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29 de dezembro de 2013

O Menino

Ilustração de Laimonas Smergelis
Neste solstício de Inverno ele vai nascer 

algures no Mundo entre ruínas 

no lugar do não ser ele vai ser 

deitado nas palhinhas sobre as minas 

em todos os meninos o menino 

muçulmano judeu cristão 

o mesmo coração e um só destino.


Manuel Alegre, 2009


Natal


Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Era gente a correr pela música acima.

Uma onda uma festa. Palavras a saltar. 




Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.

Guitarras guitarras. Ou talvez mar.

E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.



No teu ritmo nos teus ritos.

No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).

Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.

E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.

No teu sol acontecia.





Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).

Todo o tempo num só tempo: andamento

de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.

Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva

acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva

na cidade agitada pelo vento.





Natal Natal (diziam). E acontecia.

Como se fosse na palavra a rosa brava

acontecia. E era Dezembro que floria.

Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.

E era na lava a rosa e a palavra.

Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.



Ilustrações de Laimonas Smergelis



Manuel Alegre

28 de dezembro de 2013

Inventar o sonho

Ilustração de João Nasi Pereira

Quando não somos nós a inventar o sonho, é ele que nos inventa a nós.


Mia Couto, in Mar me quer, Caminho, 2013, 14ª ed., p. 16

24 de dezembro de 2013

Pai Natal

Ilustração de Christine Thouzeau

O respeitável ancião, com o seu capuz até aos olhos, todo salpicado de neve, as mãos escondidas nas largas mangas de frade, o olho maganão e jovial, esgarça a boca num riso de felicidade sem fim, e as suas enormes barbas de algodão pendem-lhe até aos pés. Todas as crianças o querem abraçar, e ele não se recusa, porque é indulgente.

                                                                        Eça de Queirós, in O Natal, Guimarães Editores, 2009, p. 8

A poesia do Natal...

Ilustração de Sarah Hoyle



E toda a poesia do Natal está justamente nessas janelas resplandecendo na noite nevada.


Eça de Queirós, in O Natal, Guimarães Editores, 2009, p. 5

23 de dezembro de 2013

Poema e silêncio

Ilustração de Daniela Giarratana

Talvez a primeira coisa que o poema transmite seja realmente a necessidade do silêncio, de mergulhar numa experiência, de uma linguagem que está para lá da palavra.


         José Tolentino Mendonça, "A arte do silêncio" in JL nº 1127, de 11 a 24 de dezembro de 2013, p. 9

O endereço do poema

Ilustração de Katja Saario


...o endereço do poema é o silêncio.


José Tolentino Mendonça, "A arte do silêncio" in JL 

nº 1127, de 11 a 24 de dezembro de 2013, p. 9

19 de dezembro de 2013

Que segredo tem o Natal?

Ilustração de Jan Pashley


Pergunto-me, Senhor, que segredo tem o Natal?
Há um milagre que acontece dentro de nós,
só pode ser um milagre, pois é como se a vida se reacendesse.

Contemplando o presépio, percebo que este é um milagre humaníssimo
que Deus suscita aos nossos olhos.
Ele amou-nos tanto que nos deu o Seu próprio Filho.

O milagre do Natal assenta sobre este Dom absoluto, 
que nos faz perceber que só somos na medida em que nos damos,
e que a vida renasce, como dádiva, na ponta dos dedos, no olhar, nas palavras.


José Tolentino Mendonça

17 de dezembro de 2013

Zeca Perpétuo

Ilustração de Alberto Godoy


- Você, Zeca Perpétuo, até parece mulher...
- Mulher, eu?
- Sim, mulher é que senta em esteira. Você é o único homem que eu vi sentar na esteira.
- Que quer, vizinha? Cadeira não dá jeito para dormir.

                                                                           Mia Couto, in Mar me quer, Caminho, 2013, 14ª ed., p. 9 



16 de dezembro de 2013

A vida é tão simples que ninguém a entende...

- Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida.
- A vida, Dona Luarmina? A vida é tão simples que ninguém a entende. É como dizia meu avô Celestiano sobre pensarmos Deus ou não-Deus...

