Número total de visualizações de páginas

10 de julho de 2015

Deixei-te um beijo sobre a tua almofada


Ilustração de Mariana Kalacheva


Saio da cama pela fenda do lençol e
fecho-a sobre ti. Toco o chão ao de
leve, como uma ave pousa na pele
das ondas. Visto-me às escuras — tão

mais discreta a blusa do avesso, a saia
tão distraída nas costuras. Vou
para a cozinha de sapatos na mão e

escrevo-te um bilhete: deixei-te um
beijo sobre a tua almofada antes
de sair. Não preciso assinar.


 Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p.194

8 de julho de 2015

Talvez este amor estivesse escrito...

 Ilustração de Ruth Taylor


Esgotamos os desacordos
em livros pequenos: lermos
juntos substitui a cama e as
conversas. Talvez este amor

estivesse escrito e, por isso,
ao virar da página, haja
sempre uma mão do outro lado,
quente, apertada na nossa.



 
 Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 241

7 de julho de 2015

Entraste numa tarde, por engano

Nunca soube o teu nome. Entraste numa tarde,
por engano, a perguntar se eu era outra pessoa -
um sol que de repente acrescentava cal aos muros,
um incêndio capaz de devorar o coração do mundo.



Ilustração de Mariana Kalacheva

Não te menti; levantei-me e fui levar-te à porta certa
como um veleiro arrasta os sonhos para o mar; mas,
antes de te deixar, disse-te ainda que nessa tarde
bem teria gostado de chamar-me outra coisa - ou
de ser gato, para poder ter mais do que uma vida.



           Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 157

5 de julho de 2015

Se ainda não sabias...

Ilustração de Aurélie Blanz

Não tenho planos, nem promessas, nem
filhos que nos convidem para almoços
de domingo – a minha ideia de família
resume-se a um retrato velho preso numa
gaveta; e do amor possível sei tão-só

o que li nos romances que nos salvaram
da desordem quando o meu tempo
andava de ferida em cicatriz. Mas guardo
ainda muitos por estrear para essa estante

que ergueste no corredor como uma casa
nova. E trago portas abertas no coração:



se ainda não sabias, és muito bem-vindo.


 Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 239

2 de julho de 2015

Muda de vida ou muda de poema

Ilustração de Dinara Mirtalipova
Um poema não é uma coisa que se coloca sobre o teu dia como um condimento sobre o teu almoço.
A vida de uma pessoa não tem material semelhante a nada que conheças. Existir é feito de peças impossíveis de copiar.
E a poesia não entra nesse material único - a vida de uma pessoa - como o avião no ar ou o acidente do avião na terra dura. Um poema não é manso nem meigo, não é mau nem ilegal.
Os homens não se medem pelos poemas que leram, mas talvez fosse melhor.
O que é a fita métrica comparada com algo intenso?
Há poemas que explicam trinta graus de uma vida e poemas que são um ofício de demolição completa: o edifício é trocado por outro, como se um edifício fosse uma camisa.  
Muda de vida ou, claro, muda de poema.

Gonçalo M. Tavares, in A Perna Esquerda de Paris

1 de julho de 2015

Recette pour faire le bleu



Van Gogh

 
Si tu veux faire du bleu,

prends un morceau de ciel et mets-le dans une grande marmite,

que tu puisses porter au feu de l'horizon;

puis mélange-le avec un reste du rouge

de l'aube, jusqu'à ce qu'il ait fondu;

verse le tout dans une bassine bien propre,

pour qu'il ne reste rien des impuretés de l'après-midi.

Pour finir, tamise un reste d'or du sable

de midi, jusqu'à ce que la couleur attache au fond métallique.

Si tu veux, pour que les couleurs ne passent pas

avec le temps, jette dans le liquide un noyau de pêche brûlé.

