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27 de março de 2016

Páscoa Feliz

 
il. Evgenia Gapchinska
Que os nossos olhos, feitos para olhar as estrelas, não morram a olhar para os nossos sapatos.

Tolentino Mendonça, in O tesouro escondido

25 de março de 2016

Pai, Pai, por que me abandonaste?

Ilustração de Gurbuz Dogan Eksioglu

Mas a imagem do homem continuava sozinha: a cabeça levantada que olhava o céu com uma expressão de infinita solidão, de abandono e de pergunta.
 
E do fundo da memória, trazidas pela imagem, muito devagar, uma por uma, inconfundíveis, apareceram as palavras:

– Pai, Pai, por que me abandonaste?
 
il. Vanja Todoric
 
Então compreendi por que é que o homem que eu deixara para trás não era um estranho. A sua imagem era exactamente igual à outra imagem que se formara no meu espírito quando eu li:

– Pai, Pai, por que me abandonaste?

Era aquela a posição da cabeça, era aquele o olhar, era aquele o sofrimento, era aquele o abandono, aquela a solidão.
Para além da dureza e das traições dos homens, para além da agonia da carne, começa a prova do último suplício: o silêncio de Deus.

Ilustração de Gurbuz Dogan Eksioglu

E os céus parecem desertos e vazios sobre as cidades escuras.


Sophia de Mello Breyner,"O Homem" in Contos Exemplares

21 de março de 2016

Receita de mulher

 
Ilustração de Magalie Bucher
As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como o âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
 

Ilustração de Alessandra Cimatoribus
 
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteia em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas. 
 
 
Ilustração de Magalie Bucher

Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebal
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37º centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade 
 
 
 
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.
compartilhar.

Vinicius de Moraes

19 de fevereiro de 2016

Dinamismo do dom

Ilustração de Sergio Gontz



É importante que a rotina da cozinha não emudeça o dinamismo do dom, sermos dom acolhendo o dom uns dos outros. 




Tolentino Mendonça, in Nenhum caminho será longo, Para uma teologia da amizade, Paulinas, 2012, p.89

16 de fevereiro de 2016

Amizade e gratuidade

Ilustrações de Serena Curmi
O "ato gratuito" é um gesto que nos salva. Sabemos isso tão bem na vivência da amizade. 
 

O gratuito subtrai-nos à ditadura das finalidades que acabam por desviar-nos de um viver autêntico. A gratuidade é um viver mergulhado no ser. Ela dá-nos acesso à polifonia da vida, na sua variedade, nos seus contrastes, na sua realidade densa, na sua inteireza. 

 Tolentino Mendonça, in Nenhum caminho será longo, Para uma teologia da amizade, Paulinas, 2012, p.135

14 de fevereiro de 2016

Desprendimento

Katalin Szegedi







A amizade é uma arte de desprendimento.

  
Tolentino Mendonça, in Nenhum caminho será longo, 

Para uma teologia da amizade, Paulinas, 2012, p. 126

13 de fevereiro de 2016

A amizade é um contínuo perfumado


Ilustração de Raphaël Vavasseur


A amizade não se alimenta de encontros episódicos ou de feitos extraordinários. A amizade é um contínuo. Tem sabor a vida quotidiana, a espaços domésticos, a pão repartido, a horas vulgares, a intimidade, a conversas lentas, a tempo gasto com detalhes, a risos e a lágrimas, à exposição confiada, a peripécias à volta de uma viagem ou de um dia de pesca. 

 
Ilustração de Maja Veselinovi


A amizade tem sabor a hospitalidade, a corridas atarefadas e a tempo investido na escuta. A amizade enche a casa de perfume (cf. Jo 12,3).

  
 
Tolentino Mendonça, in Nenhum caminho será longo, Para uma teologia da amizade, Paulinas, 2012, p. 108

9 de fevereiro de 2016

Amor e Carnaval

Ilustração de Maja Veselinović


Se o amor é fantasia, eu me encontro ultimamente em pleno Carnaval.

