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17 de abril de 2012

Não adormeças

Ilustração de Sam Hyuen Kim

Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs
com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

Ilustração de Carme Solé Vendrell
O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.

                                                                            Maria do Rosário Pedreira, in A Casa e o Cheiro dos Livros

Que é a poesia?

Ilustração de Juri Romanov


uma ilha
cercada
de palavras
por todos
os lados.

Cassiano Ricardo

16 de abril de 2012

O cheiro da escrita

Ilustração de Alice Vilhena
E depois estava a escrever... estava a escrever de novo. As  personagens eram só personagens, a casa era só uma gravura, e não havia amor, e não havia sofrimento.

O livro estava a tomar a sua forma definitiva e ela descobria coisas novas nele, estranhas simetrias (assustadoras simetrias), por vezes uma anotação na margem dava um sentido inquietante às outras palavras... E ela encontrava-se naquele estado que não tinha nome, consciência alterada, talvez um estado de graça, e o livro era só a parte visível do que estava a acontecer. E por vezes levantava-se e olhava em volta, porque sentia, muito forte, dentro do quarto, o cheiro da pantera.
Ilustração de Helene Terlien

Ana Teresa Pereira, in A Pantera (2011:85)
 
 
E era um cheiro quente e doce. Um cheiro vivo. Ela criara uma coisa.

ibidem (p.88)

15 de abril de 2012

Amendoeira em flor

Van Gogh, Amendoeira em flor


Um dia sentou-se à secretária e abriu o caderno de capa dura (ramos de amendoeira e céu de um azul único, pormenor de um quadro de Van Gogh) que comprara anos antes em Amesterdão.

Ana Teresa Pereira, in A Pantera (2011:84)

Escrita indefinível

Ilustração de Graham Franciose


De vez em quando distraía-se com a beleza profunda do lugar, e com qualquer coisa de indefinível, quase perigoso, que pairava nas águas, mas isso era parte da sua escrita.
O crepúsculo estava a chegar e os pássaros tinham ficado silenciosos e uma neblina leve formava-se sobre as águas, entre os juncos. Kate ouviu o som de um ramo a partir-se e voltou-se bruscamente, embora soubesse que só podia ser ele.

Ana Teresa Pereira, in A Pantera (2011:77)

14 de abril de 2012

Medo da escrita

Ilustração de Liu Ye


E na mala levava os seus notebooks, o seu livro. Queria começar a escrevê-lo, e ao mesmo tempo tinha um medo enorme de o fazer.


Ana Teresa Pereira, in A Pantera (2011:83)

13 de abril de 2012

Justiça e poder maquiavélico

Ilustração de Marie Desbons
Uma mulher processa um homem em tribunal por difamação de carácter, alegando que lhe chamou porca. O homem é considerado culpado e obrigado a pagar-lhe uma indemnização. Após o julgamento, o homem pergunta ao juíz:

- Isto significa que nunca mais poderei chamar porca à senhora Harding?
- Correcto - responde o juíz.
- E isso  significa que não posso chamar senhora Harding a uma porca?
- Não - diz o juíz -, o senhor é livre de chamar  senhora Harding a uma porca. Não é crime.
O homem olha a senhora Harding nos olhos e diz:
- Boa tarde, senhora Harding.


Thomas Cathcart e Daniel Klein, (2007: 85), in Platão e um Ornitorrinco entram num bar...Filosofia com humor

12 de abril de 2012

Escuto


Ilustração de Violetno
Escuto mas não sei
se o que oiço é silêncio
ou Deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
o ressoar das planícies do vazio
ou a consciência atenta
que nos confins do universo
me decifra e fita.

Apenas sei que caminho como quem
é olhado, amado e conhecido
e por isso em cada gesto ponho
solenidade e risco.

  Sophia de Mello Breyner Andresen

Rapariga descalça

Ilustração de Mariana Kalacheva
Chove. Uma rapariga desce a rua.
Os seus pés descalços são formosos.
São formosos e leves: o corpo alto
parte dali, e nunca se desprende.

A chuva em abril tem o sabor do sol:
cada gota recente canta na folhagem.
O dia é um jogo inocente de luzes,
de crianças ou beijos, de fragatas.

Uma gaivota passa nos meus olhos.
E a rapariga – os seus formosos pés –
canta, corre, voa, é brisa, ao ver
o mar tão próximo e tão branco.