Ilustração de Manuel Lopes Herrera

Além disso, pensar traz muita pedra e pouco caminho. Por isso eu, um reformado do mar o que me resta fazer? Dispensado de pescar, me dispenso de pensar. Aprendi nos muitos anos de pescaria: o tempo anda por onda. A gente tem é que ficar levezinho e sempre apanha boleia numa dessas ondeações.

Mia Couto, in Mar me quer, Caminho, 2013, 14ª ed., pp. 9-10 

15 de dezembro de 2013

Palavras de Mandela (4)

Ilustração de Ruud van Empel

Pode dizer-se que há quatro coisas básicas e essenciais que a esmagadora maioria do povo de uma sociedade deseja: viver num ambiente seguro, conseguir trabalhar e sustentar-se, ter acesso a boa saúde pública e sólidas oportunidades educacionais para os filhos. Actualmente, enquanto sociedade, podemos estar a batalhar nestas quatro áreas, mas temos de permanecer confiantes de que, com o compromisso pessoal de cada um de nós, poderemos e iremos ultrapassar os obstáculos na via para o desenvolvimento.

[Mandela] na inauguração da Oprah Winfrey Leadership Academy, Henley-on-Klip, 
África do Sul, 2 de janeiro de 2007

  The Nelson Mandela Foundation in As palavras de Nelson MandelaObjectiva, 2012, 1ª ed., p. 145 

Palavras de Mandela (3)



Ilustração de Susan Gal



Embora enfrentemos muitos desafios,  e embora tenhamos ainda muito caminho a percorrer no que respeita à erradicação das consequências do nosso passado, para nos tornarmos uma nação totalmente unida e reconciliada, juntos, lançámos o alicerce para o fazer.





Discurso sobre o orçamento na abertura do debate presidencial, 

Parlamento, Cidade do Cabo, África do Sul, 2 de março de 1999

 The Nelson Mandela Foundation in As palavras de Nelson MandelaObjectiva, 2012, 1ª ed., p. 145

14 de dezembro de 2013

Palavras de Mandela (2)

Ilustração de Alice Tams

Os líderes sabem bem que a crítica construtiva no seio das estruturas da organização, por mais ferina que seja, é um dos métodos mais eficazes de  resolver problemas internos.

Nelson Mandela (c. 1998) 

The Nelson Mandela Foundation in As palavras de Nelson Mandela, Objectiva, 2012, 1ª ed., p. 133 

12 de dezembro de 2013

Palavras de Mandela (1)

Ilustração de The head of state

Sabemos, e a maioria dos sul-africanos sabe, pela sua experiência diária, que o apartheid continua a coabitar connosco: nos telhados rotos e nas paredes de zinco das barracas: nos estômagos famintos das crianças; na escuridão das casas sem electricidade; e nos pesados baldes de água que as mulheres rurais acartam percorrendo longas distâncias para cozinhar e matar a sede.

Jantar anual da Associação de Correspondentes Estrangeiros, 
Transvaal Automobile Club, 
Joanesburgo, África do Sul, 21 de Novembro de 1997

The Nelson Mandela Foundation in As palavras de Nelson Mandela, Objectiva, 2012, 1ª ed., p. 73 

10 de dezembro de 2013

Os invisíveis



 


Diálogo entre duas pessoas sem-abrigo em O cultivo de flores de plástico:

Senhora de fato Realmente. As pessoas que abrem a janela e vêem que a vida é colorida e bela é porque não nos vêem. Não existimos, pois não?

Ilustração de Angela Muss

Lili Somos pessoas que são cactos e ninguém quer chegar perto de nós com medo de se picar, pois, pois, somos sozinhos como os desertos, mas então. Cheios de céu aberto, pessoas cheias de ar livre. É assim. Há muitas portas no mundo.


