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22 de outubro de 2013

Sinestesia

Ilustração de Miyuki Sakai


...um cheiro doce e quente e redondo...

Afonso Cruz, in Para onde vão os guarda-chuvas, Alfaguara, 2013, p. 81

20 de outubro de 2013

Silêncio pela boca

Ilustração de Nicona

Fazal Elahi pensava no equilíbrio do mundo, que era uma equação extremamente desequilibrada, mas que, apesar disso, exigia uma espécie de harmonia. Se um homem fala, entra-lhe silêncio pela boca...


Afonso Cruz, in Para onde vão os guarda-chuvas, Alfaguara, 2013, pp. 86-87

19 de outubro de 2013

O sábio e a fome

Ilustração de Helmut Dohle

Sábio - É então isto a fome...Que coisa estranha, não é nada parecido com o que vem nos livros...

Manuel António Pina, in História do sábio fechado na sua biblioteca, Assírio & Alvim, 2009, p. 30

18 de outubro de 2013

Compaixão

Ilustração de Patrice Barton
Nunca antes tinha tocado a mão de outro homem. A mão do homem apertou a mão do Sábio com toda a força, e o Sábio sentiu uma impressão estranha no coração, como se o seu coração tivesse ficado de repente mais pequeno. E então recordou que lera há muito tempo, num velho livro, algo sobre um sentimento confuso e angustiante, chamado compaixão, e percebeu que o seu coração estava cheio de compaixão. Apertou também ele a mão do homem e disse-lhe:

SÁBIO – Tem coragem. Conheço todos os segredos da Medicina e tentarei minorar o teu sofrimento. 

Manuel António Pina, in História do sábio fechado na sua biblioteca, Assírio & Alvim, 2009, p. 34

17 de outubro de 2013

A fome nos livros

Ilustração de Enoki Toshiyuki

O Sábio estremeceu. Nos seus livros, fechado na sua Biblioteca, tinha muitas vezes lido coisas sobre a fome. Mas nunca tinha sentido fome. E agora, de repente, tudo o que aprendera nos livros parecia-lhe pouco.

Manuel António Pina, in História do sábio fechado na sua biblioteca, Assírio & Alvim, 2009, p. 26

16 de outubro de 2013

Da biblioteca para a vida

Ilustração de Olimpia Zagnoli

Como eu gostaria de sair da minha Biblioteca, mas, para isso, teria que sair de mim, porque eu próprio sou a Biblioteca. Como ela, não estou vivo nem estou morto, estou fechado dentro de mim como num labirinto ou como se fosse um livro antigo escrito numa língua desconhecida, que ninguém, nem mesmo a Morte é capaz de ler.


Manuel António Pina, in História do sábio fechado na sua biblioteca, Assírio & Alvim, 2009, p. 25

15 de outubro de 2013

Floração

Ilustração de Rene Rickabaugh

A floração é o símbolo do mistério do nosso espírito.

in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), 


Assírio & Alvim, 2000, 2ª ed., p.115




14 de outubro de 2013

Ser e conhecer

Ilustração de Rene Rickabaugh

Onde existe um ser deve existir também um conhecer.

in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), 


Assírio & Alvim, 2000, 2ª ed., p.21



13 de outubro de 2013

Escrevo pela paixão de te inventar de um nada




Escrevo pela paixão de te inventar de um nada,
um filamento apenas e logo outro sinal,
um tecido febril e temos um cavalo
inteiro com o som e a exactidão do nome.

Não sei a tua cor, mas tens em ti o campo,
a liberdade e a força que experimento em ti.
Para onde vais, cavalo, tão veloz, violento
ou na paz do teu trote, sem sela e livre, livre!


Percorro esta terra como um seio amoroso,
corres já no meu corpo com a vida do fogo,
tua paixão me cega e me ilumina a terra.

És tu que me crias com as palavras justas
que da tua elegância e ritmo se libertam
e me erguem a uma vida pura e vertical.


António Ramos Rosa, Ciclo do Cavalo, in A Palavra e o Lugar, D. Quixote


12 de outubro de 2013

Autenticidade



Tudo o que é autêntico dura eternamente - toda a verdade - tudo o que é pessoal.


in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), 

Assírio & Alvim, 2000, 2ª ed., p.21

O desejo e o acidental

O que amas, verdadeiramente, fica para ti.
Não se sabe o que se deseja, quando se quer fixar o acidental - sobre o amor.
O acidental deseja-se acidentalmente.



Ilustração de Daniela Tieni 


in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), 


Assírio & Alvim, 2000, 2ª ed., p.21

10 de outubro de 2013

Que dupla!

Ilustração de Yusuke Yonezu


O que nós gostávamos de o assustar, para ter o prazer de o consolar! E como ele exigia esse pavor! Não era nada tolo, e no entanto tremia. Era esta a dupla que então formávamos: ele, o leitor - espertalhão! -, e nós, o livro - muito cúmplice!


