Hugo von Hofmannsthal, in Livro dos amigos, Assírio&Alvim, 2002, p. 74
Um blogue que se alimenta de e com ilustrações e palavras, sobretudo textos literários.
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17 de maio de 2015
14 de maio de 2015
Ser actor e ser famoso
Quando os mais novos vêm dizer-me: "Eu quero ser actor porque quero ser famoso", acho que há qualquer coisa que já está ali ao contrário de tudo e, portanto, aquela pessoa não me interessa nada.
Luís Miguel Cintra, in Cinco conversas em Almada,
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| Ilustração de Dani Padrón |
"Então por que é que queres ser actor?", podem perguntar vocês. Eu quero ser actor porque me permite brincar, quero dizer, permite-me a construção de um terreno de relação com os outros que tem regras diferentes, que eu invento naquela altura e com aquelas pessoas.
Luís Miguel Cintra, in Cinco conversas em Almada,
O sentido dos mestres, 2015, 1ª ed., pp. 59-60
12 de maio de 2015
Casa da Cerca
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| Ilustração de Elena Odriozola |
Julho chegou a Almada como quase sempre chega: soalheiro e promissor. Na Casa da Cerca, onde as tardes prometem mais do que noutro sítio qualquer, há quem deambule sozinho no pátio da entrada e quem espaireça em grupo no terraço das traseiras. Dali, a vista sobre Lisboa é desafogada e a brisa sopra com mais força. Os olhos encontram descanso no azul do Tejo e na luz da capital, há séculos elogiada.
Ângela Paredlha, "Para uma vida mais verdadeira", in Luís Miguel Cintra, Cinco conversas em Almada,
O sentido dos mestres, 2015, 1ª ed., p. 11
11 de maio de 2015
Dizes-me: tu és mais alguma coisa
Dizes-me: tu és mais alguma coisa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm ideias sobre o mundo?
Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as coisas:
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
E as plantas são plantas só, e não pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,
Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, «é uma pedra»,
Digo da planta, «é uma planta»,
Digo de mim «sou eu».
Alberto Caeiro, in Eu só penso no sol - Poesia de Alberto Caeiro, Alma azul, pp. 13-14
10 de maio de 2015
Muitas vezes Deus prefere
6 de maio de 2015
Vasco Santana e O Fado do Estudante
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| Ilustração de Ana Moreira |
A figura de Vasco Santana, apresentada na primeira pessoa como, de resto, todas as biografias da coleção Chamo-me... da Didáctica Editora, torna esta obra juvenil muito divertida, pois estabelece-se uma verdadeira empatia com o protagonista (narrador autodiegético), apesar de não existir exigência literária...
Porém, é fundamental para os mais jovens conhecerem o ídolo português de A Canção de Lisboa, O Pai Tirano, O Pátio das Cantigas, da comédia e do teatro portugueses em geral e inclui O Fado do Estudante, aqui reproduzido em várias interpretações musicais.
4 de maio de 2015
Eterna juventude
3 de maio de 2015
A mãe não gostou
Declaração
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hei-de declarar.
Mas posso declarar que foi ontem que eu,
abaixo-assinado, declarei que era hoje que
iria declarar o que tinha de declarar.
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E declaro hoje que não sei o que declarar no dia
de hoje enquanto amanhã não chega.
Eu abaixo-assinado declaro que
amanhã terei de declarar tudo o que tenho
de declarar.
Ontem teria declarado e subscrito
o que tinha de declarar.
E amanhã também iria declarar
todas as declarações do mundo se, quando
amanhã chegar, não descobrisse que amanhã
é hoje.
Por isso é que eu, abaixo-assinado,
declaro que não sei declarar hoje, que é o amanhã
de ontem, tudo o que tenho de declarar.
E eu, abaixo-assinado, declaro solenemente
por minha honra que só não declaro nada hoje porque
hoje é o amanhã de ontem,
e também não vou declarar nada amanhã porque
amanhã é o hoje em que irei deixar para depois
de amanhã o que tenho de declarar.
E cumpra-se esta declaração que vou datar
de amanhã, sabendo que só a poderei escrever
depois de amanhã, quando ontem for o amanhã
em que a vou adiar para ontem.
Eu abaixo-assinado declaro que
amanhã terei de declarar tudo o que tenho
de declarar.
Ontem teria declarado e subscrito
o que tinha de declarar.
E amanhã também iria declarar
todas as declarações do mundo se, quando
amanhã chegar, não descobrisse que amanhã
é hoje.
Por isso é que eu, abaixo-assinado,
declaro que não sei declarar hoje, que é o amanhã
de ontem, tudo o que tenho de declarar.
E eu, abaixo-assinado, declaro solenemente
por minha honra que só não declaro nada hoje porque
hoje é o amanhã de ontem,
e também não vou declarar nada amanhã porque
amanhã é o hoje em que irei deixar para depois
de amanhã o que tenho de declarar.
