da vida

Ilustração de Moony Khoa Le


Sou contra a dessacralização das coisas e das pessoas. Pelo contrário, acredito que o milagre da vida continua a ser sagrado. O milagre é a explicação inocente do mistério real que habita o homem, do poder que nele se dissimula. Não se pode morrer inculto, profano. Se não procuramos saber por que viemos a este mundo, qual o sentido superior da nossa existência na Terra, o que nos resta é esta sociedade desencantada, ignorante e materialista.


Rui Chafes, "O perfume das buganvílias 17" , in Entre o céu e a terra, Documenta, 2012





24 de março de 2013

Alimentar-se de luz

Só a privação faz sentir a necessidade. E, em caso de privação, o homem não pode impedir-se de se voltar para não importa o quê de comestível. 
Só há um remédio para isto: uma clorofila que permita alimentar-se de luz.

Ilustração de Mike Worral
Não julgar. Todos os erros são semelhantes. Existe apenas um erro: não possuir a capacidade de se alimentar da luz. Porque, estando esta capacidade anulada, todos os erros são possíveis.

                                                                                                          Simone Weil, in A gravidade e a graça

Ovos de coelho

Ilustração de Oxana Zaika

Não, disse o meu irmão. Quem põe ovos de chocolate são os coelhos da Páscoa, não são as galinhas de chocolate.



Evidentemente.




Afonso Cruz, "7 de Abril", in O livro do ano 

23 de março de 2013

Acreditar que é aquilo


Ilustração de Sanuel Ribeyron

Uma mulher muito bonita que olha a sua imagem ao espelho pode muito bem acreditar que é aquilo. Uma mulher feia sabe que não é aquilo.

Simone Weil, in A gravidade e a graça

22 de março de 2013

Carregar primaveras

Ilustração de Isabel Hojas
Como é que as andorinhas - tão pequenas - podem carregar Primaveras tão grandes?

São como as formigas, disse-me a minha mãe.

Afonso Cruz, "30 de Março", in O livro do ano

21 de março de 2013

Poética

Ilustração de Amanda Cass

Quero que o meu poema fale de barcos e de azul, fale
do mar e do corpo que o procura, fale de pássaros e
do céu em que habitam. Quero um poema puro, limpo
do lixo das coisas banais, das contaminações de quem
só olha para o chão; um poema onde o sublime nos
toque, e o poético seja a palavra plena. É este poema
que escrevo na página branca com a parede que
acabou por ser caiada,com as suas imperfeições
apagadas pela luz do dia, e um reflexo de sol
a gritar pela vida. E quero que este poema desça
às caves onde a miséria se acumula, aos bancos onde
dormem os que não têm tecto nem esperança,
às mesas sujas dos restos da madrugada, às
esquinas onde a mulher da noite espera o último
cliente, ao desespero dos que não sabem para onde
fugir quando a morte lhes bate à porta. E canto
a beleza que sobrevive às frases comuns, às
palavras sujas pelo quotidiano dos medíocres,
aos versos deslavados de quem nunca ouviu
o grito do anjo. E digo isto para que fique, no
poema, como a pedra esculpida por um fogo divino.

Nuno Júdice, in A matéria do poema

Primavera

Ilustração de Juri Romanov




Fiquei à janela a ver a noite
deitar os pássaros nos ninhos. 


Afonso Cruz, "21 de Março" in O livro do Ano