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10 de outubro de 2012

Num bairro moderno

 A Manuel Ribeiro


Ilustração de Angelica Argüelles Kubli

Dez horas da manhã; os transparentes
Matizam uma casa apalaçada;
Pelos jardins estancam-se as nascentes,
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua macadamizada.


Rez-de-chaussée repousam sossegados,
Abriram-se, nalguns, as persianas,
E dum ou doutro, em quartos estucados,
Ou entre a rama dos papéis pintados,
Reluzem, num almoço, as porcelanas.

Como é saudável ter o seu conchego,
E a sua vida fácil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde agora quase sempre chego
Com as tonturas duma apoplexia.

E rota, pequenina, azafamada,
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmóreo duma escada,
Como um retalho de horta aglomerada,

Pousara, ajoelhando, a sua giga. 
Ilustração de Rosie Sanders
 











E eu, apesar do sol, examinei-a:
Pôs-se de pé; ressoam-lhe os tamancos;
E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
Se ela se curva, esguedelhada, feia,
E pendurando os seus bracinhos brancos.

Do patamar responde-lhe um criado:
«Se te convém, despacha; não converses.
Eu não dou mais.» E muito descansado,
Atira um cobre ignóbil, oxidado,
Que vem bater nas faces duns alperces.

Subitamente — que visão de artista! —
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do sol, o intenso colorista,
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?! 


Ilustração de Yusuke Yonezu
Bóiam aromas, fumos de cozinha;
Com o cabaz às costas, e vergando,
Sobem padeiros, claros de farinha;
E às portas, uma ou outra campainha
Toca, frenética, de vez em quando. 









Ilustração de Alexander Bogomazov






E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo orgânico, aos bocados.
Achava os tons e as formas. Descobria
Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seios injectados.





Ilustração de Alexander Bogomazov


As azeitonas, que nos dão o azeite,
Negras e unidas,
entre verdes folhos,
São tranças dum cabelo que se ajeite;
E os nabos — ossos nus, da cor do leite,

E os cachos de uvas — os rosários de olhos. 

Há colos, ombros, bocas, um semblante
Nas posições de certos frutos. E entre
As hortaliças, túmido, fragrante,
Como dalguém que tudo aquilo jante.
Surge um melão, que me lembrou um ventre.

E, como um feto, enfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja, vívida, escarlate,
Bons corações pulsando no tomate

E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

O Sol dourava o céu. E a regateira,
Como vendera a sua fresca alface
E dera o ramo de hortelã que cheira,
Voltando-se, gritou-me, prazenteira:
«Não passa mais ninguém!... Se me ajudasse?!...»

Eu acerquei-me dela, sem desprezo;
E, pelas duas asas a quebrar,
Nós levantámos todo aquele peso
Que ao chão de pedra resistia preso,
Com um enorme esforço muscular.

«Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!»
E recebi, naquela despedida,
As forças, a alegria, a plenitude,
Que brotam dum excesso de virtude
Ou duma digestão desconhecida.

E enquanto sigo para o lado oposto,
E ao longe rodam umas carruagens,
A pobre afasta-se, ao calor de Agosto,
Descolorida nas maçãs do rosto,
E sem quadris na saia de ramagens.

Um pequerrucho rega a trepadeira
Duma janela azul; e, com o ralo
Do regador, parece que joeira
Ou que borrifa estrelas; e a poeira
Que eleva nuvens alvas a incensá-lo.


Chegam do gigo emanações sadias,
Oiço um canário — que infantil chilrada! —
Lidam ménages entre as gelosias,
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja destilada.



Ilustração de Angelica Argüelles Kubli
 
E pitoresca e audaz, na sua chita,


O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
Duma desgraça alegre que me incita,
Ela apregoa, magra, enfezadita,
As suas couves repolhudas, largas.

E, como as grossas pernas dum gigante,    
Sem tronco, mas atléticas, inteiras,
Carregam sobre a pobre caminhante,
Sobre a verdura rústica, abundante,
Duas frugais abóboras carneiras.


