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5 de julho de 2012

A espuma do café

Ilustração de Moony Khoa Le










Quando penso na existência de deus,
preciso de um café. Porém, tal como,
ao encher a chávena, sei que o café existe
por baixo da espuma, mesmo que
o não veja, também devia acreditar
que, por trás das nuvens, existe o deus em que
não acredito porque não o consigo ver. E ao
ligar um argumento ao outro, começo a perceber que não
há qualquer razão para não acreditar em deus, tal
como não tenho nenhuma razão para não acreditar 
no café cujo calor sinto na chávena, quando a aperto
para me aquecer, enquanto a espuma se não desfaz. E
poderia se este o motivo por que, ao olhar para o céu,
devia ter a mesma sensação de quem só espera que
as nuvens passem para ver esse deus
que elas escondiam. No entanto,
a verdade que me impediu de voltar a acreditar
na existência de deus foi que tive de beber
o café já frio, depois do tempo em que esperei
que a espuma se desfizesse para acreditar
que havia café na chávena, e um deus
no céu.


Nuno Júdice, "Nova suma teológica", in Fórmulas de uma luz inexplicável

3 de julho de 2012

Mala de viagem

Começa por guardar um sonho dourado
pelo sol, por onde corra o vento mais quente; põe
sobre ele o silêncio que acompanha o desejo
dos amantes, limpando-o das sombras
do inverno; protege-os com a negra foice
do destino, de lâmina embainhada na geada
matinal, cujo brilho anuncia já o céu
Ilustração de Шлыков Геннадий- Gennady
do meio-dia. Esvazia o búzio da madrugada
do seu recheio de amor, para que se possa ouvir
o mar sem o eco nocturno dos porões. Por
cima, põe as conchas do oráculo de rosto
apagado pelo degelo das estrelas. Lembra-te
que a casa que vais deixar não pode ficar
fechada; e que a chave do sono ficou entre
os seios nus da memória. Só assim
terás um rumo, e de cada vez que chegares
a mala estará pronta para a viagem.

Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável

2 de julho de 2012

Modelo ao ar livre

Ilustração de Quentin Gréban

Seguindo o sulco negro das consoantes
dos teus cabelos, desenho lentamente os traços do
teu rosto. O meu objectivo é recortá-lo do papel
e ver-te à transparência da página, limpando
de vogais as tuas faces. Ponho-te neste retrato
de olhos fechados, e colho dos teus lábios
as pétalas que caíram com as sílabas
do amor, para as voltar a pousar nas mãos
que me estendes. Depois, vou buscar a luz
que me falta ao fundo da tarde, e derramo-a
pelo teu corpo, vendo soltarem-se da tua pele
as gotas primaveris de um céu límpido
como a imagem que aqui vejo florescer.

 
Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável

1 de julho de 2012

Na orla do mar

Ilustração de Maryse Proulx
                                                               

Na orla do mar,
no rumor do vento,
onde esteve a linha
pura do teu rosto
ou só pensamento
(e mora, secreto,
intenso, solar,
todo o meu desejo)
aí vou colher
a rosa e a palma
Onde a pedra é flor,
onde o corpo é alma. 

Eugénio de Andrade, in Até amanhã 

Sobre a casa

 




Não há senão a casa
à beira do crepúsculo
não há senão
a vereda quase triste das palavras.




Eugénio de Andrade, in Véspera da Água

30 de junho de 2012

Lágrima


Ilustração de Milos Koptak
 

 Dos olhos me cais,
 redonda formosura. 
Quase fruto ou lua,
cais desamparada.
Regressas à água
mais pura do dia,
obscuro alimento 
de altas açucenas.
Breve arquitectura
da melancolia.
Lágrima, apenas.

Eugénio de Andrade, in Coração do dia

Quando junho voltar

Ilustração de Anna Wadham


A quem deste a mão, confiaste
a sua seda? O ardor
do verão caiu ao rio,
a tão amada voz perdeu
o seu rebanho.
Quando junho voltar,
quem saberá onde fará a casa?



