Um blogue que se alimenta de e com ilustrações e palavras, sobretudo textos literários.
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21 de junho de 2014
Sopa com histórias

Um rato estava sentado
debaixo de uma árvore a ler um livro.
De repente,
uma doninha saltou-lhe em cima
e apanhou-o.
A doninha levou o rato
para casa dela.
- Ah, vou fazer
sopa de rato!
- disse a doninha.
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- Oh, vou tornar-me
sopa de rato!
- disse o rato.
A doninha pôs o rato numa panela.
- ESPERA!
- disse o rato. - Esta sopa
não vai saber a nada.
Não tem histórias.
A sopa de rato
tem que levar histórias
para ficar boa.
Arnold Lobel (texto e ilustrações), in Sopa de Rato, ed. Kaladranka, 2013, col. Livros para sonhar, pp. 8-10
19 de junho de 2014
Sonho...

Sonho por vezes que, quando o dia do juízo chegar e os grandes conquistadores, advogados e estadistas vierem receber as suas recompensas – coroas, louros, nomes gravados indelevelmente em mármore imperecível -, o Todo-Poderoso se voltará para S. Pedro e dirá, não sem uma certa inveja, quando nos vir chegar com os nossos livros debaixo dos braços:
—Olhai, estes não precisam de recompensa. Nada temos para lhes dar. Eles amaram a leitura.
Virginia Woolf
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| Ilustrações de Julianna Swaney |
17 de junho de 2014
Pensamento de galinha
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| Ilustração de Flor Opazo |
Clarice Lispector, in A vida íntima de Laura, Relógio d'Água, 2012
16 de junho de 2014
Verdades sobre Laura
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| Ilustração de Flor Opazo |
Acho que vou ter que contar uma verdade. A verdade é que Laura tem o pescoço mais feio que já vi no mundo. Mas você não se importa, não é? Porque o que vale mesmo é ser bonito por dentro. Você tem beleza por dentro? Aposto como tem. (...)
Outra verdade: Laura é bastante burra. Tem gente que acha ela burríssima, mas isto também é exagero: quem conhece bem Laura é que sabe que Laura tem seus pensamentozinhos e sentimentozinhos. Não muitos, mas que tem, tem.
Laura é uma galinha
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| Ilustração de Flor Opazo |
Peço a você o favor de gostar logo de Laura porque ela é a galinha mais simpática que já vi. Vive no quintal de Dona Luísa com as outras aves. É casada com um galo chamado Luís. Luís gosta muito de Laura, embora às vezes brigue com ela. Mas briguinha à toa.
Clarice Lispector, in A vida íntima de Laura, Relógio d'Água, 2012
15 de junho de 2014
Ulisses
O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
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| Ilustração de Danuta Wojciechwska |
Vivo e desnudo.
Este que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.
De nada, morre.
Fernando Pessoa, in Mensagem
14 de junho de 2014
À chegada dos dias grandes
Da luva lentamente aliviada
a minha mão procura a primavera
Nas pétalas não poisa já geada
e o dia é já maior que ontem era
Não temo mesmo aquilo que temera
se antes viesse: chuva ou trovoada
é este o Deus que o meu peito venera
Sinto-me ser eu que não era nada
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| Ilustrações de Marion Arbona |
A primavera é o meu país
Saio à rua sento-me no chão
e abro os braços e deito raiz
E dá flores até a minha mão
Sei que foi isto que sem querer quis
e reconheço a minha condição.
Ruy Belo, in Todos os Poemas
13 de junho de 2014
Sermão de Santo António aos peixes
Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não; não é isso o
que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para
cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os tapuias se comem uns
aos outros; muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos.
Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes todo aquele
concorrer[1] às praças e cruzar as ruas? Vedes aquele subir e descer
as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem
quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como
hão-de comer, e como se hão-de comer.
