Número total de visualizações de páginas

14 de janeiro de 2016

Criança abandonada


Ilustração de Mila Gablasova


E que hei-de agora fazer com esta criança acabada de abandonar num contentor de lixo e que podia ser meu filho ou meu neto?

 
José Jorge Letria, in Coração sem abrigo

13 de janeiro de 2016

Velhice

Ilustração de Victo Ngai






A velhice é outra forma de contar o tempo.


José Jorge Letria, in A vida segundo Goya, 
Guerra e Paz, 2015, p. 139

12 de janeiro de 2016

A porta do sonho


 
Ilustração de Claire Mojher
 

Quando queremos sonhar, aqueles de quem gostamos são a porta que se abre para o território da vida a transformar-se.

José Jorge Letria, in A vida segundo Goya, Guerra e Paz, 2015, p. 17

8 de janeiro de 2016

Quando eu for pequeno

Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono. 



Ilustração de Juana Martinez-Neal

Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.

Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar. 


 
Ilustração de Olivier Tallec


Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena,
lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
anunciando que vai voltar porque eu sou pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.



(...)                                                         
José Jorge Letria, Cascais, 1951

7 de janeiro de 2016

Assim às vezes nos sonhos

Ilustração de Hilsaca Castro


A multidão não parava de passar. Era o centro do centro da cidade. O homem estava sozinho, sozinho. Rios de gente passavam sem o ver.
Só eu tinha parado, mas inutilmente. O homem não me olhava. Quis fazer alguma coisa, mas não sabia o quê. Era como se a sua solidão estivesse para além de todos os meus gestos, como se ela o envolvesse e o separasse de mim e fosse tarde de mais para qualquer palavra e já nada tivesse remédio. Era como se eu tivesse as mãos atadas. Assim às vezes nos sonhos queremos agir e não podemos.

 
 
Sophia de Mello Breyner Andresen, "O Homem" in Contos Exemplares, 
Figueirinhas, 2006, 36ªed., p. 138

6 de janeiro de 2016

Dia de Reis


Ilustração de Jan Pashley
Gaspar respondeu:

- Não posso adorar o poder dos ídolos. O meu deus é outro e creio no seu advento, que a Terra e o Céu me anunciam.

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente" in Contos Exemplares, 
 Figueirinhas, 2006, 36ªed., p. 146

4 de janeiro de 2016

O que lá não está


 
Ilustração de Ian Dale
O poema não se refere àquilo que é, mas sim àquilo que não é. Pois a natureza é uma caixa cheia de coisas da qual o poeta extrai uma coisa que lá não está. 
(...) 
- Num poema não devemos buscar sentido, pois o poema é ele próprio o seu próprio sentido. Assim o sentido de uma rosa é apenas essa própria rosa.



Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente" in Contos Exemplares, 
Figueirinhas, 2006, 36ªed., p. 155

3 de janeiro de 2016

Não é o que parece

 
Ilustração de Shae Syu


- A poesia não se exprime directamente. Ora o texto que temos em nossa frente é um poema e por isso mesmo deve ser tomado como uma metáfora que não se refere nem ao passado nem ao presente nem ao futuro do mundo em que vivemos, mas só ao mundo interior do poeta, que é o mundo da poesia sempre voltado para o devir e para a esperança. Este texto não fala de factos reais e apenas simboliza o espírito criador do homem.  


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente" in Contos Exemplares, 
Figueirinhas, 2006, 36ªed., p. 154

24 de dezembro de 2015

Adeste Fideles

Para dizer junto à manjedoura



 
Ilustração de Oreli Gouel
 
Que Teus olhos, Menino, ensinem largueza
e altura aos meus olhos

Que Teus olhos curem os meus
da fadiga e dos seus filtros

Que Teus olhos desimpeçam a visão
fragmentária, parcial e indecisa

Que Teus olhos devolvam aos meus olhos
o vento azul da viagem e a sua alegria
Devolvam o real como anel aberto
em vez dos círculos obsidiantes e fechados
Devolvam o aberto como imagem
e programa

Que Teus olhos, Menino, ensinem aos meus
o seu natal

Tolentino Mendonça

23 de dezembro de 2015

Construir a manjedoura



Ilustração de Lynn Gaines


Ensina-nos, Senhor, como se constrói a manjedoura onde nasces
Ensina-nos que duas mãos que se avizinham são uma manjedoura
um abraço tem, sem palavras, aquilo que tem uma manjedoura
uma mesa fraterna que se abre desenha
a forma da Tua manjedoura
Ensina-nos, Senhor, como se constrói a manjedoura onde nasces
Ensina-nos que a misericórdia é a matéria mais apropriada
assim como a gratuidade, o perdão, os reencontros nem sempre fáceis,
a conversa recomeçada depois de uma interrupção dolorosa
o dom que compromete, o gesto de amor
os tráficos tantas vezes renascidos da dura cinza
mas que a alegria, a Tua alegria em nós,
faz parecer completamente naturais no seu feliz azul aéreo
Ensina-nos, Senhor, como se constrói a manjedoura onde nasces
arte divina de que a partir de Ti somos capazes

Tolentino Mendonça

8 de dezembro de 2015

Não há dia nenhum que não nos visite


Ilustração de Sofia Golovanova


Não há dia nenhum que não nos visite
um Anjo Teu:
na alegria que saboreamos como dom
no azul de certas presenças
que persiste depois em nós por longo tempo
no diálogo unânime, na palavra transparente
mas também no desejo frágil que não raro é o da vida
no seu passo indeciso, interrompido e cinzento
ou na ferida que nos pede mais aceitação do que cura
Não há dia nenhum que não nos visite
um Anjo Teu:
no que desce ou ascende em silêncio
e depende e não depende apenas de nós
na imperfeição e na sede que numas horas pesa
e noutras nos alavanca
na vida minúscula, no encontro talvez ínfimo
em busca daquela evidência
que na pobreza do presépio tocamos
Não há dia nenhum que não nos visite
um Anjo Teu

José Tolentino Mendonça

22 de novembro de 2015

Pergunta-me

Ilustração de Lucy Campbell


Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente


Ilustração de Serena Curmi

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer

                                                              Mia Couto

8 de novembro de 2015