Tu le verras fondre, sans laisser la moindre trace comme si

tu ne l'y avais mis; et le noir de cendre ne laissera pas même un reste d'ocre

sur la surface dorée. Tu pourras, alors, porter la couleur

à hauteur des yeux, et la comparer avec le bleu authentique.

Les deux couleurs te paraîtront semblables, sans qu'il

te soit possible de les distinguer l'une de l'autre.

Voilà comment j'ai procédé - moi, Abraham ben Juda Ibn Haïm,

enlumineur de Loulé - et comment j'ai laissé la recette à qui voudrait,

un jour, imiter le ciel.

Nuno, JUDICE, inédit, traduction faite par les élèves du séminaire de

Michèle Gindicelli à l'université de Lyon




29 de junho de 2015

Dios quiso que la tierra fuese toda una

Ilustração de Raffaele Conte
 

Dios quiere, el hombre sueña, la obra nace. 
Dios quiso que la tierra fuese toda una,
que el mar uniese, ya no separase.

Consagróte, y fuiste desvelando la espuma,


y la orla blanca fue de isla en continente,
clareó, corriendo, hasta el fin del mundo,
y vióse la tierra entera, de repente,
surgir, redonda, del azul profundo.


Quien te consagró te creó portugués.
Del mar y de nosotros en ti nos dio señal.
Cumplióse el Mar, y el Imperio se deshizo.
¿Señor, falta por cumplirse Portugal!



Fernando Pessoa, "El Infante" in Mensagem (trad.)

28 de junho de 2015

Dieu veut, l’homme rêve, l’oeuvre naît

Ilustração de Raffaele Conte

Dieu veut, l’homme rêve, l’oeuvre naît,

Dieu voulu que la terre fût une seule

Que la mer unît, qu’elle ne la séparât jamais


Fernando Pessoa, in "L'infant", Mensagem (trad.)

27 de junho de 2015

O Infante

Ilustração de Raffaele Conte


Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

Deus quis que a terra fosse toda uma,

Que o mar unisse, já não separasse.

Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.


E a orla branca foi de ilha em continente,
 

Clareou, correndo, até ao fim do mundo,

E viu-se a terra inteira, de repente,

Surgir, redonda, do azul profundo.


Quem te sagrou criou-te português.

Do mar e nós em ti nos deu sinal.

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.

Senhor, falta cumprir-se Portugal!


Fernando Pessoa, in Mensagem

23 de junho de 2015

Classificar o inclassificável

Ilustração de Stephanie Graegin

Os classificadores de coisas, que são aqueles homens de ciência cuja ciência é só classificar, ignoram, em geral, que o classificável é infinito e portanto se não pode classificar. Mas o em que vai meu pasmo é que ignorem a existência de classificáveis incógnitos, coisas da alma e da consciência que estão nos interstícios do conhecimento.
                
                                    
                       Bernardo Soares, in Livro do Desassossego, Assírio&Alvim, 2003, 4ª ed., p.341


22 de junho de 2015

Sonho e realidade

Ilustração de Alessandra Vitelli

Talvez porque eu pense de mais ou sonhe de mais, o certo é que não distingo entre a realidade que existe e o sonho, que é a realidade que não existe. E assim intercalo nas minhas meditações do céu e da terra coisas que não brilham de sol ou se pisam com pés - maravilhas fluidas da imaginação.


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego, Assírio&Alvim, 2003, 4ª ed., p.341

21 de junho de 2015

Instinto



Van Gogh

...o sagrado instinto de não ter teorias...


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego, Assírio&Alvim, 2003, 4ª ed., p.248

18 de junho de 2015

Não ler

Ilustração de Yuri Kuznetsov

Não ler, pensei, era como fechar os olhos, fechar os ouvidos, perder sentidos.

Valter Hugo Mãe, in A desumanização

17 de junho de 2015

Asas libertadoras

Ilustração de Elina Ellis

Que difícil é a vida dos homens. Eles não têm asas para voar por cima das coisas más.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in A Fada Oriana