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9 de novembro de 2014

A pomba

Ilustração de Greg Becker

Quando lhe aconteceu isto da pomba, que de um dia para o outro mudou radicalmente a sua existência, já Jonathan Noel estava com mais de cinquenta anos, havia uns bons vinte anos que levava uma vida igual e sem incidentes e nunca lhe teria passado pela cabeça que ainda lhe pudesse vir a acontecer qualquer coisa de importante senão morrer. E dava-se por muito satisfeito com a sua sorte, pois não gostava de acontecimentos e detestava em particular aqueles que lhe abalavam o equilíbrio interior e perturbavam a ordem externa da vida.

Patrick Süskind, in A pomba, Ed. Presença, 2014, 9ª ed.,p.7

8 de novembro de 2014

O doutor queijo

Ilustração de Kristian Adam


Ela apreciou o especialista. O doutor Roquefort era um homem minúsculo, de cabeça rapada e olhos em fenda, como um monge budista. Tinham-lhe dito que era o melhor, porém, a sua figura era tudo menos impressionante. Se ao menos tivesse cabelos brancos, talvez irradiasse mais sabedoria e incutisse mais confiança. Uma dúvida insidiosa instalava-se nela, seria ele mesmo bom? Gostava de confiar, mas o primeiro impacto não era impressionante. Um médico com nome de queijo, era o que ele era.



             Miguel Miranda, "A pantera e o Oftalmologista", in A fome do licantropo e outras históriasPorto Editora, 2014, 1ª ed., p. 95

6 de novembro de 2014

O penetra

- Olha a fila, ó penetra!
- É preciso ter lata!
- Entrar assim de calçadeira, à frente de todos!
- Penetra! Seu penetra!


Ilustração de Ellie Horie
O autocarro arrancou e ele sorriu, o dia começava bem.
Saiu duas paragens adiante, sem pagar bilhete. Aplicou o mesmo golpe mais duas vezes e foi andando, sem gastar uma moeda e passando à frente de todos os cordatos passageiros em espera nas paragens.
- Penetra!


Miguel Miranda, "O Penetra compulsivo", in A fome do licantropo e outras histórias, Porto Editora, 2014, 1ª ed., p. 104 


4 de novembro de 2014

Privacidade

O que é o privado nos nossos dias? 


Uma das involuntárias consequências da revolução informática é ter volatilizado as fronteiras que o separavam do público e ter confundido ambos num happening em que todos somos ao mesmo tempo espectadores e atores, no qual nos mostramos reciprocamente exibindo a nossa vida privada e nos divertimos observando a alheia, num strip tease generalizado em que nada já ficou a salvo da mórbida curiosidade de um público depravado pela idiotice.



Ilustração de Daria Petrilli

O desaparecimento do privado, o facto de ninguém respeitar a intimidade alheia, ela ter-se convertido numa paródia que excita o interesse geral e haver uma indústria informativa que alimenta sem tréguas e sem limites esse voyeurismo universal, é uma manifestação de barbárie. Pois com o desaparecimento do domínio do privado muitas das melhores criações e funções do humano deterioram-se e aviltam-se, começando por tudo aquilo que está subordinado ao cuidado de certas formas, como o erotismo, o amor, a amizade, o pudor, as maneiras, a criação artística, o sagrado e a moral.

Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, pp. 150-151

3 de novembro de 2014

O tamanho da mala

Podemos estar a viajar vida fora com uma mala pequena ou uma mala grande. Não conta o tamanho das malas. Se elas estão cheias, porque são realmente pequenas ou porque nós a tornamos assim, teremos de retirar delas alguma coisa se quisermos colocar outras novas no seu lugar. E acontece passarmos a vida nisso: acumulando, esvaziando, acumulando. 

Ilustração de Wonil Suh

A frugalidade não depende do tamanho da mala. 


Ilustração de Jacek Yerka


O viajante frugal é aquele que tomou a decisão prévia de transportar consigo o essencial, deixando sempre na sua bagagem um espaço disponível.   


José Tolentino Mendonça, in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 
1ª ed., pp. 99-100

2 de novembro de 2014

Os amigos morrem-nos


Os amigos não morrem simplesmente:



morrem-nos, uma força atroz mutila-nos da sua companhia e continuamos a viver com esses vazios entre os ossos.




Luis Sepúlveda, "Jantar com poetas mortos" in A Lâmpada de Aladino e outras histórias para vencer o esquecimento, Porto Editora, 2008, 1ª ed., p. 29

1 de novembro de 2014

O que é a frugalidade?

...a frugalidade não se confunde com a pobreza. 