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| Ilustração de Anton Gorcevich |
(…) Já se os homens se comeram[2] somente depois de
mortos, parece que era menos horror e menos matéria de sentimento. Mas, para
que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os
vossos homens se comem vivos, assim como vós. (…) Vede um homem desses que
andam perseguidos de pleitos[3] ou acusados de crimes,
e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho[4], come-o o solicitador,
come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o
julgador, e ainda não está sentenciado e já está comido. São piores os homens
que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de
executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem
sentenciado e já está comido.
Padre António Vieira, in Sermão de Santo António aos peixes
11 de junho de 2014
Dança II
De pés nus pisas o solo. Sentes a
música dentro de ti e sem saber como gizas no ar movimentos e ritmos novos, em
improviso próprio. Coreografias desenhadas no momento, em explosão urgente de
desejos e de imagens retidas no tempo e no espaço. Elevas-te no ar e falas de
cidades percorridas à descoberta, de pessoas cruzadas e esquecidas, do pio do
pássaro à tardinha e da planta que regas todos os dias, em rotinas cheias.
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| Ilustração de Nolla |
Devagar, a música baixa e esquecendo-a ouves o teu próprio corpo, em sons ritmados,
tensos e libertadores. Cada braço e cada perna em rotação espelham o que tu és
e projectam-te para fora de ti em comunhão com o
exterior, numa revelação de ti mesma. É deste modo que te conheces
profundamente e te ultrapassas num todo cujo nome é muitas vezes indizível.
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| Ilustração de Adolfo Serra |
É
isto a dança e é assim que nos podemos reinventar.
Marina Baltar
10 de junho de 2014
Nevoeiro
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| Ilustração de Stephanie Pui-Mun Law |
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e sereste fulgor baço da terra
que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo-fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ância distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!
Fernando Pessoa, in Mensagem
Screvo meu livro à beira mágoa
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| Ilustração de Danuta Wojciechwska |
Screvo meu livro à beira mágoa.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.
Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?
Quando virás a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?
Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?
Ah, quando quererás voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?
Fernando Pessoa, in Mensagem
8 de junho de 2014
Acordou a manhã
6 de junho de 2014
Tretas tretas tretas
Tretas tretas tretas a mim é que não me levam mais era o que faltava ou um ou outro é um aldrabão disseram-me que o pai natal descia pela chaminé e eu acendi o fogão para lhe queimar o rabo para ele dar um grito para eu o ver e nicles quem ficou com o rabo a arder fui eu que levei bumba no toutiço por ter gasto gás é só para ver como as coisas são disseram-me que ele trazia presentes do céu e o que ele me trouxe foi uma camisola que eu vi numa montra duma loja em saldo com o preço e tudo isto quer dizer que o Céu fica na Rua dos Fanqueiros ou que me aldrabaram por eu ser criança é o que eu digo mentem à gente mal a gente nasce e depois queixam-se de que a gente em grande queira ir para a política
(...) outra porcaria que me fez o pai natal foi dizer ao meu pai que este ano os presentes eram fracotes por causa da crise que há no Céu mas então se aquilo é igual à Terra para que é que lhe chamam Céu anda a gente a privar-se de coisas para ir para o Céu e chega lá e bumba aquilo é como a Graça ou como o Areeiro eu é que não vou nisso e se as coisas não mudam para o ano faço de conta que não sei da crise e mando uma reclamação para o deputado que me representa na assembleia e o pai natal vai ver como é que as moscas picam para aprender a ser profissional a valer que isto dum pai natal amador não interessa a ninguém e muito menos a esta vossa GUIDINHA que não está cá por ver andar os outros.
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| Ilustração de Sophie Dufeu |
(...) outra porcaria que me fez o pai natal foi dizer ao meu pai que este ano os presentes eram fracotes por causa da crise que há no Céu mas então se aquilo é igual à Terra para que é que lhe chamam Céu anda a gente a privar-se de coisas para ir para o Céu e chega lá e bumba aquilo é como a Graça ou como o Areeiro eu é que não vou nisso e se as coisas não mudam para o ano faço de conta que não sei da crise e mando uma reclamação para o deputado que me representa na assembleia e o pai natal vai ver como é que as moscas picam para aprender a ser profissional a valer que isto dum pai natal amador não interessa a ninguém e muito menos a esta vossa GUIDINHA que não está cá por ver andar os outros.
