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10 de junho de 2012

Hermann Hesse e a sabedoria da leitura


Ilustração de Jeannette Woitzik
O facto de nos obrigarmos a ler uma obra-prima só porque é celebérrima e nos envergonhamos de ainda não a conhecermos seria um grave erro. Cada um de nós deve começar a ler, conhecer e amar aquilo que lhe suscita espontaneamente essa vontade.



As vias são inumeráveis.


Ilustração de Dinis Mota
Cada um deve começar onde um poema, um canto, um conto, uma observação lhe tenham agradado e, partindo daí, ele deve ir à procura de coisas semelhantes.


...aquilo que conta não é a quantidade.


Hermann Hesse (2010:12-13), in Uma biblioteca da Literatura Universal, Cavalo de Ferro

9 de junho de 2012


estou deitado sobre a minha ausência,

como poderia estar deitado se existisse.

 amanhã as ondas imitar-me-ão na praia.



José Luís Peixoto, in A Criança em Ruínas

Ilustração de Svjetlan Junakovic

8 de junho de 2012

Coisas que caem dos olhos




PLIM… PLIM… Lágrimas. Imaginem vê‑las cair dos olhos, e que dentro está a vossa mãe com rosto de menina, acariciando os cabelos, ajeitando‑os atrás de uma orelha. Imaginem que veem dentro delas os rostos e os lugares da vossa vida… as montanhas, com os céus encostados, autoestradas e passagens desniveladas, e árvores que nadam na água salgada de pequenas lágrimas. E rebentam no chão, salpicando tudo à volta. Para não mais voltar. Tudo transbordou dos diques dos olhos, e escapou. Para sempre. Como a história que está para começar.

Gabriele Picco, in As coisas que te caem dos olhos, Prólogo

6 de junho de 2012

Como hão-de ser as palavras?

Ilustração de António João Santos e João Rodrigues




Como as estrelas.


As estrelas são muito distintas e muito claras.



Pe. António Vieira, in Sermão da Sexagésima, cap. V

5 de junho de 2012

Atravessara o verão para te ver

Ilustração de Mariana Kalacheva












dormir, e trazia doutros lugares

um sol de trigo na pupila;

às vezes a luz demora-se

em mãos fatigadas; não sei em qual

de nós explodiu uma súbita

juventude, ou cantava:

era mais fresco o ar.

Quem canta no verão espera ver o mar.


Eugénio de Andrade, in O Peso da Sombra

4 de junho de 2012

Eu ia com a noite pelas ruas


Ilustração de Ingrid Tusell

descuidadas que levam ao teu corpo.

Não sei que vozes se cruzaram

com a manhã de junho dos meus olhos,

mas sempre vozes ou a sombra delas

cortaram os passos ao desejo.

Perdi-me em nevoeiros que de súbito

sobre a cidade caíram, ou em mim.



Eugénio de Andrade, in O Peso da Sombra

3 de junho de 2012

Apenas um rumor

Ilustração de Vincent Gibeaux


E no teu rosto aberto sobre o mar

cada palavra era apenas o rumor

de um bando de gaivotas a passar.




Eugénio de Andrade, in Os Amantes do dinheiro

2 de junho de 2012

Com prazer...

Ilustração de Robert Dunn


A leitura sem amor, o saber sem reverência e a cultura sem coração estão entre os piores pecados que se podem cometer contra o espírito.



Hermann  Hesse (2010:17), in Uma biblioteca da Literatura Universal, Cavalo de Ferro 

1 de junho de 2012

Manhã de junho

Ilustração de Mariana Kalacheva

Pela manhã de junho é que eu iria

pela última vez.

Iria sem saber onde a estrada leva.


E a sede.

                                Eugénio de Andrade, in Matéria Solar

30 de maio de 2012

Folha

Ilustração de Joanna Concejo
Era uma folha pousada
no cotovelo do vento;
 e pairava, deslumbrada,
 entre morte e movimento.

 Era uma folha: lembrava,
de tão frágil, o momento
em que a vida ficava
escrava do teu juramento.


 Era uma folha: mais nada.
Antes fosse esquecimento!


 David Mourão-Ferreira


29 de maio de 2012

A Jorge Peixinho

Ilustração de Silvia Lugli



Faltava-te essa música ainda,

a do silêncio, fria de tão nua,

agora para sempre e sempre tua.