E cumpra-se esta declaração que vou datar
de amanhã, sabendo que só a poderei escrever
depois de amanhã, quando ontem for o amanhã
em que a vou adiar para ontem.
Nuno Júdice, in A Matéria do Poema, D. Quixote, 2008, 1ª ed., pp. 49-50
2 de maio de 2015
Frases mentirosas?
- Você é escritor, verdade?
- Sim - diz Millás intimidado.
- Saberia então dizer-me por que a frase "sou uma frase incorrecta" é correcta, enquanto "sou um frase correcto" é incorrecta?
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| Ilustração de Angela Marchetti |
(...)
- Bom, "sou uma frase incorrecta" é correcta, formalmente falando, porque todos os seus elementos concordam. Outra coisa é que minta acerca de si mesma. Em "sou um frase correcto", ao contrário, há problemas de concordância. "Um" deveria ser "uma" e "correcto" deveria ser "correcta".
- Mas também mente - diz Julia.
- Também mente - aceita Millás.
Juan José Millás, in A mulher louca, Planeta, 2014, 1ª ed., pp. 82-83
29 de abril de 2015
A roupa dos substantivos
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| Ilustração de Rossana Bossù |
...adjectivos são acrescentos ou adornos que pomos ao substantivo para dizer algo dele. O adjectivo é para o substantivo o que a roupa é para um actor. Como os actores vão a muitas festas, a muitos jantares, muitas entregas de prémios, precisam de muitas camisas, de muitos casacos, muitas saias e calças, muitos sapatos. Subiu-lhes a fama à cabeça e não podem vestir o mesmo traje dois dias seguidos. Há substantivos simples, que vão em corpo, mas a maioria gosta de levar por cima um adjectivo.
Juan José Millás, in A mulher louca, Planeta, 2014, 1ª ed., p. 105
28 de abril de 2015
Consultório de frases
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| Ilustração de Dainius Šukys |
Juan José Millás, in A mulher louca, Planeta, 2014, 1ª ed., p. 21
27 de abril de 2015
Microcirurgia das meias
Após pronunciar estas palavras, Mllás medita uns instantes (...). Quanto à imagem da meia, diz que lhe vem à memória o gesto antigo das mães ao cerzi-las com a ajuda daquele misterioso ovo de madeira que havia em todas as casas. O cerzido era uma arte de costura que consistia em consertar um rompimento de tal modo que não se notasse a reparação. (...)
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| Ilustração de Marie Desbons |
O cerzido tinha algo de microcirurgia na medida em que era preciso tapar o buraco unindo os fios soltos da rotura como o cirurgião encaixa os capilares desfiados de uma ferida.
Juan José Millás, in A mulher louca, Planeta, 2014, 1ª ed., p. 73
26 de abril de 2015
A psicose e as meias
A verdade, acrescenta Millás, é que nunca chegou a entender, no sentido mais profundo, em que consistia a psicose, que tanto o atraía e perturbava, embora intuísse que se tratava de um buraco aberto na personalidade como uma malha rota numa meia.
Esse buraco, que era um buraco do eu, devorava tudo o que se acercava das suas bordas num esforço inútil de substituir a ausência de qualidade por toneladas de quantidade.
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| Ilustração de Stela Woo |
Esse buraco, que era um buraco do eu, devorava tudo o que se acercava das suas bordas num esforço inútil de substituir a ausência de qualidade por toneladas de quantidade.
Juan José Millás, in A mulher louca, Planeta, 2014, 1ª ed., p. 73
24 de abril de 2015
Uma menina está perdida no seu século à procura do pai
Que século? Que pai? Que menina?
Esta obra de Gonçalo M. Tavares é uma alegoria à cidade da indiferença: à diferença (Hanna, a menina, sofre de trissomia 21) e ao horror.
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| Ilustração de Paulina Góra (Antosz) |
Paradoxalmente, num hotel os quartos não têm números mas nomes: nomes de campos de concentração, não permitindo o esquecimento nem a indiferença face ao holocausto.
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| Ilustração de Paulina Góra (Antosz) |
Marius encontra a menina perdida. Onde a levará? Encontrará ela o pai? Como terminará esta história?
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| Ilustração de Paulina Góra (Antosz) |
É necessário perdermo-nos e dissolvermo-nos na leitura de Uma menina está perdida no seu século à procura do pai.
Mª Carla Crespo
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23 de abril de 2015
Pesadelo com livros
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| Ilustração de Tony Diterlizzi |
Outro pesadelo.
