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20 de dezembro de 2012

Espuma da tarde

Ilustração de Rafal Olbinski

 
A janelinha tinha sido feita para abrir sobre um quintal, demasiado fundo para um salto, mas onde havia um limoeiro. O limoeiro abriu os braços e disse-me vem. Não ouvi mais nada, pois nessa altura já eu lá estava de costas num regaço de folhas, puas e limões. O que me acontecia parecia uma carícia e nem doeu nem sangrou.

 
Lídia Jorge, "Espuma da tarde", in Marido e outros contos



19 de dezembro de 2012

Mulheres

Akzhana Abdalieva



Sem se saber porquê, a percentagem de mulheres belas, até uma certa idade, é superior à dos homens. Há as esguias como bambus, há as doces como se paradas, e há as curvas como estradas de montanha. Cada uma com o seu encanto. É só preciso olhar, nem é preciso descobrir. E depois há as feias. 

                                                                 
Lídia Jorge, "António", in Marido e outros contos, Dom Quixote

Nudez especial

Ilustração de Annette Mangseth

 As mulheres sentem uma nudez especial  na cabeça ensaboada.

Lídia Jorge, "António", in Marido e outros contos, Dom Quixote

16 de dezembro de 2012

Cozinha, metáfora de mobilidade

O antropólogo [Claude Lévi-Strauss] ensina-nos que a cozinha é metáfora da própria existência humana, pois distingue o homem, precisamente esta capacidade de viver na transformação, numa mobilidade que não é só geográfica.

Ilustração de Solenn Larnicol 
Ora a metáfora da cozinha fala da transformação como um benefício.


Tolentino Mendonça, "Pensar Deus a partir do cru e do cozido",
in Nenhum caminho será longo, Para uma teologia da amizade

 

15 de dezembro de 2012

Misturas de criatividade

Ilustração de Solenn Larnicol

A cozinha é o lugar da instabilidade, da procura, da incerteza, das misturas inesperadas, das soluções imprevistas, das receitas adaptadas. A cozinha é o lugar da criatividade e da recomposição. 

Tolentino Mendonça, "Pensar Deus a partir do cru e do cozido",
in Nenhum caminho será longo, Para uma teologia da amizade

13 de dezembro de 2012

Tristeza à esquina de

Ilustração de Olga Ionaytis
Alguém à esquina da tristeza. Vá lá saber-se porque é que um tipo acorda com uma frase assim na cabeça. Talvez queira dizer qualquer coisa, se é que uma frase alguma vez quer dizer o que quer que seja. Quem sabe se não serei  eu quem assim está? Não sei onde fica tal esquina, talvez seja algo que existe só por dentro. Ou talvez, ao fim e ao cabo, a vida seja mais ou menos isso: uma tristeza, à esquina de. Uma frase sem sentido. Ou o sentido a fazer-se frase. Ou o prazer da melancolia, porque a verdade é que se acorda com uma frase assim e logo os violinos começam a tocar na memória...

Manuel Alegre, "City square" in O Quadrado, D. Quixote 

12 de dezembro de 2012

O regresso

Ilustração de Kai Pannen



Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.

Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.


  Manuel António Pina in Como se desenha uma casa

A frase

Uma tristeza canta debaixo de água. Uma tristeza azul, uma tristeza negra. Uma tristeza canta debaixo de água.

Ilustração de Lucile Gomez

Esta é a frase. Eu sou a frase em busca de uma história. Não digo de autor porque estou na cabeça dele sem ele saber porquê.


Manuel Alegre, in O Quadrado, D. Quixote 

10 de dezembro de 2012

Cansada, mas feliz

Ao chegar a Calcutá entrei em Motijhil, um dos bairros mais pobres da cidade. Não levava dinheiro nem tinha para onde ir, mas confiava que Deus me ajudaria. A primeira coisa que fiz foi montar uma escola na rua, num espaço entre barracas. A lama servia-nos de quadro preto. Ia traçando nele as letras do alfabeto bengali para ensinar as crianças a ler e a escrever.