Eugénio de Andrade

Descalça vai para a fonte


Ilustração de David Galchutt


Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.


Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.




Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.
                                                                                                                          
                                                                  
                                                                                 Luís de Camões

11 de abril de 2012

Coração habitado

Ilustração de Mariana Kalacheva
Aqui estão as mãos.
São os mais belos sinais da terra.
Os anjos nascem aqui:
frescos, matinais, quase de orvalho,
de coração alegre e povoado.

Ponho nelas a minha boca,
respiro o sangue, o seu rumor branco,
aqueço-as por dentro, abandonadas
nas minhas, as pequenas mãos do mundo.

Alguns pensam que são as mãos de deus
— eu sei que são as mãos de um homem,
trémulas barcaças onde a água,
a tristeza e as quatro estações
penetram, indiferentemente.

Não lhes toquem: são amor e bondade.
Mais ainda: cheiram a madressilva.
São o primeiro homem, a primeira mulher.

E amanhece.



Eugénio de Andrade

10 de abril de 2012

Um amigo...


Ilustração de Laimonas Smergelis




...é o lugar da terra
onde as maçãs brancas são mais doces.


Eugénio de Andrade, in "Dissonâncias"

O amor afasta o nevoeiro




Tom fez um gesto, como se afastasse o nevoeiro do cabelo dela.


Ana Teresa Pereira, in A Pantera (2011:53)

9 de abril de 2012

Gratuidade


Ilustração de Laimonas Smergelis


O amor e o espanto, o riso e o dia, a alegria e a dança são sem porquê.



Tolentino Mendonça

8 de abril de 2012

Tudo é canto!

Ilustração de Laimonas Smergelis


A palavra nasceu:
nos lábios cintila.

Carícia ou aroma,
mal poisa nos dedos.

De ramo em ramo voa,
na luz se derrama.

A morte não existe:
tudo é canto e chama.

Eugénio de Andrade, "Metamorfoses da palavra"

Parafuso no vento

Primeiro o menino viu uma estrela
pousada nas pétalas da noite
E foi contar para a turma.
A turma falou que o menino zoroava.

Logo o menino contou que viu o dia
parado em cima de uma lata
Igual que um pássaro pousado sobre uma pedra.
Ele disse: Dava a impressão que a lata amparava o dia.
A turma caçoou.
Mas o menino começou a apertar parafuso no vento.

A turma falou: Mas como você pode apertar
parafuso no vento
Se o vento nem tem organismo.
Mas o menino afirmou que o vento tinha organismo
E continuou a apertar parafuso no vento.

                                                                          
Manoel de Barros, "O vidente" (poeta brasileiro)


Ilustrações de Laimonas Smergelis
Por vezes não entendemos as metáforas.

É preciso  olhos novos, novos sons, para descobrir como a esperança mora por detrás de um gesto: o de um menino que continua a acreditar que é possível “apertar parafuso no vento”. Com persistência. Com esperança. Com gesto renovado. Eis a Páscoa.

A noite anuncia o dia

Ilustração de Laimonas Smergelis
De palavra em palavra
a noite sobe
aos ramos mais altos

e canta o êxtase do dia.


Eugénio de Andrade

7 de abril de 2012

Ah, um dia...

Ilustração de Laimonas Smergelis


Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.
                                     
                                              Eugénio de Andrade, in Metamorfoses da casa

6 de abril de 2012

O baile das sombras


Ilustração de Laimonas Smergelis
O pior é ter atravessado a vida sem naufrágios, isto é, ter permanecido à superfície das coisas, ter dançado o baile das sombras perdidos na inconsistência, ter ficado aprisionados no pântano do "diz-que-diz", das aparências, dos lugares comuns, e não ter sido jamais precipitado, não ter ido jamais até ao fim, até ao fundo, de uma dimensão profunda de si e das relações.


Christiane, Singer, Do bom uso das crises, apud Tolentino Mendonça, op.cit.

Construção da confiança


Ilustração de Laimonas Smergelis
O caminho crente não é o caminho da construção de uma certeza, mas é o caminho da construção de uma confiança, e isto são coisas muito diferentes.

José Tolentino Mendonça, As crises são grandes mestres -
 
Para uma teologia da crise

5 de abril de 2012

Ilustração de Laimonas Smergelis

A poesia é o perde / ganha, e nesta perda inscreve-se a possibilidade surpreendente, inesperada, não óbvia, não programada, não prevista, não estabelecida, mas é tantas vezes a porta (a única porta) por onde o imprevisto de Deus pode entrar na nossa história.


