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15 de setembro de 2012

O despertador

Ilustração de Yasmin Mundaca


Um despertador exposto sobre um tapete cheio de pó era tudo quanto possuía, para vender, o pobre comerciante árabe. Durante dias, reparou que uma velha se interessava pelo relógio. Era uma beduína, pertencente a uma daquelas tribos que voam com o vento.
«Desejas comprá-lo?», perguntou-lhe um dia.
«Quanto custa?»
«Pouco. Mas não sei se o vendo. Se também este desaparecer deixarei de ter um trabalho».
«Então porque o tens exposto?»
«Porque me dá a sensação de viver. E tu porque o queres, não vês que lhe faltam os ponteiros?»
«Faz tiquetaque?», quis saber a velha.
O comerciante deu corda ao despertador fazendo soar um sonoro e metálico tiquetaque. A velha fechou os olhos e percebeu que, na escuridão da noite, podia assemelhar-se a um coração que bate ao lado do seu.

             Tonino Guerra, in Histórias para uma noite de calmaria

14 de setembro de 2012

Diálogo com os livros


A partir do momento da leitura, e mesmo sem o esperarmos, começamos - em nós e depois com os outros - a falar dos livros, e é com esses discursos e opiniões que teremos que nos relacionar, relegando para bem longe os livros reais, que se tornam, assim e para sempre, hipotéticos.


Ilustração de Allien Posada


Pierre Bayard, in Como falar dos livros que não lemos? (2008:49)

É preciso ler?

Ilustração de Gustavo Aimar

É preciso ler, é preciso ler...

E se em vez de exigir leitura o professor decidisse de repente partilhar o seu prazer de ler?


Daniel Pennac, in Como um romance

13 de setembro de 2012

A hora da partida

Ilustração de Alison Hill
A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando 
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

Sophia de Mello Breyner Andresen

12 de setembro de 2012

Ritmo

- Olha este poema: "Aqui na Ilha, o mar, e quanto mar. Sai de si mesmo, a cada instante. Diz  que sim, que não, que não. Diz que sim, em azul, em espuma, em galope. Diz  que não, que não. Não pode estar quieto. Chamo-me mar, repete pegando numa pedra sem conseguir convencê-la. Então com sete línguas verdes, de sete tigres verdes, de sete cães verdes, de sete mares verdes, percorre-a, beija-a, humedece-a, e bate no peito repetindo o seu nome." - Fez uma pausa satisfeito. - O que achas?

Ilustração de Amy Weber

- Estranho.

- "Estranho." Que crítico mais severo és tu!

- Não, Don Pablo. Estranho não é o poema. Estranho é como eu me sinto quando recitou o poema.


Antonio Skármeta, in O Carteiro de Pablo Neruda

11 de setembro de 2012

O múltiplo é Um


Ilustração de Helen M. Waters
 _______ e volto à penumbra, para lá do bem e do mal:
            “e tu como vais, Christine?”
            “torno-me lentamente “une vieille femme”,
            uma mulher que envelhece, uma velhinha.”


Ela dissera apenas "je deviens une vieille femme", e fora eu, sempre possuída pelo mesmo eco que amplifica, que vira imediatamente em imagem "torno-me lentamente une vieille femme, uma mulher que envelhece, uma velhinha."

Disse-lhe, a pouco e pouco, deslizando entre a minha língua e a dela: "Christine, estou sempre sobre a ruína de escrever",         e ela compreendeu que eu devia estar a vê-la, pálida no tecido quase sem cor, ou sendo a sua pele, de cor perdida, o contorno da saia e da blusa;

"agora, além de saber igualmente ler e escrever, sei também brincar - não utilizo os fios para os mesmos fins." Vestia a cor evanescente dos cereais (a saia), e uma pequeníssima quantidade de cor que, ao voltar as costas para mim,        me deixou no pátio; da cor, nasceu a peça de violoncelo que ela executava        e, do violoncelo,           a sonoridade de um sonho que ela tivera na noite seguinte ao dia em que falara comigo:

Ilustração de Mariane Seoane Pascuale
"esboçou, na toalha onde também tinham comido as duas crianças, o desenho cintilante de pequenas notas a que eu principiei imediatamente a dar uma resposta: "sois folhas: o Amado é múltiplo, embora Um"."





                                                                                          Maria Gabriela Llansol, "Prólogo", in O Raio sobre o lápis

10 de setembro de 2012

A paz e a pobreza

Ilustração de M. Gleenwood

 
...a pobreza é, provavelmente, a mais séria ameaça à paz mundial...

Muhammad Yunus, in Criar um mundo sem pobreza*


 * Prémio Nobel da Paz 2006 

Ilustração de Julia Wakefield
 

9 de setembro de 2012

Justiça Robin dos Bosques

Ilustração de Daniela Giarratana


Os preços serão estipulados de acordo com o princípio "Robin dos Bosques". Os pacientes normais pagarão a preços de mercado, sendo cobrada aos pobres apenas uma taxa simbólica. Se os nossos cálculos estiverem certos - e se formos capazes de prestar cuidados de oftalmologia excelentes, atraindo um número suficiente de doentes "pagantes"-, os hospitais serão auto-suficientes e terão capacidade para expandir os serviços indefinidamente.


Muhammad Yunus, in Criar um mundo sem pobreza*


* Palavras do  Prémio Nobel da Paz 2006, a propósito do plano de negócios de hospitais no Bangladesh, um dos países mais pobres do mundo, para fornecer cuidados de saúde aos pobres.