Ilustração de Deirdre Gill

Elas sentavam-se no chão à minha volta, pois não tínhamos nem cadeiras nem mesas...nem nada! Bom, na verdade, tínhamos muito: as crianças tinham um interesse enorme em aprender e eu tinha muita vontade de as ensinar.


Ilustração de Cristina Fuentes
Aquelas que vinham sujas eram lavadas numa tina. Cada dia tinha mais alunos. E depois das aulas ia visitar os doentes.

Carmen Gil, in Teresa de Calcutá, il. Mercè Galí, Didáctica Editora, col. Chamo-me...

Direitos humanos



Ilustração de Joan Louis

Descobri que, como pessoa e como indiano, não tinha quaisquer direitos, ou melhor, descobri que não tinha quaisquer direitos como pessoa porque era indiano.
 Mahatma Gandhi

A árvore de Natal

Ilustração de Eva Melhuish





Joana tinha nove anos e já tinha visto nove vezes a árvore de Natal. Mas era sempre como se fosse a primeira vez.



Sophia de Mello Breyner Andresen, in A Noite de Natal

9 de dezembro de 2012

Conversa no presépio

Da árvore nascia um brilhar maravilhoso que pousava sobre todas as coisas. Era como se o brilho de uma estrela se tivesse aproximado da Terra. Era o Natal. E por isso uma árvore se cobria de luzes e os seus ramos se carregavam de extraordinários frutos em memória da alegria que, numa noite muito antiga, se tinha espalhado sobre a Terra.
Ilustração de David Crispin

E no presépio as figuras de barro, o Menino, a Virgem, São José, a vaca e o burro, pareciam continuar uma doce conversa que jamais tinha sido interrompida. Era uma conversa que se via e não se ouvia.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in A Noite de Natal

O frio brilhava

As velas estavam acesas e a sua luz atravessava o cristal. Em cima da mesa havia coisas maravilhosas e extraordinárias: bolas de vidro, pinhas douradas e aquela planta que tem folhas com picos e bolas encarnadas. Era uma festa.

Ilustração de Anna Koroleva
Era o Natal.

Então Joana foi ao jardim. Porque ela sabia que nas Noites de Natal as estrelas são diferentes.
Abriu a porta e desceu da escada da varanda. Estava muito frio mas o próprio frio brilhava.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in A Noite de Natal

8 de dezembro de 2012

A música das festas

Ilustração de Jessica Piqueras
Nos dias de festa, do fundo das sombras do interior do armário saíam os copos. Saíam claros, transparentes e brilhantes, tilintando no tabuleiro. E para Joana aquele barulho de cristal a tilintar era a música das festas.

Joana deu uma volta à roda da mesa. Os copos já lá estavam, tão frios e luminosos que mais pareciam vindos do interior de uma fonte de montanha do que do fundo de um armário.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in A Noite de Natal



A linha musical do encantamento



Ilustração de Gaëlle Boissonnard
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento   


Sophia, in O Búzio de Cós e outros poemas    

7 de dezembro de 2012

Os amantes sem dinheiro


Ilustração de Joanna Concejo



Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;  
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.



Eugénio de Andrade

6 de dezembro de 2012

Nos teus dedos nasceram horizontes

Ilustração de Tirabosco

Nos teus dedos nasceram horizontes

e aves verdes vieram desvairadas

beber neles julgando serem fontes.



Eugénio de Andrade, in As mãos e os frutos

Quase nada

Ilustração de Kelly Dyson
O amor
é uma ave a tremer
nas mãos duma criança. 
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.