Daniel Pennac, in Como um romance, Asa

9 de outubro de 2013

Médicos meteorologistas?




Ilustração de Angela Muss

Ilustração de Young Ju Choi













Um médico é como um meteorologista: nunca acerta no tempo.


Afonso Cruz, in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010, p.98

7 de outubro de 2013

Crescem árvores nos pássaros


Ilustração de Марися Рудськ

Os pássaros comem sementes - disse Bonifaz Vogel quando entrou na cozinha. - Não percebo porque não crescem árvores dentro deles.

                                                             
                                                                       Afonso Cruz, in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010, p.87

5 de outubro de 2013

Almas canoras

Ilustração  de Cori Dantini
Os trinados de uma ave canora ouvem-se dentro de nós. As pessoas mal informadas julgam que é o canário a fazê-los, mas é a nossa alma que treme ao ouvir um pássaro a cantar. É assim que se fazem os trinados. De almas a tremer.

Afonso Cruz, in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010, p.91

4 de outubro de 2013

Gaiolas por dentro



Ilustração de Afonso Cruz
Numa loja de pássaros é onde se concentram mais gaiolas. Não há lugar nenhum no mundo construído com tantas restrições como uma loja de pássaros. São gaiolas por todo o lado. 


Ilustração de Liz Pulido



E algumas estão dentro dos pássaros e não por fora como as pessoas imaginam.


Ilustração de Kristina Swarne

Porque Bonifaz Vogel, muitas vezes, abrira as portas das gaiolas sem que os canários fugissem. Os pássaros ficavam encolhidos a um canto, tentando evitar olhar para aquela porta aberta, desviavam os olhos da liberdade, que é uma das portas mais assustadoras. Só se sentiam livres dentro da prisão. A gaiola estava dentro deles. A outra, a de metal ou madeira, era apenas uma metáfora. Bonifaz Vogel vivia no meio de metáforas.

Afonso Cruz, in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010, p.29

2 de outubro de 2013

Nuvens sem fralda

Ilustração de Maddalena Gerli

O céu estava carregado de nuvens que pareciam incontinentes, mas que acabaram por se afastar, indo chover para outras grandes capitais europeias.

Afonso Cruz, in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010,p. 76

1 de outubro de 2013

Terra prometida


Ilustração de Gaëlle Boissonnard

E porque é que Moisés levou quarenta anos a atravessar uma região que não demoraria mais do que uma semana a ser atravessada? Porque a Terra Prometida não era um lugar no espaço e Moisés queria que eles compreendessem que a Terra Prometida é um caminho, é uma terra que está onde está um homem que a deseja. Os hebreus a caminhar levaram a Terra dentro de si...


Afonso Cruz, in A Boneca de KokoschkaQuetzal, 2010,p. 35

29 de setembro de 2013

Animalescos

A lógica que serve a loucura e o despotismo / manipulação das massas subjaz à maioria dos episódios de Animalescos, de Gonçalo M. Tavares.



(...) trata-se de um novo programa do governo que quer não apenas médicos físicos a
Ilustrações de  Alyona Krutogolova
invadir as pequenas aldeias e os pobres, não apenas operações cirúrgicas e medicamentos para a tremura das mãos, quer também  - o bom 
do governo - ordenar a cabeça desorientada dos desgraçados e, por isso, manda psicanalistas a sítios inacessíveis às máquinas que só sabem andar em linha recta (...) a esses sítios inteligentes e sítios parvos, mas a esses sítios inteligentes só os cavalos ou os burros podem chegar (...)

Gonçalo M. Tavares, in Animalescos

Relógio d' Água, 2013, p. 121

28 de setembro de 2013

Eleições

Antonio José Bolívar sabia ler, mas não escrever.
O mais que conseguia era garatujar o nome quando tinha que assinar qualquer papel oficial, por exemplo, na época das eleições, mas, como tais acontecimentos ocorriam muito esporadicamente, já quase se tinha esquecido.
Lia lentamente, juntando as sílabas, murmurando-as a meia voz como se as saboreasse, e, quando tinha a palavra inteira dominada, repetia-a de uma só vez. Depois fazia o mesmo com a frase completa, e dessa maneira se apropriava dos sentimentos e ideias plasmados nas páginas.
Quando havia uma passagem que lhe agradava especialmente, repetia-a muitas vezes,  todas as que achasse necessárias para descobrir como a linguagem humana também podia ser bela.

Ilustração de Sophie Blackal

Lia com o auxílio de uma lupa, o segundo dos seus pertences mais queridos. O primeiro era a dentadura postiça.

                                Luis Sepúlveda, in O velho que lia romances de amor, Asa, 2000, 17ª ed., p.28