Um blogue que se alimenta de e com ilustrações e palavras, sobretudo textos literários.
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25 de dezembro de 2011
24 de dezembro de 2011
A alegria do Natal
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| Ilustração de Adolie Day |
A alegria dilata, a tristeza aprisiona. Para se ser alegre é preciso um certo esquecimento de si, uma perda de si no maravilhamento. É por isso que a alegria do adulto é muitas vezes pouco natural, enquanto que a da criança é total.
Monge Cartuxo, in Vivre dans l'intimité du Christ
Deus é não poder
O homem é uma realidade religiosa. O problema é que essa referência possa aparecer como objeto, como se Deus fosse manipulador ou manipulável. Uma espécie de ser mágico de que todas as coisas dependem. Outra coisa é ser algo de que o homem se serve para dominar. (...) O que o cristianismo trouxe foi que Deus não é poder. É o não-poder. Mas não foi assim que a coisa foi traduzida.
Eduardo Lourenço, Expresso, 23.12.2011
23 de dezembro de 2011
Poema de Natal
Quando despontarem as primeiras luzes do Seu cortejo
o azeite na almotolia,
um alfabeto que descreva com outra firmeza o azul,
formas indivisíveis para este amor,
que só em fragmentos
e numa gramática imprecisa
conseguimos viver.
Quando despontarem as primeiras luzes
estaremos talvez longe:
Quando despontarem as primeiras luzes
estaremos talvez longe:
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| Ilustração de Arianna Floris |
à altura dos olhos continuaremos a trazer a mesma indisfarçável solidão
as mesmas mediações ilegíveis através do tempo
as mesmas demoras tatuadas.
O Seu advento encontra-nos sempre impreparados
e, contudo, este é o momento em que
por puro dom se nasce.A Sua vinda testemunha o que não sabíamos ainda: a nossa frágil humanidade é narração
da autobiografia de Deus.
Eterna procura
O artista
testemunha, na experiência dos materiais, as formas da eterna procura.
FRANCO, Joaquim et al., Um Menino chamado Natal
FRANCO, Joaquim et al., Um Menino chamado Natal
22 de dezembro de 2011
Inexprimível
21 de dezembro de 2011
O trovão e o pirilampo
Votos de muita magia neste Natal...
20 de dezembro de 2011
Palavras
Eu nem sequer gosto de escrever
18 de dezembro de 2011
17 de dezembro de 2011
Natal do agora e do eterno
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| Angel, de Shiori Matsumoto |
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro destes gestos que em igual medida
a esperança e a sombra revestem
Dentro das nossas palavras e do seu tráfego sonâmbulo
Dentro do riso e da hesitação
Dentro do dom e da demora
Dentro do redemoinho e da prece
Dentro daquilo que não soubemos ou ainda não tentamos
O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro de cada idade e estação
Dentro de cada encontro e de cada perda
Dentro do que cresce e do que se derruba
Dentro da pedra e do voo
Dentro do que em nós atravessa a água ou atravessa o fogo
Dentro da viagem e do caminho que sem saída parece
O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro da alegria e da nudez do tempo
Dentro do calor da casa e do relento imprevisto
Dentro do declive e da planura
Dentro da lâmpada e do grito
Dentro da sede e da fonte
Dentro do agora e dentro do eterno
José Tolentino Mendonça
13 de dezembro de 2011
"...o problema das moscas é ao nível da erudição - disse o senhor Henri.
...as moscas não têm linguagem porque não têm biblioteca, e se tivessem biblioteca teriam erudição.
...a erudição é uma espécie de linguagem igual à nossa, só que não a percebemos.
...eu sou muito erudito, mas quando entro nesta biblioteca engarrafada deixo a erudição à porta e transformo-me num animal dos copos."
| Audiolivro, capa |
"...o problema das moscas é ao nível da erudição - disse o senhor Henri.
...as moscas não têm linguagem porque não têm biblioteca, e se tivessem biblioteca teriam erudição.
...a erudição é uma espécie de linguagem igual à nossa, só que não a percebemos.
...eu sou muito erudito, mas quando entro nesta biblioteca engarrafada deixo a erudição à porta e transformo-me num animal dos copos."
Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Henri
12 de dezembro de 2011
O Mistério está todo na infância
E, por fim, Deus regressa
carregado de intimidade e de imprevisto
já olhado de cima pelos séculos
... humilde medida de um oral silêncio
que pensámos destinado a perder
Eis que Deus sobe a escada íngreme
mil vezes por nós repetida
e se detém à espera sem nenhuma impaciência
com a brandura de um cordeiro doente
Qual de nós dois é a sombra do outro?