Vinícius de Moraes

3 de fevereiro de 2016

Filosofia

 
Ilustração de Evangelina Prieto


Construo o pensamento aos pedaços: cada
ideia que ponho em cima da mesa é uma parte do
que penso; e ao ver como cada fragmento se
torna um todo, volto a parti-lo, para evitar
conclusões.

    Nuno Júdice, in Pedro, lembrando Inês, Dom Quixote, 2001,p. 38

30 de janeiro de 2016

Saudades


Ilustração de Claire Mojher

Não tenho saudades de mim, não tenho saudades de nada: amanhã é o dia de hoje.


Vergílio Ferreira, in Aparição, Bertrand, 2000, 54ªed., p. 145

29 de janeiro de 2016

A escrita perpetua a existência

Ilustração de Raquel Marin Bo

Escrevo para ser, escrevo para segurar nas minhas mãos inábeis o que fulgurou e morreu.

 Vergílio Ferreira, in Aparição, Bertrand, 2000, 54ªed., p. 193

28 de janeiro de 2016

Desejo de escrever

 
Ilustração de Stephanie Graegin

...o que me excita a escrever é o desejo de me esclarecer na posse disto que conto...


 Vergílio Ferreira, in Aparição, Bertrand, 2000, 54ªed., p. 193

26 de janeiro de 2016

O tempo e a rosa



 
Ilustração de Joanna Pasek


Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.

Saint-Exupéry, in O Principezinho

20 de janeiro de 2016

Variação sobre rosas

Como as rosas selvagens, que nascem
em qualquer canto, o amor também pode nascer
de onde menos esperamos. O seu campo
é infinito: alma e corpo. E, para além deles,
o mundo das sensações, onde se entra sem
bater à porta, como se esta porta estivesse sempre
aberta para quem quiser entrar. 



Ilustração de Kristian Adam
Tu, que me ensinas o que é o
amor, colheste essas rosas selvagens: a sua
púrpura brilha no teu rosto. O seu perfume
corre-te pelo peito, derrama-se no estuário
do ventre, sobe até aos cabelos que se soltam
por entre a brisa dos murmúrios. Roubo aos teus
lábios as suas pétalas.

E se essas rosas não murcham, com
o tempo, é porque o amor as alimenta. 



                                                   Nuno Júdice, in Pedro, lembrando Inês, Dom Quixote, 2001, p.11
 

17 de janeiro de 2016

Os poetas

 
Ilustração de Nicoletta Ceccoli



...os poetas são melhores a inventar
do que a viver



José Jorge Letria, in "Poema para uma mãe que parte"

15 de janeiro de 2016

Misturados com a vida

Ilustração de April Duke  

Ninguém nos pode incomodar quando estamos quietos no lugar onde vivemos, onde sonhamos, de onde saímos para a rua misturados com a vida de todos os dias.

José Jorge Letria, in A vida segundo Goya, Guerra e Paz, 2015, p. 40

14 de janeiro de 2016

Quem és tu?


Ilustração de Mila Gablasova

Se alguém quiser saber quem eu sou, regresso à memória dos livros que li (…) e respondo como o romeiro de Frei Luís de Sousa: “Ninguém”.



              José Jorge Letria, in Coração sem abrigo

Criança abandonada


Ilustração de Mila Gablasova


E que hei-de agora fazer com esta criança acabada de abandonar num contentor de lixo e que podia ser meu filho ou meu neto?

 
José Jorge Letria, in Coração sem abrigo

13 de janeiro de 2016

Velhice

Ilustração de Victo Ngai






A velhice é outra forma de contar o tempo.


José Jorge Letria, in A vida segundo Goya
Guerra e Paz, 2015, p. 139

12 de janeiro de 2016

A porta do sonho


 
Ilustração de Claire Mojher
 

Quando queremos sonhar, aqueles de quem gostamos são a porta que se abre para o território da vida a transformar-se.

José Jorge Letria, in A vida segundo Goya, Guerra e Paz, 2015, p. 17