José Tolentino Mendonça, As crises são grandes mestres -
Para uma teologia da crise

Urgentemente

Ilustração de Laimonas Smergelis

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade

Frente a frente


Ilustração de Nerida de Jong
Nada podeis contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco.



 
Eugénio de Andrade

4 de abril de 2012

Talvez de noite

Ilustração de Catrin Welz-Stein
Não abras a porta,
se for o sublime diz que não estou,
já temos palavras de mais, sentimentos de mais.


A glicínia não floriu este ano,
antes floria à volta de tudo
o que resta de azul à nossa volta,
envelheceu, anima-a só o desejo de voltar a casa, de ser uma casa.


Manuel António Pina, in Como se desenha uma casa

3 de abril de 2012

A espera

Ilustração de Alexander Astashonok


O jardim ainda estava meio adormecido, fechado sobre si mesmo.



Ana Teresa Pereira, in A Pantera (2011:52)

2 de abril de 2012

De pequenino se forma o leitor

Ilustração de Dibupoly

A leitura estimula  o cérebro, aumenta os conhecimentos, desenvolve a linguagem, facilita a abertura ao mundo, forma para a vida.

1 de abril de 2012

Folha seca


Ilustração de Anna Silivoncik
Todas as flores aspiram a ser fruto
Todas as manhãs a ser noite,
Não há nada de eterno na Terra
A não ser a mudança, a fuga.

Mesmo o mais belo dos Verões anseia
Por conhecer o Outono, o definhar.
Aguenta-te, folha, mantém-te calma,
Quando o vento te quiser arrebatar.

Deixa estar, não tentes defender-te
Que aconteça o que tiver de ser.
Deixa o vento, que te arranca e parte,
De regresso a casa conduzir-te.

Hermann Hesse, in Elogio da Velhice

A cerejeira em flor


Ilustração de Robert Dunn
O camponês afeiçoou-se a uma cerejeira desde que sua mulher faleceu. Todas as manhãs a visitava, afagando seu tronco. No mês em que o camponês esteve de cama, com bronquite, também a cerejeira adoeceu. Depois levantou-se e voltou a acariciá-la e a falar-lhe e, rapidamente, a cerejeira de mil folhas enfeitou seus ramos.

Um dia, no mercado, ao comprar uma foice, o camponês sentiu um irresistível desejo de regressar aos seus campos. Parecia-lhe que a cerejeira precisava de si. Encontrou-a toda florida, sorrindo para ele.

Sentou-se, então, sob a árvore, com as costas apoiadas no tronco e, de improviso, sobre o corpo do camponês, choveram todas as pétalas da cerejeira em flor.

Tonino Guerra, in Histórias para uma noite calmaria

A uma cerejeira em flor

Ilustração de Silvia Lugli



Acordar, ser na manhã de abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.


Eugénio de Andrade

Noite fechada

André Carrilho, Lisboa que amanhece
Lembras-te tu do sábado passado,
Do passeio que demos, devagar,
Entre um saudoso gás amarelado
E as carícias leitosas do luar?

Bem me lembro das altas ruazinhas,
Que ambos nós percorremos de mãos dadas:
Às janelas palravam as vizinhas;
Tinham lívidas luzes as fachadas.

Não me esqueço das coisas que disseste
(...)

Cesário Verde

31 de março de 2012

E por vezes


Ilustração de Charlie Bearman
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
Nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a vida nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto dos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira

30 de março de 2012

Poesia

Ilustração de Gooroovoo



A poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala duma vida ideal mas duma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.

Sophia de Mello Breyner Andresen

29 de março de 2012

O ilustrador de livros

Ilustração de Rita Cardelli
No princípio era o branco
A terra que as palavras
Cederam ao autor
O pintor leu o fogo
A cabra a ovelha e o corvo
O poeta em bicicleta
Pedalando pelo ar
E atiçou-os no branco
E tingiu-os devagar
Agora o livro é mas o branco escorre ainda
Pelos caminhos dessa imagem
Sulcada pelo olhar

                                                     João Pedro Mésseder

Quase nada

Ilustração de Eugenia Gapchinska
O amor
é uma ave a tremer
nas mãos duma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.

