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10 de janeiro de 2013

O elogio da inutilidade



Ilustração de Glenda Sburelin
Enquanto nós dermos à vida espiritual uma utilidade, qualquer que ela seja, ela ficará sempre condicionada às nossas próprias aspirações, àquilo que nós próprios transportamos. Na entrega, silenciosa e sem porquês, que uma criança oferece a um brinquedo, nesse estar por estar, permite-se que a polifonia da vida se liberte. Só entenderá o elogio do inútil quem perceber o significado, simples e imenso, de um brinquedo.

Tolentino Mendonça, in “O elogio da inutilidade, Encontros do Lumiar 2007-2008”, pp. 24-25

9 de janeiro de 2013

O silêncio dos livros



Ilustração de María Mola
Um dos requisitos fundamentais [da leitura] é, também, o silêncio. À medida que a civilização urbana e industrial foi prevalecendo, o nível de ruído conheceu um aumento exponencial, estando hoje muito próximo da loucura. Para os privilegiados da idade clássica da leitura, o silêncio era ainda um bem acessível, cujo preço, entretanto, nunca mais parou de subir. O silêncio passou a ser um luxo.

Georges Steiner, in O silêncio dos livros

8 de janeiro de 2013

Livros não mudam o mundo

Ilustração de Lindsey Olivares



Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. 

Os livros só mudam as pessoas.

Mario Quintana

7 de janeiro de 2013

Maiores que nós

Ilustração de Solenn Larnicol































































































Existem pequenos livros que são maiores que nós.
                  
 Inês Lourenço, jornalista

6 de janeiro de 2013

O presente dos Reis Magos

Ilustração de Niamh Sharkey
Ilustração de Paula Marco

Como todos sabem, os Reis Magos são os homens sábios – terrivelmente sábios – que levaram as dádivas ao Bebé na manjedoura. Foram eles que inventaram a arte de oferecer presentes de Natal. Sendo sábios, as suas dádivas eram sem dúvida sábias, possivelmente com o privilégio de poderem vir a ser trocadas em caso de repetição. E eu acabei aqui de vos relatar, de forma pouco convincente, a crónica monótona de um apartamento onde duas crianças tolas, numa atitude nada sábia, sacrificaram um pelo outro os maiores tesouros da sua casa. Porém, numa última palavra aos sábios dos tempos que correm, diga-se que entre todos os que dão prendas foram estes dois os mais sábios. De todos os que dão e recebem prendas, as pessoas como eles são as mais sábias. Em toda a parte as mais sábias. São eles os Reis Magos.


O. Henry, "O Presente dos Reis Magos", in As mais belas histórias de Natal", ed. 101 noites

5 de janeiro de 2013

Baltasar

Ilustração de Georges Underwood
O rei Baltasar amava a frescura dos jardins e sorria ao ver na água clara dos tanques o reflexo da sua cor de ébano. (...)

A estrela ergueu-se muito devagar sobre o Céu, a Oriente. O seu movimento era quase imperceptível. Parecia estar muito perto da terra. Deslizava em silêncio, sem que nem uma folha se agitasse. Vinha desde sempre. Mostrava a alegria, a alegria nua, sem falha, o vestido sem costura da alegria, a substância imortal da alegria.

E Baltasar reconheceu-a logo, porque ela não podia ser de outra maneira.


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente, in Contos Exemplares

Melchior

Ilustração de Ines Huni
 Nessa noite (...), Melchior subiu ao terraço e viu que havia no céu, a Oriente, uma nova estrela.
A cidade dormia, escura e silenciosa, enrolada em ruelas e confusas escadas. Na grande avenida dos templos já ninguém caminhava. (...)

E sobre o mundo do sono, sobre a sombra intrincada dos sonhos onde os homens se perdiam tacteando, como num labirinto espesso, húmido e movediço, a estrela acendia, jovem, trémula e deslumbrada, a sua alegria.

E Melchior deixou o seu palácio nessa noite.