 

Eugénio de Andrade, in Pequeno Formato

27 de maio de 2012

Frutos

Pêssegos, peras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos, pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,

Ilustrações de Dennis Wojtkiewicz
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.


Eugénio de Andrade, in Pequeno Formato

26 de maio de 2012

Falsa lógica

Ilustração de Fernando Rubio Monroy
Ela sai para o alpendre de casa todas as manhãs e exclama:

- Que esta casa esteja protegida dos tigres! - E, em seguida, volta para dentro.

Por fim, nós dissemos-lhe:

- Para que é aquilo? Não há um único tigre num raio de mil e quinhentos quilómetros.

- Estão a ver? Resulta! - foi a sua resposta.



Thomas Cathcart e Daniel Klein, (2007: 54), in Platão e um Ornitorrinco entram num bar...Filosofia com humor

25 de maio de 2012

Ilustração de Juri Romanov


Cliente num restaurante: Como é que prepara os seus frangos?

Cozinheiro: Oh, no fundo não fazemos nada especial. Limitamo-nos a dizer-lhes que vão morrer.


Thomas Cathcart e Daniel Klein, (2007: 154), in Platão e um Ornitorrinco entram num bar...Filosofia com humor

23 de maio de 2012

O homem invisível

Ilustração de Emilie Vast

Secretária: Doutor, está um homem invisível na sala de espera.

Médico: Diga-lhe que não posso vê-lo.





Thomas Cathcart e Daniel Klein, (2007: 85), in Platão e um Ornitorrinco entram num bar...Filosofia com humor

22 de maio de 2012

Milagre da artrite

O velho "Doc" Bloom, o proprietário da loja de ferragens local que era famoso pelas curas milagrosas da artrite, tinha uma longa fila de "pacientes" à espera do lado de fora da porta quando uma senhora idosa baixinha, completamente curvada, entrou lentamente, apoiada na bengala.
Quando chegou a sua vez, entrou na sala das traseiras da loja e, surpreendentemente, saiu meia hora depois a caminhar completamente direita e com a cabeça bem erguida.

Ilustrações de
Maria Jose Olavarria Madariaga, pormenores
Uma mulher que estava à espera na fila, disse:

- É um milagre! A senhora entrou curvada ao meio e agora está a andar direita. Que é que o Doc fez?

- Deu-me uma bengala mais comprida - respondeu ela.   



Thomas Cathcart e Daniel Klein, (2007: 80), in Platão e um Ornitorrinco entram num bar...Filosofia com humor

20 de maio de 2012

Surdez...

Ilustração de Isabel Barriel


Um homem está preocupado porque pensa que a mulher está a ficar surda, por isso vai ao médico. O médico sugere-lhe que experimente um simples teste em casa: parar atrás dela e fazer-lhe uma pergunta, primeiro a seis metros, depois a três metros e, por fim, mesmo atrás dela.
O homem vai para casa e vê a mulher na cozinha, virada para o fogão. Da porta, pergunta:
- Que vamos jantar esta noite?
Nenhuma resposta.
Três metros atrás dela, repete:
- Que vamos jantar esta noite?
Ilustração de Ingrid Aspock
Continua sem resposta.
Por fim, mesmo atrás dela, pergunta:
- Que vamos jantar esta noite?
A mulher volta-se e diz:
- Pela terceira vez...frango!

Não há dúvida de que este casal tem um sério problema de interpretação de dados dos sentidos.



Thomas Cathcart e Daniel Klein, (2007: 74-75), in Platão e um Ornitorrinco entram num bar...Filosofia com humor

19 de maio de 2012

Despertar

Ilustração de Joanna Concejo

É um pássaro, é uma rosa,
é o mar que me acorda?
Pássaro ou rosa ou mar,
tudo é ardor, tudo é amor.
Acordar é ser rosa na rosa,
canto na ave, água no mar.

                                             

                                 Eugénio de Andrade

18 de maio de 2012

Niñas con Cerezas
Pintura a óleo de María Santana Gómez 



Mas na metrópole há cerejas. Cerejas grandes e luzidias que as raparigas põem nas orelhas a fazer de brincos. Raparigas bonitas como só as da metrópole podem ser.  As raparigas daqui não sabem como são as cerejas...


 Dulce Maria Cardoso, in O Retorno