Eugénio de Andrade

28 de março de 2012

As mãos e os frutos

Ilustração de Vladimir Olenberg



V

Nos teus dedos nasceram horizontes
e aves verdes vieram desvairadas
beber neles julgando serem fontes.


Eugénio de Andrade

26 de março de 2012

Madrigal

Klimt, O Beijo






Tu tinhas um nome, e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor.

Eugénio de Andrade

Foi para ti que criei as rosas

Ilustração de Karla Gudeon
Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
E dei às romãs a cor do lume.


Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde dos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
Um corpo aberto como os animais.


Eugénio de Andrade in As mãos e os frutos

A Figueira

Ilustração de Eugenia Gapchinska
Não tenho mãos para o azul.
Sonho com o mar
que não está longe mas não vejo
arder.
Só a sombra parece estar em casa
debaixo dos meus ramos:
canta baixinho enquanto se descalça.

Eugénio de Andrade, in Com o sol em cada sílaba 

25 de março de 2012

Liberdade


Ilustração de Marie Cardouat

O poema é
A liberdade

Um poema não se programa
Porém a disciplina
— Sílaba por sílaba —
O acompanha

Sílaba por sílaba
O poema emerge
— Como se os deuses o dessem
O fazemos
                                    

    Sophia de Mello Breyner Andresen

24 de março de 2012

O jardim da minha vida

Ilustração de Claire Barone
Havia ainda outro jardim o da minha vida
exíguo é certo mas o do meu olhar
são talvez dois pássaros que se amam
um sobre o outro ou dois cães de pé
é sempre a mesma inquietação

este delírio branco ou o rumor
da chuva sobre flancos e barcos
o inverno vai chegar
sobre a palha ainda quente a mão
uma doçura de abelha muito jovem

era o sopro distante das manhãs sobre o mar
e eu disse sentindo os seus passos nos pátios do
coração
é o silêncio e por fim o silêncio
vai desabar

Eugénio de Andrade,Sobre Flancos e Barcos (Véspera de água)

23 de março de 2012

Aniversário

Ilustração de Graham Franciose
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino.
O que fui - ai meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa.
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Para, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos, Poesias

22 de março de 2012

Endzeit

Atrás de ti o caminho luminoso
como se o abismo tivesse uma cabeleira branca

Tolentino Mendonça


Ilustração de Virginia Lee

Primavera

Ilustração de Charlotte Gastaut



a face breve
enuncia o esplendor


Tolentino Mendonça, in A Noite abre Meus Olhos

21 de março de 2012

O poema

Ilustração de Ole Sigurd Walla
O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.

Tolentino Mendonça

Poesia


Ilustração de Andrei Zadorine
No armazém onde apodreciam as batatas, com o cheiro

a terra e raticida dos velhos sacos de estopa, sentei-me

a ler romances de capa e espada nas tardes de calor. Ali,

uma obscuridade de pedra e madeira protegia-me da

luz; um longínquo ruído de cigarras misturava-se

ao voo monótono de sombrios besouros; e do papel

envelhecido dos livros saía o furor de uma paixão que
só nos romances existia. Ah!, em que alcovas secretas

se encontravam os heróis antigos? Que sedas e

cortinas davam acesso a corpos exaustos? Que

ácidas frases traíam decepções de amor? É que

o tempo era feito, então, de tardes sem fim, num
Ilustração de Graham Franciose

tédio solar, multiplicado pela brancura monótona

do horizonte, como se o próprio céu cobrisse a vida

com a sua mortalha luminosa. O romance

chegava ao fim demasiado depressa; os maus

morriam e os bons ganhavam com excessiva facilidade;
a última página não passava de um tímido abraço de

amantes, calando o que viria para além disso. Então, fechando

o livro, dava-se por que a tarde entrava no declínio;

já não se ouviam cigarras, e os besouros escondiam-se
Ilustração de Kirill Chelushkin
nalguma trave do tecto. Sob os sacos, por entre fardos

de palha e peças de máquina, os fantasmas começavam

a acordar. Era o que esse tempo tinha para dar: nem

luz nem treva, nem morte nem vida. Os minutos de

hesitação entre o fim de um livro e o princípio da noite;

e o abrir da porta para o quintal, onde um vento quente

se metia por dentro da lenha já pronta para o forno do pão.

                                                         Nuno Júdice, in Teoria Geral do Sentimento, 1999