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18 de março de 2014

Arte poética

Ilustração de Kazu Nitta

Num romance, uma chávena é apenas
uma chávena — que pode derramar
café sobre um poema, se o poeta,
bem entendido, for a personagem.

Num poema, mesmo manchado
de café, a chávena é certamente a
concha de uma mão — por onde eu
bebo o mundo em maravilha, se tu,
bem entendido, fores o poeta.

No nosso romance, não sou sempre
eu quem leva as chávenas para a mesa
a que nos sentamos à noite, de mãos
dadas, a dizer que a lata do café chegou
ao fim, mas a pensar que a vida é
que já vai bastante adiantada para os
livros todos que ainda pensamos ler.

No meu poema, não precisamos de café
para nos mantermos acordados: a minha
boca está sempre na concha da tua mão,
todos os dias há páginas nos teus olhos,
escreve-se a vida sem nunca envelhecermos.

Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 235



17 de março de 2014

Olho-te e não me vês

Ilustração de Lucy Campbell


Olho-te e não me vês. A primavera vigia
a floração das malvas e o girassol retribui
os favores da luz. Eu sento-me onde acho

que vai estar a tua sombra. E, como a dor
que persegue a ferida, vejo-te quando passas,
mas vejo-te melhor quando não passas. Tu

não me vês; caminhas na geometria vã de
uma linha sem pontos; às vezes parece que
alguma coisa te detém e viras-te - talvez
então me chames dentro de ti, talvez até
me olhes. Mas não me vês.


Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 165

15 de março de 2014

Que é das palavras?

Ilustração de Marie Desbons



Que é das palavras? Como chamar

por quem as esconde se, sem elas,

nem o silêncio tem nome?


Maria do Rosário Pedreirain Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 144

13 de março de 2014

Brotavam flores

 
Ilustração de Lucy Campbell
 
O problema era que a chuva desarranjava tudo e nas máquinas mais áridas brotavam flores entre as engrenagens se não fossem oleadas todos os três dias, enferrujavam os fios dos brocados e nasciam algas de açafrão na roupa molhada. A atmosfera era tão húmida que os peixes teriam podido entrar pelas portas e sair pelas janelas, navegando pelo ar das divisões da casa.

Gabriel García Márquez, in Cem anos de solidão, D. Quixote, 2009, 26ªed., p. 320

11 de março de 2014

Verdes são os campos (2)

Ilustração de Joan Louis                                                                                                                           




10 de março de 2014

Verdes são os campos (1)

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Ilustração de Olga Kvasha

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Luís de Camões


9 de março de 2014

Há palavras que nos beijam

Ilustração de Mariano Diaz Prieto

Manhã

 
Ilustração de Dennis Wojtkiewicz



Como um fruto que mostra
Aberto pelo meio
A frescura do centro

Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro.




Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 392

8 de março de 2014

Escrita do poema


 
Ilustração de Catherine Zarip


A mão traça no branco das paredes
A negrura das letras
Há um silêncio grave
A mesa brilha docemente o seu polido

De certa forma
Fico alheia

Sophia de Mello Breyner Andresen, Geografia, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 523

7 de março de 2014

Em poucas linhas de papel


Ilustração de Luís Silva

Em poucas linhas de papel

o voo do génio infinito. 




Em poucas linhas de papel

todos os limites ultrapassados.   




Em poucas linhas de papel

a conquista universal do pensamento.       




Em todas as linhas de papel

sempre o génio encarcerado.


               
         Teobaldo Virgínio, poeta cabo-verdiano

6 de março de 2014

Carta de condução

Ilustração de Juana Martinez-Neal


Agora, os meus olhos contam quilómetros nos teus,


procuro papéis entre os papéis do guarda-luvas e


tenho tanto medo que me vendas em segunda mão.



José Luís Peixoto

5 de março de 2014

Vem sentar-te comigo

Ilustrações de Karin Iwabuchi


Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)


Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
 
 

 
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

 
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.


 Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçámos as mãos, nem nos beijámos
                   Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
                   Pagã triste e com flores no regaço.

 
                                                                                                    Ricardo Reis

4 de março de 2014

Se partires, não me abraces


Se partires, não me abraces - a falésia que se encosta
uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre
e sonha com viagens na pele salgada das ondas.

Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces -


 

Ilustrações de Carlotta Castelnovi

o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém - longe de ti, o corpo não faz
senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.

Se me abraçares, não partas.

Maria do Rosário Pedreira
, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p.101

2 de março de 2014

Enigma ornitológico



Ilustração de Kristin Kwan
Um pássaro entrou numa nuvem.

Uma nuvem entrou num pássaro.

“Qual a verdade?”, perguntou

o homem. “Está no pássaro? Ou

está numa nuvem?” E enquanto

o homem procurava a resposta,

o pássaro saiu da nuvem, fazendo

com que a verdade saísse do homem.
 Nuno Júdice, in A Matéria do Poema, Dom Quixote,2008, 1ª ed., p. 91

1 de março de 2014

Coincidência

Ilustração de Roel Obemio
Uma vez, na rua, cruzei-me com um apanhador
de conchas. Tinha os olhos feridos pelo sal, as mãos
abertas pelo ácido das marés, os lábios gretados
por versos inacabados. Recitou-me fórmulas
do campo; anunciou-me a verdade de antigas
profecias. Olhei para cima: e o céu continuava
azul, como se nada se passasse. Mas ele
abriu o cesto das conchas; e um movimento
de caranguejos mostrou-me o fundo da
existência. Talvez eu estivesse a falar
com um morto; ou as suas palavras me
distraíssem do verdadeiro significado
das coisas."Para que serve a poesia,
afinal"? E continuou o seu caminho,
para que eu seguisse o meu, como
se nunca nos tivéssemos encontrado.


Nuno Júdice, in As coisas mais simples, Dom Quixote, 2007, 2ª ed., p. 26

28 de fevereiro de 2014

Há uma luz

Ilustração de Silvano Braido

Há uma luz

sobre as luzes

onde o olhar escapa a todas as luzes


Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 110

27 de fevereiro de 2014

Estás sempre à minha frente

Ilustração de Dilka Bear

Estás sempre à minha frente   

quando penso que não

quando penso que sim


Tolentino Mendonça, in A papoila e o mongeAssírio&Alvim, 2013, p. 93

26 de fevereiro de 2014

Vazio

Ilustração de Victoria Kirdy


Quando se extinguiu

o vermelho da papoila

o jardim ficou vazio


Tolentino Mendonça, in 

A papoila e o monge

Assírio&Alvim, 2013, p. 105



25 de fevereiro de 2014

Ao longe

Ilustração de Silvano Braido
Quando ao longe me voltei

a minha casa 

era um ponto branco


Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 103