A Fotografia


Ilustração de Victoria Kirdy

Uma tarde, no comboio, um homem, de pé, sentiu uma mão tocar-lhe e reparou que um jovem soldado lhe oferecia o seu lugar, como se faz com os velhos. Aceitou, cheio de vergonha, por ser a primeira vez que lhe sucedia e, de olhos perdidos naquela noite que se escapava pelas janelas, de repente, sentiu-se desolado pela sua idade. Depois fechou-se em casa e a sua tristeza trespassava os muros, circulando pelas estradas. Era manhã, quando a carta chegou de uma cidade distante. Abre-a e encontra a fotografia de uma senhora anciã, completamente nua. Nenhum comentário ou assinatura. Mete os óculos para procurar nas velhas feições da mulher se, por acaso, a conhecia. Descobriu que se tratava do único grande amor da sua vida. E, conhecendo a grandeza da sua alma, de imediato percebeu a intenção da mensagem: a mulher, sabendo que ele vivia triste, não se envergonhava de lhe mostrar o próprio corpo, para o fazer perceber que não devia angustiar-se e que os sentimentos são mais fortes do que a carne.



Tonino Guerra, in Histórias Para Uma Noite de Calmaria

8 de setembro de 2012

A Espera

Ilustração de Mariana Kalacheva


Estava tão apaixonado que se fechou em casa, sentado junto à porta, para poder abraçá-la assim que ela batesse para lhe vir confessar que também o amava.
Mas ela não veio e ele envelheceu. Um dia alguém tocou, levemente, à porta e ele, apavorado, fugiu, escondendo-se atrás do armário.

Tonino Guerra, in Histórias para uma noite de calmaria

Mar de setembro

Ilustração de Cathy Delanssay


Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves - só
ritmo e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto.
Puríssimo. Doirado.

Eugénio de Andrade, in Mar de Setembro

7 de setembro de 2012

Os pequenos prazeres

O copo de água fresca
sobre a mesa,
a réstia de luz incendiando
ainda a mão,

Ilustração de Ayumi Makita
as palavras que dão sentido à arte
dos dias a caminho do fim,
"a beleza
é o esplendor da verdade",

o sol
que dos flancos do muro sobe
ao olhar do gato,
o silêncio de ramo em ramo,

a chuva em surdina
na folhagem do jardim
- a chuva e a cumplicidade
de Gieseking e Debussy.

Eugénio de Andrade, in Os Lugares do Lume

Autoestrada global

Ilustração de Andreas M. Wiese
O comércio global é como uma auto-estrada de uma centena de pistas que cruza o mundo. Se esta auto-estrada não tiver portagens, nem semáforos, nem limites de velocidade, nem restrições de tonelagem, nem, sequer, separadores, ela acabará por ser ocupada pelos camiões gigantes das economias mais poderosas do mundo.  Pequenos veículos - a camioneta de um agricultor ou as carroças puxadas por búfalos e os riquexós do Bangladesh - serão obrigados a abandonar a auto-estrada.
 
  
Muhamad Yunus*, in Criar um mundo sem pobreza (2008: 88)

*Prémio Nobel da Paz 2006

6 de setembro de 2012

Pessoas bonsai

Ilustração de Simona Dimitri


As pessoas pobres são pessoas bonsai. Não existe nada de errado com as sementes. A sociedade é que nunca lhes deu uma base adequada para crescerem. Tudo o que é necessário para tirar os pobres da pobreza é que criemos um ambiente favorável em volta deles. Quando os pobres forem autorizados a libertar a sua energia e criatividade, a pobreza desaparecerá rapidamente.
 
Muhamad Yunus*, in Criar um mundo sem pobreza (2008: 88)


*Prémio Nobel da Paz 2006

5 de setembro de 2012

Orfandade de amor


Ilustração de Berk Özturk





...agora reparava que os pais nos dão algo mais do que coisas úteis e que, quando se vão, nos deixam órfãos, tenhamos nove ou noventa anos.




Juan José Millás, in A Ordem Alfabética

4 de setembro de 2012

Linguagem

Ilustração de Anna Lisk
A linguagem é um excelente indício a respeito das pessoas.
Zoran Zivkovic, in O Escritor-Fantasma

3 de setembro de 2012

Escrita e literatura

René Magritte

Hoje em dia, as pessoas pensam que a mera alfabetização é garantia suficiente para tentarem escrever. É o mesmo que pensar que para ser pintor bastam os materiais de arte. Apenas aqueles que estudaram meticulosamente a literatura podem sonhar em criar algo.

Zoran Zivkovic, in O Escritor-fantasma

Liberdade humana

A vida do homem não pode "ser vivida" repetindo os padrões da espécie; é ele próprio - cada um de nós - quem deve viver. O homem é o único animal que pode estar aborrecido, que pode estar enojado, que pode sentir-se expulso do paraíso.
Erich Fromm, in Ética e Psicanálise, apud Savater, Ética para um jovem

2 de setembro de 2012

Sim ou Não

Ilustração de Anna Silivonchik
 
A liberdade não é uma filosofia e nem sequer é uma ideia: é um movimento da consciência que nos leva, em certos momentos, a proferir dois monossílabos: Sim ou Não. Na sua brevidade instantânea,  como a luz do relâmpago, desenha-se assim o sinal contraditório da natureza humana.
 
Octavio Paz, in A Outra Voz, apud Savater, Ética para um jovem
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

31 de agosto de 2012

O sol o muro o mar

Ilustração de Brenda Montes
No quadrado aberto da janela o mar cintila coberto de
escamas e brilhos como na infância.
O mar ergue o seu radioso sorrir de estátua arcaica.
Toda a luz se azula.
Reconhecemos nossa inata  alegria: a evidência do lugar
sagrado.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Ilhas