Eugénio de Andrade, in Primeiros Poemas

4 de dezembro de 2012

A escola. A flor. A flor. A escola…

Ilustração de Agnes Keszeg


Ilustração de Marta Álvarez Minguéns



Tudo ia muito bem quando Godofredo entrou na minha aula. Pediu licença e foi falar com D. Cecília Paim. Só sei que ele apontou a flor no copo. Depois saiu. Ela olhou para mim com tristeza.
Quando terminou a aula, me chamou.
- Quero falar uma coisa com você, Zezé. Espere um pouco.
Ficou arrumando a bolsa que não acabava mais. Se via que não estava com vontade nenhuma de me falar e procurava coragem entre as coisas. Afinal se decidiu.
- Godofredo me contou uma coisa muito feia de você, Zezé. É verdade?
Balancei a cabeça, afirmativamente.
- Da flor? É, sim senhora.
- Como é que você faz?
- Levanto mais cedo e passo no jardim da casa do Serginho. Quando o portão está só encostado, eu entro depressa e roubo uma flor. Mas lá tem tanta que nem faz falta.
- Sim, mas isso não é direito. Você não deve fazer mais isso. Isso não é um roubo, mas já é um “furtinho”.
- Não é não, D. Cecília. O mundo não é de Deus? Tudo que tem no mundo não é de Deus? Então as flores são de Deus também…
Ela ficou espantada com a minha lógica.
- Só assim que eu podia, professora. Lá em casa não tem jardim. Flor custa dinheiro… E eu não queria que a mesa da senhora ficasse sempre de copo vazio.
Ela engoliu em seco.
- De vez em quando a senhora não me dá dinheiro para comprar um sonho recheado, não dá?
- Poderia lhe dar todos os dias. Mas você some…
- Eu não podia aceitar todos os dias…
- Por quê?
- Porque tem outros meninos pobres que também não trazem merenda.
Ela tirou o lenço da bolsa e passou disfarçadamente nos olhos.
- A senhora não vê a Corujinha?
- Quem é a Corujinha? 
Ilustração de Roseland
- Aquela pretinha do meu tamanho que a mãe enrola o cabelo dela em coquinhos e amarra com cordão.
- Sei. A Dorotília.
- É, sim, senhora. A Dorotília é mais pobre do que eu. E as outras meninas não gostam de brincar com ela porque é pretinha e pobre de mais. Então ela fica no canto sempre. Eu divido o sonho que a senhora me dá, com ela.
Dessa vez ela ficou com o lenço parado no nariz muito tempo.
- A senhora de vez em quando, em vez de dar para mim, podia dar para ela. A mãe dela lava roupa e tem onze filhos. Todos pequenos ainda. Dindinha, minha avó, todo sábado dá um pouco de feijão e de arroz para ajudar eles. E eu divido o meu sonho porque Mamãe ensinou que a gente deve dividir a pobreza da gente com quem é ainda mais pobre.
As lágrimas estavam descendo.
- Eu não queria fazer a senhora chorar. Eu prometo que não roubo mais flores e vou ser cada vez mais um aluno aplicado.
- Não é isso, Zezé. Venha cá.
Pegou as minhas mãos entre as dela.
- Você vai prometer uma coisa, porque você tem um coração maravilhoso, Zezé.
- Eu prometo, mas não quero enganar a senhora. Eu não tenho um coração maravilhoso. A senhora diz isso porque não me conhece em casa.
- Não tem importância. Pra mim você tem. De agora em diante não quero que você me traga mais flores. Só se você ganhar alguma. Você promete?
- Prometo, sim senhora. E o copo? Vai ficar sempre vazio? 

Ilustração de Dudnik
- Nunca esse copo vai ficar vazio. Quando eu olhar para ele vou sempre enxergar a flor mais linda do mundo. E vou pensar: quem me deu esta flor foi o meu melhor aluno. Está bem?
Agora ela ria. Soltou minhas mãos e falou com doçura.
- Agora pode ir, coração de ouro...
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José Mauro de Vasconcelos in O Meu Pé de Laranja Lima

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