Afonso Cruz 


9 de dezembro de 2013

Chave-coração

Voz de uma sem-abrigo na peça O cultivo de flores de plástico, de Afonso Cruz:

Lili (...) O meu pai, quando a gente se portava bem, dava-nos um doce e dizia coisas certas, pois, pois. Ele sabia tudo. Nunca mais ouvi uma pessoa que soubesse as coisas certas. Devagar. Quando alguém lhe dizia que não era assim. ele insistia: é tal. E as pessoas calavam-se, porque ele tinha óculos e barba e sabia as coisas certas. Depois morreu de distância.

Ilustração de Maki Horanai

(...) Quando vim para a rua, comecei a lembrar-me dele e ele já não está morto, mesmo que esteja muito longe, num lugar qualquer que não sei onde fica. Tenho a chave da casa dele.

7 de dezembro de 2013

Partida e chegada das estações

Ilustrração de Noumeda Carbone


Em silêncio o rochedo

vê chegar e partir


as estações



Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 29

5 de dezembro de 2013

A perversão de Narciso

Ilustração de Sophie Leta



Decidira que o amor fazia parte da vida,
ao contrário do que pensara. Olhava
para o espelho e recusava o que via,
correndo para a rua em busca de outros
rostos mais belos: os da jovem que passou
à sua frente e o olhou de relance, inquieta
ao adivinhar o seu desejo; ou o dessa que
alisava os cabelos com as mãos, como se
estivesse a acariciar-se, e os seus olhos
perdiam-se na fronteira de um sonho
acordado. Queria dizer-lhes que as amava,
e que deixara para trás de si a sua imagem,
e a obsessão de se ver outro para se possuir até
à última esfera da loucura. E elas olhavam-no,
pedindo-lhe que se aproximasse. Mas
ele continuava parado como se nem sequer
as visse. Então, cansadas de esperar, partiam,
deixando-o entregue à solidão, e
ao inútil desejo de si próprio.


                          
                                 Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 33

4 de dezembro de 2013

Pequenas memórias

Ilustração de Madalena Matoso

Às vezes pergunto-me se certas recordações são realmente minhas, se não serão mais do que lembranças alheias de episódios de que eu tivesse sido actor inconsciente e dos quais só mais tarde vim a ter conhecimento por me terem sido narrados por pessoas que neles houvessem estado presentes, se é que não falariam, também elas, por terem ouvido contar a outras pessoas. 

Ilustração de Madalena Matoso

Não é esse o caso daquela escolinha particular, num quarto ou quinto andar da Rua Morais Soares, onde, antes de termos ido viver para a Rua dos Cavaleiros, eu comecei a aprender as primeiras letras. Sentado numa cadeirinha baixa, desenhava-as lenta e aplicadamente na pedra, que era o nome que então se dava à ardósia, palavra demasiado pretensiosa para sair com naturalidade da boca de uma criança e que talvez nem sequer conhecesse ainda. É uma recordação própria, pessoal, nítida como um quadro, a que não falta a sacola em que acomodava as minhas coisas, de serapilheira castanha, com um barbante para levar a tiracolo. Escrevia-se na ardósia com um lápis de lousa que se vendia em duas qualidades nas papelarias, uma, a mais barata, dura como a pedra em que se escrevia, ao passo que a outra, mais cara, era branda, macia, e chamávamos-lhe «de leite» por causa da sua cor, um cinzento-claro, tirando a leitoso, precisamente. Só depois de ter entrado no ensino oficial, e não foi nos primeiros meses, é que os meus dedos puderam, finalmente, tocar essa pequena maravilha das técnicas de escrita mais actualizadas.

Ilustração de Csil Cb
Não sei como o perceberão as crianças de agora, mas, naquelas épocas remotas, para as infâncias que fomos, o tempo aparecia-nos como feito de uma espécie particular de horas, todas lentas, arrastadas, intermináveis. Tiveram de passar alguns anos para que começássemos a compreender, já sem remédio, que cada uma tinha apenas sessenta minutos, e, mais tarde ainda, teríamos a certeza de que todos estes, sem excepção, acabavam ao fim de sessenta segundos...


José Saramago, in As pequenas memórias, Caminho, 2006, pp. 63-65