Vejo o mesmo grupo de adolescentes, com a idade de Hanna (mas a ela não a vi), com catorze, quinze anos, todos com trissomia 21, a deitarem para o fundo de um poço livros em diferentes línguas. Lembro-me perfeitamente de algumas capas, de alguns nomes esquisitos, até de alguns alfabetos absolutamente impenetráveis. As raparigas (a certa altura pareceram-me todas raparigas, com aquela cara semelhante, com saia verde de um uniforme de colégio), as raparigas mandavam para o poço livros em francês, em italiano, em búlgaro, em russo, em inglês, em alemão - e cada livro que chegava lá a baixo, ao fundo do poço, era recebido com o som de uma água enlameada; e eu - que, estranhamente, estava ali, no meio do grupo, a assistir, sem participar, sem fazer nada, aceitando -, eu, então, debruçado sobre o poço, ali estava espantado, era essa a palavra, a ver cada um dos livros primeiro bater com certa força nos pequenos centímetros que ainda restavam de água e, depois, segundo a segundo, a desaparecerem, pelo menos em parte, engolidos pela lama.
Gonçalo M. Tavares, in Uma menina perdida no seu século à procura do pai, Porto Editora, 2014, 1ª ed.,p. 151
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20 de abril de 2015
Contra-natura
19 de abril de 2015
Dom Barómetro e a gulodice
No armazém havia além de mim, do patrão Vasques, e do senhor Soares, que trabalhava como nosso tradutor, o senhor Moreira, o guarda-livros, o senhor Borges, o caixa, os três rapazes, caixeiros de praça, e o moço de recados. Os três rapazes eram o José, o Sérgio e o Vieira, a quem chamávamos o Alfama por morar a Santo Estêvão, e o moço que tinha a graça de António como eu. De quando em quando apareciam os caixeiros-viajantes, o senhor Tomé e o senhor Ernesto, e tínhamos também o gato, o Aladino, constando que fora o senhor Soares quem lhe pusera o nome.
(...)
Embora teoricamente ocupasse o lugar de chefe do tradutor, o senhor Moreira nunca puxava dos galões com ele, nem aliás com ninguém, e apenas censurava a indiferença que o senhor Soares sentia por tudo quanto fosse comida. “Aquilo é uma tristeza”, desabafava o guarda-livros, “o único petisco que lhe passa pelas goelas é uma canja de galinha, e de longe a longe uma postazinha de pescada cozida.” O tradutor parecia não acusar tais brincadeiras, e só muito raramente se divertia a caçoar com o senhor Moreira, alcunhando-o de Dom Barómetro.
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| Ilustração de Jennifer Garant |
De facto não existia quem como ele se preocupasse com as condições atmosféricas, não porque isso lhe desse qualquer abalo no tocante aos dias da semana, mas porque temia que o almoço dominical, festejo em que depositava as suas alegrias de glutão, se lhe tornasse impossível, devido ao mau tempo.
Mário Cláudio, in Boa noite, senhor Soares, D. Quixote, 2008, 2ª ed., pp.13-15
18 de abril de 2015
Piquenique
Não sei como lanço a vista por cima do pessoal que ali acampava, a merendar, ou a bater a sesta, e que nada tinha a ver com o que quer que fosse que respeitasse ao senhor Soares, e dou com o sujeito, ou com o que se assemelhou ser ele porque as lentes dos óculos redondos chispavam na luz, em mangas de camisa, e encostado a uma manta que entalara entre entre as costas e o tronco de uma oliveira. Diante do senhor Soares alapava-se um cavalheiro, um tipo que eu não conhecia identificar porque a sombra lhe cobria o rosto, e entre ambos distinguiam-se duas garrafas e um embrulho aberto com o que julguei serem figos.
(...)
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| Ilustração de Alexander Sokht |
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| Ilustração de Philip Giordano |
O que o acompanhava (...) fora um dia, recordei-me então, ao escritório à procura do amigo, e confiara-me um cartão-de-visita (...) que tinha impresso, "Ricardo Reis", e por baixo "Médico", e ainda, escrito à mão, e a tinta preta, "passou por aqui".
Mário Cláudio, in Boa noite, senhor Soares, D. Quixote, 2008, 2ª ed., pp. 30-31
14 de abril de 2015
Lisboa, aceder a um amanhã
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| Ilustração de 度薇年 |
Lembro-me então daquela Lisboa de cinquenta e dois anos atrás, vista da Graça, ou de São Pedro de Alcântara. Fixo-me nas artérias da Baixa, traçadas a régua e esquadro, e na multidão que se precipita para o Terreiro do Paço, e que se escoa devagar nos barcos que partem para Cacilhas. Está ainda azul o céu, mas paira sobre a cidade um alarme de acabamento, isto como se se houvesse esgotado a esperança que anima as criaturas, e o direito que lhes cabe a aceder a um amanhã.
Mário Cláudio, in Boa noite, senhor Soares, D. Quixote, 2008, 2ª ed., pp.47-48
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