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11 de setembro de 2012

O múltiplo é Um


Ilustração de Helen M. Waters
 _______ e volto à penumbra, para lá do bem e do mal:
            “e tu como vais, Christine?”
            “torno-me lentamente “une vieille femme”,
            uma mulher que envelhece, uma velhinha.”


Ela dissera apenas "je deviens une vieille femme", e fora eu, sempre possuída pelo mesmo eco que amplifica, que vira imediatamente em imagem "torno-me lentamente une vieille femme, uma mulher que envelhece, uma velhinha."

Disse-lhe, a pouco e pouco, deslizando entre a minha língua e a dela: "Christine, estou sempre sobre a ruína de escrever",         e ela compreendeu que eu devia estar a vê-la, pálida no tecido quase sem cor, ou sendo a sua pele, de cor perdida, o contorno da saia e da blusa;

"agora, além de saber igualmente ler e escrever, sei também brincar - não utilizo os fios para os mesmos fins." Vestia a cor evanescente dos cereais (a saia), e uma pequeníssima quantidade de cor que, ao voltar as costas para mim,        me deixou no pátio; da cor, nasceu a peça de violoncelo que ela executava        e, do violoncelo,           a sonoridade de um sonho que ela tivera na noite seguinte ao dia em que falara comigo:

Ilustração de Mariane Seoane Pascuale
"esboçou, na toalha onde também tinham comido as duas crianças, o desenho cintilante de pequenas notas a que eu principiei imediatamente a dar uma resposta: "sois folhas: o Amado é múltiplo, embora Um"."





                                                                                          Maria Gabriela Llansol, "Prólogo", in O Raio sobre o lápis

10 de setembro de 2012

A paz e a pobreza

Ilustração de M. Gleenwood

 
...a pobreza é, provavelmente, a mais séria ameaça à paz mundial...

Muhammad Yunus, in Criar um mundo sem pobreza*


 * Prémio Nobel da Paz 2006 

Ilustração de Julia Wakefield
 

9 de setembro de 2012

Justiça Robin dos Bosques

Ilustração de Daniela Giarratana


Os preços serão estipulados de acordo com o princípio "Robin dos Bosques". Os pacientes normais pagarão a preços de mercado, sendo cobrada aos pobres apenas uma taxa simbólica. Se os nossos cálculos estiverem certos - e se formos capazes de prestar cuidados de oftalmologia excelentes, atraindo um número suficiente de doentes "pagantes"-, os hospitais serão auto-suficientes e terão capacidade para expandir os serviços indefinidamente.


Muhammad Yunus, in Criar um mundo sem pobreza*


* Palavras do  Prémio Nobel da Paz 2006, a propósito do plano de negócios de hospitais no Bangladesh, um dos países mais pobres do mundo, para fornecer cuidados de saúde aos pobres.

A Fotografia


Ilustração de Victoria Kirdy

Uma tarde, no comboio, um homem, de pé, sentiu uma mão tocar-lhe e reparou que um jovem soldado lhe oferecia o seu lugar, como se faz com os velhos. Aceitou, cheio de vergonha, por ser a primeira vez que lhe sucedia e, de olhos perdidos naquela noite que se escapava pelas janelas, de repente, sentiu-se desolado pela sua idade. Depois fechou-se em casa e a sua tristeza trespassava os muros, circulando pelas estradas. Era manhã, quando a carta chegou de uma cidade distante. Abre-a e encontra a fotografia de uma senhora anciã, completamente nua. Nenhum comentário ou assinatura. Mete os óculos para procurar nas velhas feições da mulher se, por acaso, a conhecia. Descobriu que se tratava do único grande amor da sua vida. E, conhecendo a grandeza da sua alma, de imediato percebeu a intenção da mensagem: a mulher, sabendo que ele vivia triste, não se envergonhava de lhe mostrar o próprio corpo, para o fazer perceber que não devia angustiar-se e que os sentimentos são mais fortes do que a carne.