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente, in Contos Exemplares

Gaspar e a justiça

Ilustração de Rosario Elizalde

...Gaspar escutava o crescer do tempo. A solidão criava em seu redor um transparente espaço de limpidez onde os instantes avançavam um por um e o universo inteiro parecia atento. O silêncio era como a mesma palavra inumeravelmente repetida.

E debruçado sobre o tempo Gaspar pensava: "Que pode crescer dentro do tempo senão a justiça?"

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente", in Contos Exemplares

4 de janeiro de 2013

Noite de Reis

Ilustração de Valentí Gubianas

Era a noite de uma primeira sexta-feira de Janeiro, a noite dos Reis.

Edmond de Goncourt, "Rezo a Gaspar, Melchior e Baltazar" in 101 Noites de Natal

2 de janeiro de 2013

Silêncio e solidão

Suporta tudo, menos a solidão e o silêncio. Pode dormir muito pouco, esquecer-se da fome, enrolar uma manta nas pernas para não ter frio, ignorar que o sexo existe, aceitar não conhecer o calor feminino, mas não suporta o silêncio e a solidão.

Ilustração de Jean-Baptiste Monge


(...) Muitos dias nascem cinzentos, mas ao som do rádio e com o cheiro do café enfrenta-os. Não se desloca de carro, mas entre montões de gente nos autocarros. E aí vê tantos rostos infelizes, tantos telemóveis que não vibram emoção alguma.

Ilustração de RWD
(...) Uma solidão absoluta. Rasgou todos os poemas porque, ao reler alguns, descobriu serem todos sobre sentimentos já ausentes. Pais ausentes. Dores ausentes. Sonhos ausentes.

Paulo Bandeira Faria, in Um Natal assim, Quidnovi


1 de janeiro de 2013

A prima

O Inverno tem os seus prazeres; e por vezes, ao domingo, 
Quando um raio de sol doura a terra branca,
Saímos para passear com uma prima...
E não nos deixem à espera para jantar,

Diz a mãe. E depois de observarmos atentamente, nas Tulherias,
Sob as árvores negras os enfeites em flor,
A rapariga tem frio...e o nevoeiro começa
a levantar-se.

Doisneau, Les Tuileries en hiver

E regressamos, falando do belo dia que, lamentamos
Tão depressa ter passado...e com tão discreta chama:
E sentimos ao entrar, com grande apetite,
Do fundo das escadas, - o cheiro do peru assado.

Gérard de Nerval, in 101 Noites de Natal

Dia de Ano Novo

Ilustração de Trisha Romance
Está a nevar. Para que o Ano novo tenha sucesso é preciso que neve. 

Poil de Carote salta da cama, vai lavar-se, sem sabão, na tina do jardim. Está gelada. Tem de quebrar o gelo, e este primeiro exercício alastra por todo o seu corpo um calor mais são que o dos aquecedores. Mas finge molhar a cara e, como acham que está sempre sujo, mesmo depois de se lavar dos pés à cabeça, só limpa por alto.

Jules Renard, "Dia de Ano Novo", in 101 Noites de Natal

31 de dezembro de 2012

A menina dos fósforos

Estava tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de dezembro, véspera do dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma pobre rapariguinha seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a menina os perdeu quando teve de atravessar a rua a correr para fugir de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um berço para a irmã mais nova brincar.


Ilustrações de Serena Curmi
Por isso, a rapariguinha seguia com os pés descalços e já roxos de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um maço deles a toda a gente que passava, apregoando: — Quem compra fósforos bons e baratos? — Mas o dia tinha-lhe corrido mal.






Hans Christian Andersen, A menina dos fósforos (adapt.) 

30 de dezembro de 2012

Gramática do Menino Jesus

Ilustração de Pauline Siewert

  ...há uma gramática do Verbo feito carne de que a Escritura é a narrativa.


 Michel Crépu, in "Esse vício ainda impune"

A rosa é sem porquê





Ilustração de Bastin Marjolein


A rosa é sem porquê.

Silesius