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15 de maio de 2013

Doença dos telemóveis

Almoçar ali, assim, é uma forma de descansar das longas horas de viagem, e é possível abstrair do cansaço aproveitando uma vista, que quando se está do lado de fora da janela, nos oferece a natureza, os pássaros, a igreja, o monte, dando uma sensação de paz que nos coloca num intervalo do mundo em que até apeteceria ficar para sempre se não houvesse, na mesa do lado, um telemóvel a tocar. 

Ilustração de Thalita Dol
"Até aqui isto chega", pensamos, como se alguém que vive no mundo contemporâneo pudesse ficar imune a essa doença da comunicação a todo o preço que nos impede cada vez mais de sair da realidade e da pressão do mundo e dos outros com quem não nos interessa conviver mas que, desse modo, têm acesso imediato à nossa privacidade.

                                                                                                 Nuno Júdice, in A Árvore dos Milagres, p. 84

14 de maio de 2013

Aguenta, aguenta...


Ilustração de Mariana Kalacheva


...tudo o que tinha uma utilidade possível o Homem metia em cima do burro, carregando-o até este parecer que não aguentava mais, mas aguentava, e se por acaso fazia o gesto de protestar, parando no início de alguma subida do caminho, o Homem pegava num pau e não descansava enquanto o burro não voltasse a andar, mesmo que o pêlo lhe ficasse em sangue.

Nuno Júdice, "O Homem e o Burro", in A Árvore dos Milagres, p. 27

13 de maio de 2013

Como quase todos os burros...

Ilustração de Cesar Samaniego

Era um burro que tinha um ar pacífico, como quase todos os burros...

Nuno Júdice, "O Homem e o Burro", in A Árvore dos Milagres, p. 27

12 de maio de 2013

Modus vivendi de um coronel


A pensão tinha um regime de pensão completa de que o coronel, como ele dizia, tinha assinatura, tal como se assina um camarote na ópera ou uma revista militar. Comia sempre o mesmo: carne ao almoço e peixe ao jantar. 




Na Pensão já sabiam o que ele queria; e não lhe perguntavam sequer, a não ser que houvesse alguma empregada nova, o que acontecia de vez em quando, e por isso só de vez em quando ele tinha de ensinar à nova empregada que não insistisse em mudar-lhe o regime. 




De resto, era também para isso que serviam os coronéis: para que nenhum regime mudasse. 

Ilustrações de Torigun

Tinha o hábito, além disso, de fazer bolas com o miolo do pão, e entretinha-se a jogá-las umas contra as outras enquanto a comida não chegava.

Nuno Júdice, "Pensão de Termas", in A Árvore dos Milagres, p. 11

11 de maio de 2013

Província



Ilustração de Anna Lisk


Uma tarde de província tinha, em si, todos os defeitos que vinham de ser província. Os habitantes quase se escondiam quando os forasteiros passavam; ou, quando muito, vinham espreitá-los da janela, ou pelo canto da esquina, e fugiam se eles lhes vinham fazer alguma pergunta. Não que não soubessem a resposta, ou que não compreendessem a língua de quem lhes falava, que era a mesma que eles falavam: o que não percebiam era que houvesse um mundo fora do mundo em que viviam, e por isso se assustavam ao perceberem que, para fora do mundo deles, afinal, ainda havia outro mundo.

Nuno Júdice, "Pensão de Termas", in A Árvore dos Milagres

10 de maio de 2013

O sentido do azul




Ilustrações de Vladimir Kryloff

Procuramos o sentido. Andamos às voltas. Por
vezes, aparece um significado, mas tudo é vago,
como se as palavras já não dissessem o que
dizem. Por exemplo: quero saber o que significa
este azul na parede. A casa está direita,
resistiu ao tempo; mas o azul aparece desbotado
pelo sol de verão, pela chuva do inverno,
pela humidade salgada das maresias. E o que
significa este azul não é o azul da cor de
uma parede, tão-só. Há quem veja nele
a passagem dos anos, a fragilidade da vida; 
mas há quem aponte os pedaços em que a cor
desapareceu, deixando à vista o reboco,
e se refira a um mundo em ruínas, ao que
não é possível recuperar. Mas o pintor
chega, encosta a escada à parede, dissolve
a cor no balde, e aproveita a semana sem
chuva para pôr tudo igual. Talvez o novo
azul não seja igual ao anterior; e quando
olho o azul do céu, e o comparo ao da parede,
é como se um fosse a sombra do outro. De
certo modo, o azul deste céu parece-me
mais artificial do que o azul da parede. Digo
Ilustração de Lucy Campbell
então que o homem aperfeiçoa a imagem
que a natureza nos dá, como se já não
fosse possível acreditar no céu. O
pintor, esse, foi-se embora. Depois, olho
para o alto: há nuvens aqui e ali, e alguns
pássaros pontuam-no, como insólitas
manchas no infinito. Faz ali falta um pintor
para tapar os buracos, e voltar a pôr tudo
igual. Mas onde está a escada para chegar
lá acima? E quantos baldes de tinta seriam
precisos? E fico à espera da noite, para
não ver o azul com as imperfeições do céu.


Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável   



8 de maio de 2013

Literatura precisa-se


Ler, para mim, não é ler o best-seller. Ler a boa literatura será sempre uma coisa de uma minoria, aí não há grandes invenções.

Ilustração de Madalena Matoso


O que se vende é inútil, não traz nada, não acrescenta nada, essa leitura é vazia. O texto que vai ficar não se vê nas livrarias ou quando se vê é durante uma semana e desaparece. É uma situação catastrófica e por isso faz falta uma boa crítica literária.


Nuno Júdice, em entrevista a Ana Sousa Dias na Revista Ler, nº 123, abril 2013, pp.28-29

7 de maio de 2013

Sem pagar bilhete



Ilustração de James Fenner


Escrevo para viajar. Graças à escrita, viajo sem pagar bilhete.


Miguel Miranda, médico e escritor

Congresso Bibliotecando em Tomar 
3 de maio de 2013

6 de maio de 2013

Viajar

Ilustração de Alexander Sulimov
A experiência de viagem é também uma experiência de linguagem.

Carlos Reis, Professor Catedrático
Congresso Bibliotecando em Tomar 
3 de maio de 2013

5 de maio de 2013

Amor e paraíso

Ilustração de Alexander Sulimov


Todo o objecto amado é o centro de um paraíso.

 Novalis, in Fragmentos, Assírio & Alvim, col. Gato Maltês

Dia da mãe

Ilustração de Daniela Terrazzini

Tudo acontece em nós muito antes de ter acontecido.

Novalis, in Fragmentos, Assírio & Alvim

4 de maio de 2013

Luz


Ilustração de Roberto Weigand


A luz é o génio do fogo.

                        Novalis, in Fragmentos

2 de maio de 2013

Elementos da poesia

Ilustração de Alexander Sulimov





O corpo, a alma e o espírito são os elementos do mundo, como a epopeia, a lira e o drama são os da poesia.


                      Novalis, in Fragmentos, Assírio & Alvim

1 de maio de 2013

Natureza

Ilustração de Cassandra Rhodin

Podemos considerar a natureza como um corpo fechado, como uma árvore de que somos os botões em flor.

                                                                       Novalis, in Fragmentos, Assírio & Alvim, col. Gato Maltês

30 de abril de 2013

Paradoxo

Ilustração de Raul Colon





A possibilidade de uma dor infinitamente excitante existe.



                         Novalis, in Fragmentos, Assírio & Alvim

28 de abril de 2013

Água

Ilustração de Chiho Makino


A água é uma chama molhada.

Novalis, in Fragmentos

Compreender as árvores

Ilustração de Afonso Cruz



Não é preciso ser cientista para compreender as árvores, basta ser pássaro. Ou Abril.



Afonso Cruz, "28 de Abril" in O livro do Ano

27 de abril de 2013

Sós com o que amamos

Ilustração de Kristina Swarner
Estamos sós com tudo aquilo que amamos.

                                                  Novalis, in Fragmentos

25 de abril de 2013

Amor

Ilustração de Alexandra Eldridge

O amor é o fim último da história universal. O amen do universo.

Novalis, in Fragmentos, Assírio & Alvim, col. Gato Maltês



24 de abril de 2013

Pura ficção?

Ilustração de Su Blackwell

Não confundas a vida com o teatro, dissera-me Rosa; e eu ouvia as mesmas palavras na boca da historiadora ao dizer-me que não devia confundir o que nasce da investigação histórica com o que realmente se passou, numa determinada época. A história do passado, somos nós que a fazemos, e não os seus protagonistas; e eu pensava nisto como se fosse uma aberração, pondo em causa todos os livros que lemos e por onde estudámos a evolução do mundo e das sociedades. Seria tudo uma pura ficção? Então, disse-lhe, a verdadeira história está nos romances, porque aí é onde o homem projecta a sua realidade, entre o que viveu e o que sonhou, sem qualquer preocupação de construir uma cena dominada pela verosimilhança que os acontecimentos conferem ao que se escreve.

Nuno Júdice, in Os Passos da Cruz (2009), D, Quixote, 1ª ed., p. 74