Tonino Guerra, in Histórias Para Uma Noite de Calmaria

8 de setembro de 2012

A Espera

Ilustração de Mariana Kalacheva


Estava tão apaixonado que se fechou em casa, sentado junto à porta, para poder abraçá-la assim que ela batesse para lhe vir confessar que também o amava.
Mas ela não veio e ele envelheceu. Um dia alguém tocou, levemente, à porta e ele, apavorado, fugiu, escondendo-se atrás do armário.

Tonino Guerra, in Histórias para uma noite de calmaria

Mar de setembro

Ilustração de Cathy Delanssay


Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves - só
ritmo e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto.
Puríssimo. Doirado.

Eugénio de Andrade, in Mar de Setembro

7 de setembro de 2012

Os pequenos prazeres

O copo de água fresca
sobre a mesa,
a réstia de luz incendiando
ainda a mão,

Ilustração de Ayumi Makita
as palavras que dão sentido à arte
dos dias a caminho do fim,
"a beleza
é o esplendor da verdade",

o sol
que dos flancos do muro sobe
ao olhar do gato,
o silêncio de ramo em ramo,

a chuva em surdina
na folhagem do jardim
- a chuva e a cumplicidade
de Gieseking e Debussy.

Eugénio de Andrade, in Os Lugares do Lume

Autoestrada global

Ilustração de Andreas M. Wiese
O comércio global é como uma auto-estrada de uma centena de pistas que cruza o mundo. Se esta auto-estrada não tiver portagens, nem semáforos, nem limites de velocidade, nem restrições de tonelagem, nem, sequer, separadores, ela acabará por ser ocupada pelos camiões gigantes das economias mais poderosas do mundo.  Pequenos veículos - a camioneta de um agricultor ou as carroças puxadas por búfalos e os riquexós do Bangladesh - serão obrigados a abandonar a auto-estrada.
 
  
Muhamad Yunus*, in Criar um mundo sem pobreza (2008: 88)

*Prémio Nobel da Paz 2006

6 de setembro de 2012

Pessoas bonsai

Ilustração de Simona Dimitri


As pessoas pobres são pessoas bonsai. Não existe nada de errado com as sementes. A sociedade é que nunca lhes deu uma base adequada para crescerem. Tudo o que é necessário para tirar os pobres da pobreza é que criemos um ambiente favorável em volta deles. Quando os pobres forem autorizados a libertar a sua energia e criatividade, a pobreza desaparecerá rapidamente.
 
Muhamad Yunus*, in Criar um mundo sem pobreza (2008: 88)


*Prémio Nobel da Paz 2006

5 de setembro de 2012

Orfandade de amor


Ilustração de Berk Özturk





...agora reparava que os pais nos dão algo mais do que coisas úteis e que, quando se vão, nos deixam órfãos, tenhamos nove ou noventa anos.




Juan José Millás, in A Ordem Alfabética

4 de setembro de 2012

Linguagem

Ilustração de Anna Lisk
A linguagem é um excelente indício a respeito das pessoas.
Zoran Zivkovic, in O Escritor-Fantasma

3 de setembro de 2012

Escrita e literatura

René Magritte

Hoje em dia, as pessoas pensam que a mera alfabetização é garantia suficiente para tentarem escrever. É o mesmo que pensar que para ser pintor bastam os materiais de arte. Apenas aqueles que estudaram meticulosamente a literatura podem sonhar em criar algo.

Zoran Zivkovic, in O Escritor-fantasma

Liberdade humana

A vida do homem não pode "ser vivida" repetindo os padrões da espécie; é ele próprio - cada um de nós - quem deve viver. O homem é o único animal que pode estar aborrecido, que pode estar enojado, que pode sentir-se expulso do paraíso.
Erich Fromm, in Ética e Psicanálise, apud Savater, Ética para um jovem

2 de setembro de 2012

Sim ou Não

Ilustração de Anna Silivonchik
 
A liberdade não é uma filosofia e nem sequer é uma ideia: é um movimento da consciência que nos leva, em certos momentos, a proferir dois monossílabos: Sim ou Não. Na sua brevidade instantânea,  como a luz do relâmpago, desenha-se assim o sinal contraditório da natureza humana.
 