Eugénio de Andrade, in O outro nome da terra

29 de junho de 2012

Lusofonia

rapariga: s.f., fem. de rapaz; mulher nova; moça; menina; (Brasil), meretriz.
Ilustração de Lucie Crovatto


Escrevo um poema sobre a rapariga que está sentada

no café, em frente da chávena do café, enquanto
alisa os cabelos com a mão. Mas não posso escrever este
poema sobre essa rapariga porque, no brasil, a palavra
rapariga não quer dizer o que ela diz em portugal. Então,
terei de escrever a mulher nova do café, a jovem do café,
a menina do café, para que a reputação da pobre rapariga
que alisa os cabelos com a mão, num café de lisboa, não
fique estragada para sempre quando este poema atravessar
o atlântico para desembarcar no rio de janeiro. E isto tudo
sem pensar em áfrica, porque aí lá terei
de escrever sobre a moça do café, para
evitar o tom demasiado continental da rapariga, que é
uma palavra que já me está a pôr com dores
de cabeça até porque, no fundo, a única coisa que eu queria
era escrever um poema sobre a rapariga
do café. A solução, então, e mudar de café, e limitar-me a
escrever um poema sobre aquele café onde nenhuma rapariga se
pode sentar à mesa porque só servem cafés ao balcão.
 


Nuno Júdice, in A Matéria do Poema

28 de junho de 2012

Cena bíblica

Ilustração de Carmen Arvizu
No meio da praia deserta, uma baleia morta. O céu
estava cinzento. As ondas rebentavam em brancas
explosões. Dois ou três pescadores, e outras tantas
crianças, andavam à volta da baleia, tapando o nariz.
Nada a fazer por ela. Mas o vento levava o cheiro
para longe, e ao aproximar-me perguntava-me se
não seria de a abrir e ver se, por acaso, não haveria
um jonas no seu ventre. O pescador mais velho
afastou-me: «E se ali estivesse alguém, o que
teria para nos dizer?» Não soube o que responder:
que mensagens de um deus antiquíssimo? Que
recordações de um tempo de guerras e desastres?
Que memórias da mulher amada, de quem não
restam ossos nem imagens? No dia seguinte,
com um tractor, a baleia foi enterrada bem fundo,
numa cova ao seu tamanho. Dizem que nenhuma
planta cresceu ali, desde então. E ainda hoje me
arrependo de não ter ouvido o apelo de jonas,

e de não o ter tirado do ventre da baleia.


Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável

27 de junho de 2012

A viagem

Ilustração de Anuska Allepuz

Ilustração de Janes Browne
No conto "A viagem", de Sophia, um homem e uma mulher perdem-se. 
Percorrem uma estrada e a estrada desaparece. Encontram um cavador, que lhes indica uma fonte e, ao voltarem para trás para recolherem informações sobre a estrada, também o cavador tinha desaparecido. 
 
Caminham, caminham e tudo vai desaparecendo à sua volta, até mesmo as saborosas amoras que haviam colhido e guardado no lenço da mulher.
 
A verdade é que, homem e mulher, caminham juntos, de mãos dadas; ele protege-a, tranquiliza-a, quando confessa as suas fraquezas: a fome e o medo, muito medo.

     
Até que... o homem cai no abismo. E a mulher procura-o. "Mas não havia passagem. (...) Compreendia que agora era ela que ia cair no abismo. "

Ilustração de Daniela Giatarrana
Ilustração de Shira Sela



"Então virou a cara para o outro lado do abismo. Tentou ver através da escuridão. Mas só se via escuridão. Ela, porém, pensou:

- Do outro lado do abismo está com certeza alguém.

E começou a chamar."


    

 Esta viagem é um percurso pessoal, primeiro a dois e depois de cada um, individualmente. 


Um percurso de incerteza, na curva do inesperado. 

Ilustração de Angela Morgan

Uma viagem que, como a fé, se joga na adversativa. E é nas adversativas que normalmente está a chave, o segredo, a novidade. A mulher só via escuridão, "porém" (adversativa) confiou que do outro lado do abismo estaria decerto alguém. E por isso se lançou e começou a chamar, cheia de esperança.

Mas (adversativa) para chegarmos à esperança, por vezes também precisamos de hermeneutas, de alguém que interprete os textos e nos ajude a entranhá-los.
 
Portefólio de Leituras recolheu e acolheu a interpretação luminosa do conto "A viagem", de Sophia de Mello Breyner Andresen, por Tolentino Mendonça.