Cesário Verde
(sombreados nossos)

 Esta cor traduz brilho, luz, sol, brancura

9 de outubro de 2012

Credo

atribuído a Yossel Rakover


 Creio no sol, mesmo quando não o vejo

 Creio no amor, mesmo quando não o abraço
 
  Creio em Deus, mesmo quando Deus se cala


Tolentino Mendonça, in Estação central

Ilustração de Stefano Vitale

8 de outubro de 2012

O perfume precioso

(Lc 7, 36-50)


Havia um vaso de perfume
em barro branco
e a mulher que se colocou de gatas
radiante por poder exibir a farta cabeleira
Mas ao quebrá-lo daquele modo aos pés do hóspede
misturou o nardo imprevistamente
com o cheiro de uma mulher que chora

Ilustração de ShiShi Nguyen

O anfitrião especado observava, sem pronunciar um som
o mestre, porém, olhou-a com os seus olhos de cão meigo
a vagabundagem e a pobreza
eram direitos de quem entrou e saiu das trevas
para fazer da infelicidade um uso

Recordarei sempre aquele momento
perfeito fio de prumo
que indica o centro da terra

Tolentino Mendonça, in Estação central







7 de outubro de 2012

Deus e a arte

Ilustração de Tea Bendix
Não há poesia sem liberdade.


Toda a arte é uma procura espiritual. 

Os poetas dão a ler o ilegível.


Tolentino Mendonça, entrevista a Câmara Clara, RTP 2 

Autor ou fingidor?

Este Ricardo Reis não é o poeta, é apenas um hóspede de hotel que, ao sair do quarto, encontra uma folha de papel com verso e meio escritos...

Ilustração de Mike Warroll

E as pessoas nem sonham que quem acaba uma coisa nunca é aquele que a começou, mesmo que ambos tenham um nome igual, que isso só é que se mantém constante, nada mais.

José Saramago, in O Ano da morte de Ricardo Reis

6 de outubro de 2012

Sonho ou sombra de Pessoa?




Três dias haviam passado e Fernando Pessoa não voltou a aparecer. 



Ricardo Reis


Ricardo Reis não fez a si mesmo a pergunta própria destas situações, Terá sido um sonho, sabia perfeitamente que não sonhara, que Fernando Pessoa, em osso e carne suficiente para abraçar e ser abraçado, estivera neste mesmo quarto na noite da passagem do ano e prometera voltar.

A sua vida parecia-lhe agora suspensa, expectante, problemática.

José Saramago, in O Ano da morte de Ricardo Reis

5 de outubro de 2012

O ridículo



...o ridículo é como uma queimadura por dentro, um ácido em cada momento reavivado pela memória, uma ferida infatigável.

Ilustração de Evgenia Sarkisia
José Saramago, in O Ano da morte de Ricardo Reis

Esperança


Ilustração de Artisalma Deviantart


A esperança, só a esperança, nada mais, chega-se a um ponto em que não há mais nada senão ela, é então que descobrimos que ainda temos tudo.

José Saramago, in O Ano da morte de Ricardo Reis

3 de outubro de 2012

Balança

Ilustração de Artisalma Deviantart
 
No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.

 Eugénio de Andrade, in Ofício de paciência

2 de outubro de 2012

Lugares do outono

Ilustração de Alexander Grishkevich

Outono, labirinto de silvas,
de sílabas, digo: pupila lenta,
rio de inumeráveis águas
e de amieiros onde canta
a derradeira luz das cigarras,
de vidro ainda, e leve, e branca.


Eugénio de Andrade, in O outro nome da terra

1 de outubro de 2012

Outubro: o vinho



Poucas vezes o outono se demorou
tanto nestas águas
sem as cobrir de névoa.
Dos montes desce
o vinho - não tardará nas ruas:
só ele é novo ainda, só
ele dança. Tu e eu
Ilustração de Mihai Criste
vamos com as folhas, as últimas 
aves: tão leve
o que deixamos por herança.

Eugénio de Andrade, in Rente ao dizer

30 de setembro de 2012

Uma abelha na chuva

 Em Uma abelha na chuva, de Carlos de Oliveira, Clara, grávida do cocheiro, põe termo à existência ao saber que Jacinto foi assassinado.

A vida deu-lhe "vergastadas", enredou-a "nos fios do aguaceiro", feriu-lhe o voo, o sonho de casar e ser feliz junto do homem que ama. Clara é, pois, apanhada pelas circunstâncias, tal como uma abelha colhida pela chuva - elemento aquoso que perpassa o romance neorrelista. 
 
Ilustração de Esao Andrews
 Eis o parágrafo final, que funciona como chave de interpretação do título da obra:

Por hábito, lançou os olhos às colmeias, que lhe ficavam mesmo em frente, dez ou doze metros, se tanto, e viu uma abelha voar da Cidade Verde. Baptizava as colmeias conforme a cor de que as pintara, Cidade Verde, Cidade Azul, Cidade Roxa. A abelha foi apanhada pela chuva: vergastadas, impulsos, fios do aguaceiro a enredá-la, golpes de vento a ferirem-lhe o voo. Deu com as asas em terra e uma bátega mais forte espezinhou-a. Arrastou-se no saibro, debateu-se ainda, mas a voragem acabou por levá-la com as folhas mortas.