Ilustração de Abigail Halpin








O que é então a frugalidade? É a escolha do pouco, de viver com pouco, procurando encontrar aí, ou retirar daí, o máximo sentido. 








Ilustração de Marc Potts

A frugalidade desprende-se, distancia-se, ganha consciência crítica, não abdica da sua liberdade. A frugalidade é um estilo. Há uma frase de Henry David Thoreau que a ilumina especialmente. E ela diz: "A riqueza de um homem é proporcional não ao número de bens que ele pode possuir, mas ao número de coisas a que ele pode renunciar".


José Tolentino Mendonça, in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., pp. 98-99

31 de outubro de 2014

Romeu e Julieta

Ilustração de Gabriela Andrade

Romeu da Baviera era duque; Julieta apenas bela. Como muitas vezes, o poder ajoelhou-se frente à beleza; como sempre, a beleza fingiu resistir, mas logo se rendeu.

Gonçalo M. Tavares, A História de Julieta, a santa da Baviera, in Histórias Falsas, Caminho, 2014, 7ª ed., p. 15

28 de outubro de 2014

A Bíblia é para comer

Ilustração de Fabián Rivas

Literalmente, a Bíblia é para comer.


José Tolentino Mendonça, in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., p. 85

25 de outubro de 2014

São piores os homens que os corvos

Ilustração de Debi Hubbs

São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado e já está comido. 


Pe. António Vieira, Sermão de Santo António aos peixes

24 de outubro de 2014

Corvos

Ilustração de Debi Hubbs




Eu gosto de corvos. São pássaros anunciadores, transmitem-me premonições. Já não aprecio homens-corvo, não sei bem porquê. São arautos de desgraça.



Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso, Porto Editora, 2011, 1ª ed., p. 30

23 de outubro de 2014

Cabeça em ovo de avestruz

Ilustração de Victoria Kirdy


O senhor Ruela, o vendedor e putativo dono do estabelecimento, era um homem com cabeça em ovo de avestruz, que falava sem mover os lábios, como um ventríloquo.




Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso, Porto Editora, 2011, 1ª ed., p. 12-13

22 de outubro de 2014

Bilhete de identidade


Ilustração de Patrick Gonzales 

Os dedos da mão fornecem mais informações do que o bilhete de identidade, podendo revelar a idade, a profissão, a saúde ou doença do portador.

Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso, Porto Editora, 2011, 1ª ed., p. 31

O maravilhoso não escurece

Ilustração de Andy Kehoe



Quando a noite chega o maravilhoso não escurece.



Gonçalo M. Tavares, in 1, Relógio d' Água, 20122, 2ª ed., p. 192

21 de outubro de 2014

Arquitecto

Ilustração de Regina Lukk-Toompere 

Depois da arquitectura


           
                Deslocou-se para o invulgar:



fundou um poema


        
Gonçalo M. Tavares, in 1, Relógio d' Água, 20122, 2ª ed., p. 82

20 de outubro de 2014

Dois mundos

Ilustração de Regina Lukk-Toompere



Repara, são dois mundos:

Não é possível atirar água

à matemática.




Gonçalo M. Tavares, in 1, Relógio d' Água, 20122, 2ª ed., p. 73

19 de outubro de 2014

Braille

Ilustração de Keiko Shibata 



Leio o amor no livro
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar

de palavras que se
juntam, como corpos,
no abraço

de cada frase. E chego ao fim 
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.


Nuno Júdice, in Geometria variável, D. Quixote, 2005, 1ª ed., p. 79

16 de outubro de 2014

Gritar a rotina


Ilustração de Fabio Rex

A rotina não basta ao coração do homem.


José Tolentino Mendonça, "Do lado do aprisionamento da vida pela rotina" in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., p. 22

15 de outubro de 2014

Da rotina à surpresa

Ilustração de Julie Paschkis

As rotinas têm um efeito saudável: tornando o quotidiano um encadeado de situações expectáveis, permitem-nos habitar com confiança o tempo. Mas (...) quando tudo se torna óbvio e regulado, deixa de haver lugar para a surpresa. (...) Os nossos olhos sonolentos veem tudo como repetido.

José Tolentino Mendonça, "Do lado do aprisionamento da vida pela rotina" in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., pp. 21-22

14 de outubro de 2014

Catedral de aromas

Ilustração de Dani Torrent

Por mais que isso seja dez mil vezes mais prático, passar pela frutaria do inodoro hipermercado não é a mesma coisa que atravessar a catedral de aromas de um pomar.

José Tolentino Mendonça, "Do lado do excesso de comunicação" in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., p. 23