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22 de fevereiro de 2013

O jardim e a casa

Ilustração de Mariana Kalacheva



Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade.



Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética I

20 de fevereiro de 2013

As pessoas sensíveis

Ilustração de Ira Tsantekidou






As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo    
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão." 
Ó vendilhões do templo 
Ó construtores 
De grandes estátuas balofas e pesadas 
Ó cheios de devoção e de proveito 

Perdoai-lhes Senhor 
Porque eles sabem o que fazem 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

Praia

Ilustração de Adrienne Trafford
Na luz oscilam os múltiplos navios
Caminho ao longo dos oceanos frios

As ondas desenrolam os seus braços
E brancas tombam de bruços

A praia é longa e lisa sob o vento
Saturada de espaços e maresia

E para trás fica o murmúrio
Das ondas enroladas como búzios.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in No Tempo Dividido (1954)

Praia



Ilustração de Anton Gorcevich
Os pinheiros gemem quando passa o vento
O sol bate no chão e as pedras ardem.

Longe caminham os deuses fantásticos do mar
Brancos de sal e brilhantes como peixes.

Pássaros selvagens de repente,
Atirados contra a luz como pedradas,
Sobem e morrem no céu verticalmente
E o seu corpo é tomado nos espaços.

As ondas marram quebrando contra a luz
A sua fronte ornada de colunas.

E uma antiquíssima nostalgia de ser mastro
Baloiça nos pinheiros.


Dormem na praia os barcos pescadores
Imóveis mas abrindo
Os seus olhos de estátua

E a curva do seu bico
Rói a solidão.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral (1950)

19 de fevereiro de 2013

O artista e o infinito

Ilustração de Joan Louis


O artista exprime o instinto espiritual da humanidade, traduz a tensão do homem em direcção ao eterno ou a uma qualquer forma de transcendência. A arte transporta em si uma nostalgia do ideal e exprime sempre a sua procura. A música de Bach ou de Vivaldi ecoará para sempre nas falésias de mármore que nos aprisionam e será sempre a nossa única evasão possível. O artista, no seu movimento para o Ideal, perturba a estabilidade de uma sociedade. A sociedade aspira à estabilidade, o artista aspira ao infinito.

 Rui Chafes, "O perfume das buganvílias 19" , in Entre o  céu e a terra, Documenta, 2012

18 de fevereiro de 2013

De passagem

Ilustração de Danuta Wojciechowska


Num árido e abrupto vale, habitado apenas pelo rumor longínquo do rio lutando para conseguir passar entre as estreitas fragas, uma voz disse-me que só estamos aqui de passagem, que a nossa estadia na terra é temporária. Sentado nas pedras, aprendi que essa voz, atravessando aquela solidão arcaica e silenciosa, era o próprio rio, imparável. 


Rui Chafes, "O perfume das buganvílias 1" , in Entre o  céu e a terra, Documenta, 2012

17 de fevereiro de 2013

O dia

Ilustração de Dilka Bear
Passa o dia contigo
Não deixes que te desviem
Um poema emerge tão jovem tão antigo
Que nem sabes desde quando em ti vivia  

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Ilhas





15 de fevereiro de 2013

Escuta


Ilustração de Daniela Giarratana




Não tens de escutar. Tens de te escutar.

José Tolentino Mendonça, in O Estado do Bosque, Cena III

14 de fevereiro de 2013

Nada nosso


Ilustração de Leicia Gotlibowski

Nada nosso que estás no Nada
Seja Nada o teu nome
Venha a nós o Nada do Teu Reino
Seja claro o Nada da Tua Vontade
Assim na Terra como no Céu.
O Nada que nos alimenta nos dá hoje
Perdoa-nos sempre que não formos Nada
Como tentaremos perdoar a cada uma das Tuas criaturas
Não nos deixes incorrer em tentação
E livra-nos de não sermos o Teu Nada.

José Tolentino Mendonça, in O Estado do Bosque, Cena IV

13 de fevereiro de 2013

A meta e o caminho



Ilustração de Stefano Arici
Quem não apaga a meta não vê nada do que está entre o início e o fim do caminho.

José Tolentino Mendonça, in O Estado do Bosque, Cena III




Sou

Ilustração de Scott Kahn






Não digas: aprendo a caminhar na escuridão. Diz somente: sou.


 José Tolentino Mendonça, in O Estado do Bosque, Cena III

12 de fevereiro de 2013

A meta


Ilustração de Katy Hare
Quem apenas quer a meta não viaja.


José Tolentino Mendonça, in O Estado do Bosque, Cena III

11 de fevereiro de 2013

Regresso ao bosque



Ilustração de James C. Christensen


Um dia os homens deixarão os aviões, os transatlânticos, os comboios de alta velocidade, os automóveis para regressar aos caminhos do bosque.


José Tolentino Mendonça, in O Estado do Bosque, Cena III

À entrada do bosque


Eu sou apenas um estranho à beira de um bosque.

José Tolentino Mendonça, in O Estado do Bosque, Cena III

Ilustração de Stefano Arici

10 de fevereiro de 2013

Os sentidos dos trilhos

Ilustração de Scott Kahn

Cada trilho conduz a mais do que um sentido.


José Tolentino Mendonça, in O Estado do Bosque, Cena I

E ele não sentia medo

Ilustração de Aki


JACOB [descrevendo como John Wolf vive a sua cegueira]


A paisagem apagava-se nos seus olhos, e ele não sentia medo. Sem ver, olhava. Era como se aceitasse a nova forma de solidão. Nada mais que o passo silencioso nos degraus que sobem em espiral. Nada mais que o rumor do seu fino bordão.


José Tolentino Mendonça, in O Estado do Bosque, Assírio & Alvim, 2013, 1ª ed.,   Cena II, p.20

9 de fevereiro de 2013

O Estado do Bosque

Ilustrações de Aki

Na recente obra dramática de José Tolentino Mendonça, o bosque é metáfora de plenitude, de busca, de local de encontro com Deus. As personagens são guiadas por um cego, John Wolf, que tem do mundo uma perceção sensorial e bela, de confiança:


JOHN WOLF

(...) Finalmente vejo o rosto de Deus.


 José Tolentino Mendonça, in O Estado do Bosque, Assírio & Alvim, 2013, 1ª ed., Cena IV, p. 38





Apenas assim...

Ilustração de Victor Nizovtsev 

A leitura promove-se lendo. Apenas assim.

Rodolfo Castro, in A intuição leitora, a intenção narrativa, Gatafunho


8 de fevereiro de 2013

Ilusão sonora

Ilustrações de Victor Nizovtsev 


















...a leitura em voz alta exige um acto de criação: uma ilusão sonora que possa ser vista. Não se lê em voz alta para se ser escutado, lemos em voz alta para que os que nos escutam vejam o som, nele se abriguem, o habitem.


A leitura em voz alta não se pode limitar a atribuir às palavras um som qualquer. Há que dar-lhes o som que lhes corresponde, o som com que essas palavras querem ser ditas.

Rodolfo Castro, in A intuição leitora, a intenção narrativa, Gatafunho

5 de fevereiro de 2013

Som

Ilustração de Anne Marie Hugot
Fica-nos na retina a cor verde e nos ouvidos a flauta afastada dos melros.

Raul Brandão, in As ilhas desconhecidas