Domingo, missa e cabelo à tigela

Ilustração de Zoe Chernakova

Domingo, dia de missa, consultório e chinquilho nas tascas, dia de levar a garotada à malga do barbeiro: enfia-se a malga pela cabeça dos rapazes e o Albano faz a tosquia circular ao longo do rebordo; vem depois o disfarce, operação de pente e tesourada larga, que só não acaba de tornar o cachopo num verdadeiro urso, porque a cabeça dos ursos não é às escadinhas, como dizia depreciativamente o Rocha, que trazia um filho, em Corgos, a aprender o ofício na Barbearia Perfeição.



Carlos Oliveira, in Uma abelha na chuva

28 de setembro de 2012

Recordações dos livros

Segundo Montaigne, guardamos apenas recordações-ecrã dos livros que lemos. É a ideia que nos traz a lume Pierre Bayard, na sua obra Como falar dos livros que não lemos?, citando o escritor francês, e que reza assim:

Ilustração de Artisalma Deviantart

"Não guardamos na nossa memória livros homogéneos, mas fragmentos retirados de leituras parciais, muitas vezes misturados uns com os outros e, mais ainda, alterados pelos nossos fantasmas pessoais: fragmentos falsificados de livros, análogos às recordações-ecrã de que Freud fala, cuja função é sobretudo a de dissimular outras."



25 de setembro de 2012

Sísifo

Ilustração de Katy Hare
Recomeça....
Se puderes
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,

Vai colhendo

Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar

E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.


Miguel Torga, in Diário XIII

24 de setembro de 2012

Este inferno de amar



Ilustração de Sandrine Kao





Este inferno de amar - como eu amo!
Quem mo pôs aqui n' alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembro: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...


Almeida Garrett, in Folhas Caídas

Não te amo



Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma.
E eu n' alma - tenho a calma,
A calma - do jazigo.
Man Ray, Violon d'Ingres, 1924
Ai!, não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai!, não te amo, não!
Ai!, não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh!, não te amo, não.
E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não. 

Almeida Garrett, in Folhas Caídas

23 de setembro de 2012

As meninas de Avignon

Picasso, Les Demoiselles d'Avignon
Provavelmente, Picasso não pintou as meninas
de avignon a pensar nos homens que iam às meninas 
em avignon; nem se serviu das meninas de avignon
quando as pintou, a partir de mulheres que
não eram meninas, mas modelos, e a quem pedia que
se comportassem como as meninas de  avignon, nuas, na
sala de espera do bordel onde os homens de avignon,
quando iam às meninas, as escolhiam a dedo, ou só
ao acaso, porque o que eles queriam não precisava
de grande escolha, mas de um corpo, e qualquer corpo
servia para esses homens que não sabiam que
Picasso iria pensar as meninas de  avignon para que
eles não voltassem ao bordel sem pensar, primeiro, 
nas meninas de Picasso, e só depois nas meninas
de avignon. Também eu, um dia, quando fui
a avignon, pensei nas meninas de Picasso, sem
pensar que eram as mesmas meninas que havia 
em avignon, onde Picasso as foi buscar. Mas 
não as vi: as meninas de avignon escondem-se de
quem vai a avignon sem saber onde elas estão,
a não ser no quadro de Picasso, que não está 
em avignon. E é provável que, se as visse,
pensasse nelas, e não nas meninas de Picasso, para
as pôr num poema que se poderia chamar
como o quadro de Picasso, para que entre as meninas
de Picasso e as meninas do meu poema não houvesse
nenhuma diferença, como se fosse possível passar
das meninas de Picasso para as meninas do meu poema
através da ponte de avignon.

 Nuno Júdice, in A matéria do poema

Picasso, Les Demoiselles d'Avignon

22 de setembro de 2012

It's Time to Be Clear

Ilustração de Jasmin Aldin
Os que falam de mim dizem que sou pobre
Existo à maneira de uma árvore
Tenho diante e atrás de mim a noite eterna
Vacilo, duvido, resvalo
E sei: a maior parte das vezes o amor nasce do erro
transcreve-se a azul ou a negro
sobre passagens, casas inacabadas, alturas remotas

Observá-lo apenas serve

para tornar contundente a sua forma nunca exactamente igual
a sua incrível velocidade destacada no meio do nada
enquanto a noite se desmorona
sempre mais bela 


José Tolentino Mendonça, in Estação central