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21 de março de 2020

A primavera não sabia







Poema: Irene Valla 
Locução: Ricardo Capeloa


Um poema de esperança em tempos conturbados.

Poema

Ilustração de Lisa Aisato

As coisas mais simples, ouço-as no intervalo
do vento, quando um simples bater da chuva nos
vidros rompe o silêncio da noite, e o seu ritmo
se sobrepõe ao das palavras. Por vezes, é uma
voz cansada que repete incansavelmente
o que a noite ensina a quem vive; de outras
vezes, corre, apressada, atropelando sentidos
e frases como se quisesse chegar ao fim, mais

depressa do que a madrugada. São coisas simples
como a areia que se apanha, e escorre por
entre os dedos enquanto os olhos procuram
uma linha nítida no horizonte; ou são as 
coisas que subitamente lembramos, quando
o sol emerge num breve rasgão de nuvem.
Estas são as coisas que passam quanto o vento
fica; e são elas que tentamos lembrar, como
se as tivéssemos ouvido, e o ruído da chuva nos
vidros não tivesse apagado a sua voz.

Nuno Júdice, "Poema", 
in As coisas mais simples, D. Quixote, 2007, 2ªed., p.25


20 de março de 2020

A utilidade do inútil





A utilidade do inútil, reflexões sobre a importância da filosofia, da literatura, do saber na sua dimensão mais erudita, sem uma forçosa vertente pragmática, cultivando o espírito: a dignidade humana, a curiosidade intelectual, o crescimento pessoal. O conhecimento como fonte de desenvolvimento pessoal versus o utilitarismo do estudo com vista a um desempenho profissional tout court

Portefólio de Leituras

Matemática, filosofia e arte

Ilustração de Sandrine Kao

As matemáticas têm um triplo objectivo. Devem fornecer-nos um instrumento para o estudo da natureza. Mas não é tudo. Têm um objectivo filosófico e, permito-me dizê-lo, um objectivo estético. Devem ajudar o filósofo a aprofundar as noções de número, de espaço, de tempo. E os seus adeptos, sobretudo, encontram nelas um prazer análogo àquele que nos dão a pintura e a música.


Henri Pointcaré (cientista francês)


apud Nuccio Ordine, A utilidade do inútil - Manifesto
ed. Ágora, 2018, 2ª reimp., p. 122 

18 de março de 2020

Ilustração de Michael Creese

Não sei pensar sem a escrita. Ama-se como sem ela?

Ana Marques Gastão, in Lápis mínimo

A fonte

Ilustração de Noemi Villamuza
Com voz nascente a fonte nos convida
A renascermos incessantemente
Na luz do antigo sol nu e recente
E no sussurro da noite primitiva



Sophia de Mello Breyner Andresen, in Dual

16 de março de 2020

Regressarei


Ilustração de Pei Han Chen
Eu regressarei ao poema como à pátria à casa
Como à antiga infância que perdi por descuido
Para buscar obstinada a substância de tudo
E gritar de paixão sob mil luzes acesas


Sophia de Mello Breyner Andresen in O nome das coisas

6 de janeiro de 2018

Reacender as estrelas


Ilustração de Sharon Harmer


É tempo de reacender as estrelas.

                                                                 Apollinaire

1 de janeiro de 2018

Comprar um lírio

Ilustração de Minna Immonen

O utilitário passou a ser a regra de avaliação das nossas sociedades, mas precisamos também do inútil. Ao lado do pão precisaremos sempre de rosas. Ou melhor: em momentos-chave da nossa existência, se não forem as rosas a sustentar-nos, nem o pão nos servirá. Um dos grandes mestres da poesia chinesa, Li Po, tem um poema curto onde recomenda: "Vende um dos teus pães e compra um lírio."



José Tolentino Mendonça "Trocar o pão por um lírio" 
in O pequeno caminho das grandes perguntas, Quetzal, 2017, 1ª ed., p. 30


29 de dezembro de 2017

Somos o que lemos


Ilustração de Kat Menschik

Às vezes pergunto-me quem raio seria eu se, em vez de ter lido os livros que li, tivesse antes lido os que não li. Provavelmente cruzar-me-ia comigo mesmo na rua e não me reconheceria.

Manuel António Pina

2 de novembro de 2017

Eu, sabendo que te amo



 
il. Rima Koussa
Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.

 Nuno Júdice, in A Fonte da Vida

28 de outubro de 2017

Chegas tarde ao teu tempo

Ilustração de Sarah Jarrett

Chegas tarde ao teu tempo. Palavras duras

que escuto agora como uma derrota.

Mas já não sei de nenhum combate,

nem que tempo era o meu. É uma pena

não se ser ninguém, ter errado

o comboio, ter ficado sem malas,

adormecido no banco, passar ao largo,

e achar-se agora sem roupa limpa,

cansado, num hotel reles de uma só

e má estrela, que deve ser a minha.

Prescindirei de tudo menos do poeta

que fica do desastre. Fingirei ver

que no final de contas errei o século:

isto será Paris e eu Verlaine.

                                           Joan Margarit



24 de dezembro de 2016

O Natal é a espera que acontece

Ilustração de Marijan Ramljak



Isabel Figueiredo e Jorge Reis-Sá, in

Advento e Natal para crentes e não-crentes,

Paulus Editora, 2016

27 de novembro de 2016

A estrela

Ilustração de mj-Marijan Ramljak


Precisamos de uma estrela que desarme a noite
Precisamos de uma palavra transparente
que nos ofereça a possibilidade de um começo
Precisamos de uma esperança que se propague
Precisamos de lugares límpidos
fora e dentro de nós
Precisamos de reencontrar uma vida onde a prece
e o louvor voltem a ser possíveis
Precisamos de um gesto para dizer uma alegria
maior do que a alegria
Precisamos de acolher o dom
e o seu equilíbrio difícil e leve
Precisamos de alguém que em pleno inverno nos ensine
a trazer no coração a primavera a arder

José Tolentino Mendonça

8 de abril de 2016

Rua de nenhures


il. Anuska Allepuz


Cantas. Não sei bem onde,
mas atravessas as paredes da casa
e do coração. O amor indetectado
lança notas da música da terra
 não a das estrelas, que não há

Cantas. E o universo é uno,
é uno neste verso. 


Pedro Tamen

5 de abril de 2016

Cama



il. Leandro Lamas

Podia ser uma cama aberta no horizonte
e os teus cabelos num poente incendiado.
Podia ser o teu sexo num cume de monte,
e os teus seios despidos sobre este prado.
A mão que esconde mais do que oferece,
os olhos de presa dominando o caçador.
E os teus lábios que murmuram a prece
de quem só reza no instante do amor.
E se falasse dos teus olhos, dos teus braços
desse corpo em que me perco e te ganho,
não mais acabaria o que tem de acabar;
uma respiração de suspiros e de abraços
neste canto em que és tudo o que eu tenho,
nesta viagem em que não tem fundo o mar.

Nuno Júdice

3 de abril de 2016

Abro-te a porta do poema


 
il. Lorena Pugh

Abro-te a porta do poema; e tu
espreitas para dentro da estrofe, onde
um espelho te espera.

Nuno Júdice

1 de abril de 2016

Nunca são as coisas mais simples que aparecem


il. Diane Duda

Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.
                                                             Nuno Júdice