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24 de janeiro de 2013

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Ilustração de Feridun Oral




Este é o poema de uma macieira.
Quem quiser lê-lo,
Quem quiser vê-lo,
Venha olhá-lo daqui a tarde inteira.   

Floriu assim pela primeira vez.
Deu-lhe um sol de noivado,
E toda a virgindade se desfez
Neste lirismo fecundado.

São dois braços abertos de brancura;
Mas em redor
Não há coisa mais pura,
Nem promessa maior.

Miguel Torga

22 de janeiro de 2013

Como o rumor



Ilustração de Maki Hino
Como o rumor do mar dentro de um búzio                
O divino sussurra no universo

Algo emerge: primordial projecto.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das coisas

21 de janeiro de 2013

A forma justa




Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Cidades, de Amy Casey
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo



Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das coisas

20 de janeiro de 2013

Domingo

Ilustração de Maki Hino

 ...e o domingo terminava, com uma serenidade cansada e triste.



Eça de Queirós, in O Primo Basílio

19 de janeiro de 2013

À sombra de Victor Hugo

Ilustração de Nabhan Abdullatif
A sombra é sempre escura até mesmo 
a dos cisnes.

Eugénio de Andrade, in Pequeno formato

Cultura e vazio

Ilustrações de Alberto Godoy
 












Só pequenas minorias se emancipam da religião substituindo com a cultura o vazio que ela deixa nas suas vidas: a filosofia, a ciência, a literatura e as artes. Mas a cultura que pode cumprir esta função é a alta cultura.

Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, p.40

18 de janeiro de 2013

Escrita e memória

Ilustração de André Letria


O recurso à escrita debilita o poder da memória. Aquilo que fica escrito e que, portanto, pode ser armazenado (...) já não precisa de ser confiado à memória. Cultura oral é aquela que constantemente reactualiza as memórias; um texto, ou uma cultura do livro, autoriza (...) todas as formas de esquecimento.

Georges Steiner, in O silêncio dos livros 

17 de janeiro de 2013

A promessa de um sentido



Ilustração de Aki

O texto escrito implica, entre o autor e o respectivo leitor, a promessa de um sentido.

Georges Steiner, in O silêncio dos livros

16 de janeiro de 2013

Silêncio ou luxo

O silêncio passou a ser um luxo.

A cena do criado ou do empregado doméstico, no alto do seu escadote, a espanejar amorosamente os derradeiros volumes da biblioteca cheira a nostalgia suspeita. O tempo acelerou espantosamente, como Hegel e Kierkegaard foram dos primeiros a fazer notar. Os vários momentos de tempo livre de que depende qualquer leitura séria, silenciosa e responsável tornaram-se apanágio quase exclusivo dos universitários e dos investigadores. Vamos matando o tempo em vez de nos sentirmos à vontade adentro dos seus limites.

Georges Steiner, in O silêncio dos livros
Ilustrações de Vladymyr Lukash