Octavio Paz, in A Outra Voz, apud Savater, Ética para um jovem
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

31 de agosto de 2012

O sol o muro o mar

Ilustração de Brenda Montes
No quadrado aberto da janela o mar cintila coberto de
escamas e brilhos como na infância.
O mar ergue o seu radioso sorrir de estátua arcaica.
Toda a luz se azula.
Reconhecemos nossa inata  alegria: a evidência do lugar
sagrado.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Ilhas  

29 de agosto de 2012

Tanto de meu estado me acho incerto


Ilustração de Catrin Welz-Stein
Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Nua hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar ua hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

                               Luís de Camões

28 de agosto de 2012

A bailarina russa

Ilustração de Emzar Kiknavelidze
Uma bailarina russa que tinha setenta anos e ensinava dança pelas escolas, foi seguida por um jovem, seduzido por sua figura esguia e arrebatadora.
Para não ser alcançada, correu até casa e, ofegante, fechou-se no apartamento. A filha jovem interrogou-a sobre o sucedido.
«Uma coisa extraordinária», responde a velha mãe. «Um rapaz seguiu-me e eu não quis que descobrisse meu rosto para não o desiludir com a minha idade. Vê pela janela se ainda está
no passeio».
A filha foi à janela e, sobre a estrada, depara com um velho que olhava para cima.

         Tonino Guerra, in Histórias para uma noite de calmaria

27 de agosto de 2012

Sul

Ilustração de Simona Dimitri
Era por agosto, há muitos anos.
O cheiro da sombra
das oliveiras subia ao ar. Vista de baixo
aquela folhagem parecia um mar,
um mar de vidro,
quando o sol oblíquo lhe caía em cima.
Eram dois cães raivosos, eram duas
cobras enroscadas, eram dois rapazes
rolando pelo chão; lutavam,
mordiam-se, abraçavam-se.
Deviam amar-se muito, para se baterem
com tal ardor. Um sol verde
lambia agora a terra.
Eram muito novos, há muitos anos,
no pino do verão, debaixo de uma oliveira,
onde só as cigarras monotonamente
consentiam.


Eugénio de Andrade, in Os Lugares do Lume

26 de agosto de 2012

A figueira

Ilustração de Nerida de Jong
Este poema começa no verão,
os ramos da figueira a rasar
a terra convidam a estender-me
à sua sombra. Nela
me refugiava como num rio.
A mãe ralhava: A sombra
da figueira é maligna, dizia.
Eu não acreditava, bem sabia
como cintilavam maduros e abertos
seus frutos aos dentes matinais.
Ali esperei por essas coisas
reservadas aos sonhos. Uma flauta
longínqua tocava numa écloga
apenas lida. A poesia roçava-
-me o corpo desperto até ao osso,
procurava-me com tal evidência
que eu sofria por não poder dar-lhe
figura: pernas, braços, olhos, boca.
Mas naquele céu verde de agosto
apenas me roçava, e partia.



Eugénio de Andrade, in Os Lugares do Lume

24 de agosto de 2012

Texto para uso didáctico


Assim, o que um poeta
faz com as palavras, ao
tocá-las com os dedos,
não é só
Ilustração de Joysuke Wong
o que o músico faz com os sons   
ou o pintor com as cores.
As palavras,
cuja composição espessa cimenta
o cérebro e lhe dá peso,
não se reduzem às matérias visual
e acústica respectiva-
mente da cor e do som.
A queda desamparada
do sentido para dentro de um
pequeno espaço de escrita,
assim como a súbita relação
estabelecida entre esse facto
e a minha consciência dele, desde logo
ampliam o horizonte expressivo
do poema.
E se o raciocínio e o gesto, em parte,
o entram nele,
não quer isto dizer que uma (outra)
razão, talvez mais profunda,
o inspire e penetre.
É que ela não se manifesta
expressamente pois, pelo contrário,
só no seu aspecto oculto
e “longínquo” se revela
- imediatamente -
o Poético.       
Nuno Júdice