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12 de maio de 2013

Modus vivendi de um coronel


A pensão tinha um regime de pensão completa de que o coronel, como ele dizia, tinha assinatura, tal como se assina um camarote na ópera ou uma revista militar. Comia sempre o mesmo: carne ao almoço e peixe ao jantar. 




Na Pensão já sabiam o que ele queria; e não lhe perguntavam sequer, a não ser que houvesse alguma empregada nova, o que acontecia de vez em quando, e por isso só de vez em quando ele tinha de ensinar à nova empregada que não insistisse em mudar-lhe o regime. 




De resto, era também para isso que serviam os coronéis: para que nenhum regime mudasse. 

Ilustrações de Torigun

Tinha o hábito, além disso, de fazer bolas com o miolo do pão, e entretinha-se a jogá-las umas contra as outras enquanto a comida não chegava.

Nuno Júdice, "Pensão de Termas", in A Árvore dos Milagres, p. 11

11 de maio de 2013

Província



Ilustração de Anna Lisk


Uma tarde de província tinha, em si, todos os defeitos que vinham de ser província. Os habitantes quase se escondiam quando os forasteiros passavam; ou, quando muito, vinham espreitá-los da janela, ou pelo canto da esquina, e fugiam se eles lhes vinham fazer alguma pergunta. Não que não soubessem a resposta, ou que não compreendessem a língua de quem lhes falava, que era a mesma que eles falavam: o que não percebiam era que houvesse um mundo fora do mundo em que viviam, e por isso se assustavam ao perceberem que, para fora do mundo deles, afinal, ainda havia outro mundo.

Nuno Júdice, "Pensão de Termas", in A Árvore dos Milagres

10 de maio de 2013

O sentido do azul




Ilustrações de Vladimir Kryloff

Procuramos o sentido. Andamos às voltas. Por
vezes, aparece um significado, mas tudo é vago,
como se as palavras já não dissessem o que
dizem. Por exemplo: quero saber o que significa
este azul na parede. A casa está direita,
resistiu ao tempo; mas o azul aparece desbotado
pelo sol de verão, pela chuva do inverno,
pela humidade salgada das maresias. E o que
significa este azul não é o azul da cor de
uma parede, tão-só. Há quem veja nele
a passagem dos anos, a fragilidade da vida; 
mas há quem aponte os pedaços em que a cor
desapareceu, deixando à vista o reboco,
e se refira a um mundo em ruínas, ao que
não é possível recuperar. Mas o pintor
chega, encosta a escada à parede, dissolve
a cor no balde, e aproveita a semana sem
chuva para pôr tudo igual. Talvez o novo
azul não seja igual ao anterior; e quando
olho o azul do céu, e o comparo ao da parede,
é como se um fosse a sombra do outro. De
certo modo, o azul deste céu parece-me
mais artificial do que o azul da parede. Digo
Ilustração de Lucy Campbell
então que o homem aperfeiçoa a imagem
que a natureza nos dá, como se já não
fosse possível acreditar no céu. O
pintor, esse, foi-se embora. Depois, olho
para o alto: há nuvens aqui e ali, e alguns
pássaros pontuam-no, como insólitas
manchas no infinito. Faz ali falta um pintor
para tapar os buracos, e voltar a pôr tudo
igual. Mas onde está a escada para chegar
lá acima? E quantos baldes de tinta seriam
precisos? E fico à espera da noite, para
não ver o azul com as imperfeições do céu.


Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável   



8 de maio de 2013

Literatura precisa-se


Ler, para mim, não é ler o best-seller. Ler a boa literatura será sempre uma coisa de uma minoria, aí não há grandes invenções.

Ilustração de Madalena Matoso


O que se vende é inútil, não traz nada, não acrescenta nada, essa leitura é vazia. O texto que vai ficar não se vê nas livrarias ou quando se vê é durante uma semana e desaparece. É uma situação catastrófica e por isso faz falta uma boa crítica literária.


Nuno Júdice, em entrevista a Ana Sousa Dias na Revista Ler, nº 123, abril 2013, pp.28-29

7 de maio de 2013

Sem pagar bilhete



Ilustração de James Fenner


Escrevo para viajar. Graças à escrita, viajo sem pagar bilhete.


Miguel Miranda, médico e escritor

Congresso Bibliotecando em Tomar 
3 de maio de 2013

6 de maio de 2013

Viajar

Ilustração de Alexander Sulimov
A experiência de viagem é também uma experiência de linguagem.

Carlos Reis, Professor Catedrático
Congresso Bibliotecando em Tomar 
3 de maio de 2013

5 de maio de 2013

Amor e paraíso

Ilustração de Alexander Sulimov


Todo o objecto amado é o centro de um paraíso.

 Novalis, in Fragmentos, Assírio & Alvim, col. Gato Maltês

Dia da mãe

Ilustração de Daniela Terrazzini

Tudo acontece em nós muito antes de ter acontecido.

Novalis, in Fragmentos, Assírio & Alvim

4 de maio de 2013

Luz


Ilustração de Roberto Weigand


A luz é o génio do fogo.

