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12 de junho de 2020


Hermenegildo Sábat, Aguarela de Pessoa

Que homem de génio não é obcecado por um sentido de missão?

Fernando Pessoa

10 de junho de 2020

Dia de Camões

Luís de Camões por François Gérard
AS armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

2
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

3
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.


4
E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mi um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado

Foi de mi vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloco e corrente,
Por que de vossas águas Febo ordene
Que não tenham enveja às de Hipocrene.

5
Dai-me ũa fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso.


Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, Canto I, estrofes 1-5

1 de junho de 2020

Os amigos

Ilustração de Katya Dudnik
Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.

Eugénio de Andrade

Campo aberto

Ilustração de Roberto Weigand


Todos os pássaros, todos os pássaros

Asas abriam, erguiam cantos,

De Amor cantavam.

Todos os homens, todos os homens,

De almas abertas, de olhos erguidos,

De Amor cantavam.

De Amor cantavam todos os rios,

Todas as serras, todas as flores,

Todos os bichos, todas as árvores,

Todos os pássaros, todos os pássaros,

Todos os homens, todos os homens.

De Amor cantavam...


Sebastião da Gama

19 de maio de 2020

Pensamento


Ilustração de Manka Kasha

O pensamento ainda é a melhor forma de fugir ao pensamento.

Fernando Pessoa

18 de maio de 2020

Crença

Ilustração de Lee Misook 





Crer é errar. Não crer de nada serve.      



Ricardo Reis

16 de maio de 2020

Sonho de si mesmo


Ilustração de Delphine Vaute

O universo é o sonho de si mesmo.

                
Fernando Pessoa

15 de maio de 2020

O real e o subjetivo

Ilustração de Rock Therrien

Quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da minha subjetividade.

                
Fernando Pessoa

8 de maio de 2020

O que vale um poeta


Ilustração de Tulio Pericoli
(caricatura de Fernando Pessoa)

O poeta vale aquilo que vale o melhor dos seus poemas.

Fernando Pessoa

6 de maio de 2020

5 de maio de 2020

O essencial da arte

Ilustração de Pierre-Adrien Sollier
  (figuração de um quadro de Renoir)

O essencial da arte é exprimir; aquilo que se exprime não interessa.

                
Fernando Pessoa

4 de maio de 2020

3 de maio de 2020

Amor e imortalidade

Ilustração de Kestutis Kasparavicius

O amor é uma amostra mortal da imortalidade.

Fernando Pessoa

Ensinamento


Ilustração de Jesuso Ortiz

Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.

Não me falou em amor. Essa palavra de luxo.



26 de abril de 2020

Dieta

Ilustração de Kana Handel
Não, João,
disse a mãe dos meus vizinhos,
não podemos ter um pirilampo.
Eu nem sei o que é que eles comem...
se dão luz
só podem comer lâmpadas,
disse o Manuel.

Afonso Cruz, in Paz traz paz, Companhia das Letras, 2019, p. 65

24 de abril de 2020

O que importa

Perguntou o Manuel:
Mamã, sabes o que é que eu às vezes penso?
Não, conta lá.

Ilustração de 陳姵含 Pei Han Chen 
Que isto onde nós estamos, o mundo, é um menino
a brincar com casas e árvores e carros
e aviões e animais
e bonecos.
A sério?
Pois é, imagina que o mundo está no quarto de um
menino e que ele está a brincar.
E depois hesitou:
Só não percebo como é que ele faz as ervas.

Ilustração de Olga Kvasha
Sim, o mais complicado são os pormenores,
pensei eu. Mas não lhe disse nada,
porque ele ainda é muito novo para se esquecer
de que as coisas pequenas
são muito importantes.

Afonso Cruz, in Paz traz paz, Companhia das Letras, 2019, p.37






23 de abril de 2020

Sonhar

Sonho muito porque quando estou a dormir
Ilustração de Станичнова Наталья
não tenho nada para fazer.
Depois de acordar,
continuo a sonhar muito porque tenho
muitas coisas para fazer.

Afonso Cruz, in Paz traz paz, Companhia das Letras, 2019, p. 35

16 de abril de 2020

A intensidade da vida


Ilustração de Jimmy Liao

...o tempo (...) longo ou breve, isso não tem importância porque a vida se mede pela intensidade com que é vivida...

Luís Sepúlveda, in História de um gato e de um rato que se tornaram amigos

15 de abril de 2020

Um poema

Ilustração de Shirin Sahba


Não tenhas medo
Ouve
É um poema
Um misto de oração e de feitiço
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente
De coração lavado
Poderás decorá-lo e rezá-lo
Ao deitar,
Ao levantar
Ou nas restantes horas de tristeza
Na segura certeza
De que mal não te faz
E pode acontecer
Que te dê paz!

Miguel Torga