26 de junho de 2012

Tudo é perfumado e belo

Ilustração de Daniela Giarratana



- Ah! - disse ela -, mesmo perdida, vejo como tudo é perfumado e belo. Mesmo sem saber se jamais chegarei, apetece-me rir e cantar em honra da beleza das coisas. Mesmo neste caminho que eu não sei onde leva, as árvores são verdes e frescas como se as alimentasse uma certeza profunda. Mesmo aqui a luz poisa leve nos nossos rostos como se nos reconhecesse. Estou cheia de medo e estou alegre.

 
Sophia de Mello Breyner Andresen, in "A viagem"

25 de junho de 2012

As meninas

Ilustração de Arthur de Pins
as minhas filhas nadam. a mais nova
leva nos braços bóias pequeninas,
a outra dá um salto e põe à prova
o corpo esguio, as longas pernas finas:

entre risadas como serpentinas,
vai como a formosinha numa trova,
salta a pés juntos, dedos nas narinas,
e emerge ao sol que o seu cabelo escova.

a água tem a pele azul-turquesa
e brilhos e salpicos, e mergulham
feitas pura alegria incandescente.

e ficam, de ternura e de surpresa,
nas toalhas de cor em que se embrulham,
ninfinhas sobre a relva, de repente. 


Vasco Graça Moura

Homenagem a Cesário Verde

Ilustração de Daniela Giarratana


Aos pés do burro que olhava para o mar
 

depois do bolo-rei comeram-se sardinhas

com as sardinhas um pouco de goiabada

e depois do pudim, para um último cigarro

um feijão branco em sangue e rolas cozidas



 





Ilustração de Kevin Sloan

Pouco depois cada qual procurou

com cada um o poente que convinha.

Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde

que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!
                                    Mário Cesariny

24 de junho de 2012

De Tarde

Ilustração de Cécile Aziliz Rouzay


Naquele pic-nic de burguesas
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Ilustração de Kasia Bajerowicz
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.



Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Ilustração de Jettie Rosenboon

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!
           
                                   Cesário Verde


Em especial aos domingos

Ilustração de Cocci Lune


Em especial aos domingos

quando ninguém está em casa

aí por finais de Junho

subo então ao terraço

para perceber além dos muros

a cidade silenciosa.


Tonino Guerra, in Histórias para uma noite de calmaria

23 de junho de 2012

Dino

Ilustração de Emilie Vast
Tinha bigode meu irmão e dançava o tango
agora vive com quatro mil patos
que chafurdam dentro do rio
entre as canas.
Se o convido para Roma
chega com duas folhas de alface
como se fosse
um canário na gaiola.
E todas as vezes que nos vemos
mesmo quando passou mais de um ano
damos as mãos e isso basta.


Tonino Guerra, in Histórias para uma noite de calmaria

22 de junho de 2012

Cinco sentidos

Ilustração de Mariana Kalacheva



Nós temos cinco sentidos:

são dois pares e meio de asas.

- Como quereis o equilíbrio?




David Mourão-Ferreira

21 de junho de 2012

Em todas as ruas te encontro


Ilustração de Mariana Kalacheva
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

 
                                                        Mário Cesariny

Um ninho

Ilustração de Max D Sandley


Sei um ninho.

E o ninho tem um ovo.

E o ovo, redondinho,

Tem lá dentro um passarinho

Novo.


Miguel Torga

20 de junho de 2012

Junto ao fogo



Decidiu abandonar as mulheres e, por longo tempo, de facto, viveu só. Passeava, olhava as árvores e frequentava o café sem voltar o rosto para qualquer mulher bela.
Ilustração de Patricio Betteo

Mas um dia, uma jovem colocou-se a seu lado e disse-lhe que o amava. Durante muitos dias o homem recusou-a, até que a mulher deixou de vir ao café, desaparecendo sabe-se lá para onde.

Só agora, aquele tal, foi sacudido por tão grande amor que percorreu, a pé, toda a cidade, até que parou a conversar com uma daquelas mulheres que vive junto às fogueiras, na periferia. E nem reparou que era a mesma rapariga que o amava.


Tonino Guerra, in Histórias para uma noite de calmaria