                        Novalis, in Fragmentos

2 de maio de 2013

Elementos da poesia

Ilustração de Alexander Sulimov





O corpo, a alma e o espírito são os elementos do mundo, como a epopeia, a lira e o drama são os da poesia.


                      Novalis, in Fragmentos, Assírio & Alvim

1 de maio de 2013

Natureza

Ilustração de Cassandra Rhodin

Podemos considerar a natureza como um corpo fechado, como uma árvore de que somos os botões em flor.

                                                                       Novalis, in Fragmentos, Assírio & Alvim, col. Gato Maltês

30 de abril de 2013

Paradoxo

Ilustração de Raul Colon





A possibilidade de uma dor infinitamente excitante existe.



                         Novalis, in Fragmentos, Assírio & Alvim

28 de abril de 2013

Água

Ilustração de Chiho Makino


A água é uma chama molhada.

Novalis, in Fragmentos

Compreender as árvores

Ilustração de Afonso Cruz



Não é preciso ser cientista para compreender as árvores, basta ser pássaro. Ou Abril.



Afonso Cruz, "28 de Abril" in O livro do Ano

27 de abril de 2013

Sós com o que amamos

Ilustração de Kristina Swarner
Estamos sós com tudo aquilo que amamos.

                                                  Novalis, in Fragmentos

25 de abril de 2013

Amor

Ilustração de Alexandra Eldridge

O amor é o fim último da história universal. O amen do universo.

Novalis, in Fragmentos, Assírio & Alvim, col. Gato Maltês



24 de abril de 2013

Pura ficção?

Ilustração de Su Blackwell

Não confundas a vida com o teatro, dissera-me Rosa; e eu ouvia as mesmas palavras na boca da historiadora ao dizer-me que não devia confundir o que nasce da investigação histórica com o que realmente se passou, numa determinada época. A história do passado, somos nós que a fazemos, e não os seus protagonistas; e eu pensava nisto como se fosse uma aberração, pondo em causa todos os livros que lemos e por onde estudámos a evolução do mundo e das sociedades. Seria tudo uma pura ficção? Então, disse-lhe, a verdadeira história está nos romances, porque aí é onde o homem projecta a sua realidade, entre o que viveu e o que sonhou, sem qualquer preocupação de construir uma cena dominada pela verosimilhança que os acontecimentos conferem ao que se escreve.

Nuno Júdice, in Os Passos da Cruz (2009), D, Quixote, 1ª ed., p. 74

23 de abril de 2013

A força da palavra


Ilustração de Alexander Sulimov

O ser não existe a não ser quando se transforma em palavra. Imagina que desapareces; e que tudo aquilo que viveste e que disseste sobrevive apenas nalgumas memórias de gente que te conheceu; e finalmente, à medida que esses vão deixando de existir, a tua presença apaga-se, o teu nome, mesmo a tua identidade em fotografias de grupo onde, quando ninguém se lembrar de ti, vão perguntar, apontando para ti: Quem é esta? E depois passam a outro assunto, como se de facto nunca tivesses existido, simples sombra de um tempo que pensaste ter ajudado a construir, e que passou, para sempre, até ao fim de haver humanidade.

Nuno Júdice, in Os Passos da Cruz (2009), D, Quixote, 1ª ed., p. 43

O alter-ego


Em Os Passos da Cruz, também o narrador se funde com outra personagem masculina - Brás Teles, com quem Antónia Margarida de Castelo Branco foi casada antes de fugir para um convento, devido a maus tratos conjugais: 

Ilustração de Mike Worral


E surgiu-me uma dúvida: quem era eu? Seria esse que um dia decidira procurar o lugar onde vivera Antónia Margarida procurando uma resposta para os dramas de uma época em que o indivíduo pouco contava? Ou seria eu Brás Teles, que se apossara de mim próprio, e de quem me tornara um duplo? De facto, como acontece na maior parte dos romances, o narrador acaba por se confundir com o personagem, transferindo para dentro dele todo o seu universo.

Nuno Júdice, in Os Passos da Cruz (2009), D, Quixote, 1ª ed., p. 93

22 de abril de 2013

Perder-se...

Em pequenas estradas (...), basta uma distracção para que se perca o horizonte, e os passos nos levem para onde não se esperava ir. Eu, no entanto, gosto de me perder.

Nuno Júdice, in Os Passos da Cruz (2009), D, Quixote, 1ª ed., p. 17




Só aparentemente o narrador se perde.

Com efeito, Os Passos da Cruz, de Nuno Júdice, oferecem os passos da teoria à prática literária, em jogos de fusão da escrita com a realidade, interceção de vários planos da narrativa e de duas personagens femininas que funcionam como o alter-ego uma da outra - Rosa, por quem o narrador-personagem se apaixonara nos anos 60 do século XX, e Antónia Margarida de Castelo Branco, figura seiscentista que, qual fénix, renasce na memória de quem tenta conhecer detalhes, coadjuvado por uma historiadora.


Ilustrações de Mike Worral

Os Passos da Cruz é, pois, uma obra magistral que cruza planos narrativos, épocas e personagens, suspendendo o leitor e levando-o pelas páginas da intriga, confiante de que não será desapontado. E assim acontece ou não fora uma obra de Nuno Júdice. 

Maria Carla Crespo