Mesmo se piedade alguma conservar os mapas
desceremos quase a seguir
desmedidos e vazios
como o tronco de uma árvore
O mistério está todo na infância:
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura
Poema para Bento XVI de José Tolentino Mendonça, nomeado Consultor de Cultura no Vaticano
carregado de intimidade e de imprevisto
já olhado de cima pelos séculos
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| Ilustração de Victoria Kirdy |
que pensámos destinado a perder
Eis que Deus sobe a escada íngreme
mil vezes por nós repetida
e se detém à espera sem nenhuma impaciência
com a brandura de um cordeiro doente
Qual de nós dois é a sombra do outro?
Mesmo se piedade alguma conservar os mapas
desceremos quase a seguir
desmedidos e vazios
como o tronco de uma árvore
O mistério está todo na infância:
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura
Poema para Bento XVI de José Tolentino Mendonça, nomeado Consultor de Cultura no Vaticano
11 de dezembro de 2011
Tributo ao leitor
9 de dezembro de 2011
Pesca literária
A minha posição de leitora é a de adesão a As Pequenas Memórias, tal como o
narrador se extasiou com um peixe de água doce que não chegou a pescar.
Dedicou-lhe, porém, o silêncio, a espera, a contemplação que o tornaram único
no mundo, como o principezinho para a raposa em Saint-Exupéry: “Não creio que exista no mundo um silêncio
mais profundo que o silêncio da água. Senti-o naquela hora e nunca mais o
esqueci. (…) De uma maneira ou de outra, porém, com o meu anzol enganchado nas
guelras, [o peixe] tinha a minha marca, era meu” (p. 86).
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| Mulher ou peixe Ilustração de Jaroslav Betehtin |
Também o livro As Pequenas
Memórias passou a fazer parte da minha vida de leitora. É meu. Ao contrário
de “aquele barbo” do narrador,
pesquei-o!
Uma questão de literatura
Aprecie-se ou não José Saramago, o autor/escritor/homem, ou alguma temática ou estilo das suas obras, certo é que estamos perante páginas de literatura em As Pequenas Memórias.
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| La noche pasa… la lectura queda (ilustração de Violetno) |
A propriedade lexical, que consiste em nomear cada objeto ou realidade com um vocábulo preciso, compagina-se com a novidade e liberdade semânticas que o levam a associar com criatividade uma realidade já existente a outra que lhe ocorre, adaptando, por exemplo, expressões idiomáticas em “Também inutilmente se chorará o azeite derramado” (numa associação fonética de “leite” com “azeite”, remetendo para o contexto descrito dos “velhos olivais” (p.15) ou em “a minha memória de infante” (p.33), num processo de paronímia com “memória de elefante”, criando assim, pelo trocadilho, uma antítese, pois a sua memória de criança não lhe permitia alcançar ainda a prodigiosa recordação do tempo em que teriam começado as desavenças familiares.
A maestria estilística manifesta-se tão simplesmente na tripla adjetivação que revela como num balão (“aquele era nada mais nada menos que o meu primeiro balão em todos os seis ou sete anos que levava de vida”) pode caber o universo onírico, fantástico de uma criança, ainda que gorado quando se esvazia (“Aquela coisa suja, enrugada e informe era realmente o mundo” (p.77)) ou ainda no tom coloquial que mantém com o leitor, aproximando-o das suas vivências ou retificando as suas memórias, precisando factos ou a sua sucessão: “Como acaba de se ver, não andava equivocado quando escrevi que havíamos vivido duas vezes na Rua Carrilho Videira, mas já foi o engano gravíssimo quando (…) acrescentei que estava na idade de onze anos quando do episódio com a Domitília. Nada disso. Na verdade, eu não teria mais que seis, e ela andaria pelos oito” (p.119).
Esta familiaridade com o leitor cria, de facto, por momentos, a sensação de que o narrador (ou mesmo o autor?) se nos dirige, como se nos respeitasse a ponto de retificar a informação biográfica que vai tecendo entre as páginas. Mas não será a verosimilhança tão somente mais um traço da magnitude literária da narrativa? Pouco importa que o autor de Todos os Nomes tenha tido estas ou aquelas (inúmeras) aventuras amorosas. O certo é que nos deixa presos à escrita quais bacorinhos na cama dos avós.
Mª Carla Crespo
7 de dezembro de 2011
Desvanecimentos partilhados
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