Luís de Sttau Monteiro, "Tretas tretas tretas" in Redacções da Guidinha, Areal Editores
5 de junho de 2014
Ano da Poupança Doméstica
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| Misheva |
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| Ilustrações de |
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| Milena |
...deviam dar uma medalha ao meu Pai porque ele é um homem bestial que inventou a tal poupança antes do resto do mundo cá para mim deviam pôr o retrato dele nos livros de história ao lado dos retratos dos navegadores porque ele descobriu a poupança antes dos outros sim porque a verdade é que a gente lá em casa anda a navegar em poupança antes dos outros há tantos anos que nem conhecemos outra coisa eu cá por mim estou à espera para ver se compro um livro de matemática porque com o dinheiro que o meu Pai ganha nem para o ano mas para voltarmos outra vez ao que eu estava a dizer o que eu quero é que ponham debaixo dos cartazes (do Dia Mundial da Poupança) «Viva o Pai da Guidinha que inventou o Ano da Poupança Doméstica» ou qualquer outra coisa parecida para se fazer justiça
2 de junho de 2014
Farta de batatas até aos olhos
Estou farta de batatas até aos olhos não posso ver batatas à minha frente porque tenho um azar danado enquanto toda a gente hoje tem o DIA mundial da poupança eu nasci numa casa em que andamos há cinco anos ou mais sim ou mais que eu tenho a impressão de que nunca vivemos senão assim mas o melhor é voltar ao que eu estava a contar enquanto toda a gente tem o dia mundial da poupança nós lá em casa andamos no ANO inteiro da poupança e o pior é que já vamos para o quarto ano da poupança e para quê? para chegarmos vivos ao fim do mês vivos mas cheios de batatas até aos olhos
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| Guidinha, de Rui Castro |
Luís de Sttau Monteiro, "Poupança a Poupança Enche a Gente o Papo de Ar" in Redacções da Guidinha, Areal Editores
1 de junho de 2014
Pergunta de criança
31 de maio de 2014
O sótão da minha avó
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| Ilustração de Amy Casey |
O sótão é uma coisa que há em cima das casas de província porque nas de Lisboa em cima das casas o que há é outras casas e em cima dessas há outras e é assim por aí acima até ao telhado mas nas de província há o sótão onde se arrumam as coisas que não prestam ou que ninguém quer deitar fora porque mesmo que não prestem custaram dinheiro e sem pilim é que ninguém vive (...)
Luís de Sttau Monteiro, "O sótão da minha avó" in
Redacções da Guidinha, Areal Editores
Redacções da Guidinha, Areal Editores
28 de maio de 2014
Uma manhã
Por vezes, Calvino obcecado pelos métodos:
- Interesso-me de muitas maneiras pela mesma coisa.
Outras vezes, obcecado pelas coisas:
- Interesso-me da mesma maneira por muitas coisas.
Algumas vezes, embaralhado:
- Interesso-me ao mesmo tempo de muitas maneiras por muitas coisas.
- Interesso-me de muitas maneiras pela mesma coisa.
Outras vezes, obcecado pelas coisas:
- Interesso-me da mesma maneira por muitas coisas.
Algumas vezes, embaralhado:
- Interesso-me ao mesmo tempo de muitas maneiras por muitas coisas.
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| Ilustração de James Marshall |
Hoje, ao acordar, preguiçoso:
- Não me interesso por nada, porém faço tal coisa de muitas maneiras diferentes.
- Não me interesso por nada, porém faço tal coisa de muitas maneiras diferentes.
Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Calvino, Caminho, 2005, p. 39
27 de maio de 2014
Todas as esperanças
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