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20 de novembro de 2012

Resiliência

Ilustração de Akzhana Abdalieva





Ontem sobrevivi a uma noite de inverno, depois de um dia que teve o ritmo do conflito __________, do encontro __________, e da espera.


Gabriela Llansol, in O Raio sobre o Lápis

19 de novembro de 2012

Memória

Ilustração de Ana de los Angeles Morra




A matéria da memória é indefinida e insegura e nela, como na matéria da vida (e a vida é provavelmente apenas memória), se confundem acontecimentos e emoções, imagens e conjecturas, cuja origem nem sempre nos é dado com clareza reconhecer e cuja finalidade a maior parte das vezes nos escapa. E, no entanto, é tudo o que temos, memória.


Manuel António Pina, in Os papéis de K.

18 de novembro de 2012

Improviso




Uma rosa depois da neve.

Não sei que fazer


Ilustração de Garance Doré
duma rosa no inverno.

Se não for para arder,

ser rosa no inverno de que serve?


Eugénio de Andrade, in Pequeno formato

Desassossego

Ilustração de Francesca Dafne Vignana
 
 
 
 
Não escrevo para agradar nem para desagradar. Escrevo para desassossegar. É um título que gostaria de ter inventado e foi inventado por Fernando Pessoa - Livro do Desassossego. Gostaria que todos os meus livros fossem considerados livros para o desassossego.

José Saramago

17 de novembro de 2012

Fingir e fingir-se

Ilustração de Lucie Kacrová




...o pior é que morri antes de saber se é o poeta que se finge de homem ou o homem que se finge de poeta, Fingir e fingir-se não é o mesmo...


José Saramago, in O ano da morte de Ricardo Reis

16 de novembro de 2012

Telegrama

Ilustração de Jamsan


Fernando Pessoa faleceu Stop Parto para Glasgow Stop Álvaro de Campos


José Saramago, in O Ano da morte de Ricardo Reis

15 de novembro de 2012





Por vezes quando saímos de cena é que sabemos que papel representámos.
Staninslaw Jerzylec, poeta polaco

Ilustrações de Alice Vilhena

14 de novembro de 2012

Desvegetar


Ilustração de Alice Vilhena


Assim passeio lentamente a minha inconsciência consciente, no meu tronco de árvore do usual. Assim passeio o meu destino que anda, pois eu não ando; o meu tempo que segue, pois eu não sigo. Nem me salva da monotonia senão estes breves comentários que faço a propósito dela.

Contento-me com a minha cela ter vidraças por dentro das grades, e escrevo nos vidros, no pó do necessário, o meu nome em letras grandes, assinatura quotidiana da minha escritura com a morte.Com a morte? Não, nem com a morte. Quem vive como eu não morre: acaba, murcha, desvegeta-se. O lugar onde esteve fica sem ele ali estar, a rua por onde andava fica sem ele lá ser visto, a casa onde morava é habitada por não-ele. É tudo, e chamamos-lhe o nada; mas nem essa tragédia da negação podemos representar com aplauso, pois nem ao certo sabemos se é nada, vegetais da verdade como da vida, pó que tanto está por dentro como por fora das vidraças, netos do Destino e enteados de Deus, que casou com a Noite Eterna quando ela enviuvou do Caos que nos procriou. 

Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

13 de novembro de 2012

Deserto


Ilustração de Ford Smith
 
São horas talvez de eu fazer o único esforço de eu olhar para a minha vida. Vejo-me no meio de um deserto imenso. Digo do que ontem literariamente fui, procuro explicar a mim próprio como cheguei aqui.

Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

12 de novembro de 2012

Viver é ser outro


Ilustração de Asako Eguchi

Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir - é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.

Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção - isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos. Esta madrugada é a primeira do mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo para branco quente pousou assim na face com que a casaria de oeste encara cheia de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que for será outra coisa, e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão.

                                                                             Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

11 de novembro de 2012

Imprevisíveis

Ilustrações de Asako Eguchi
Nós somos imprevisíveis. Às vezes olhamo-nos ao espelho e, mesmo sem dizer, recuperamos aquele verso de Rimbaud, "eu sou um outro". Quem é que me olha no espelho? Olhamos para nós e há uma estranheza de ser que nunca se cura: mas sou assim? que caminho é este? que tempos são estes que me habitam? Somos também um segredo para nós mesmos e temos de aceitar-nos assim. Somos um enigma, uma pergunta e temos de aceitar isso. Caso contrário não teremos paz. Habitaremos sempre a divisão e o conflito. Há, portanto, um momento em que é preciso dizer: "está bem, é assim; eu não explico, eu não concebo, eu não programo, mas é assim, e vou fazer alguma coisa com isso." 

Tolentino Mendonça, "Aceitar o enigma" in Nenhum caminho será longo, Para uma teologia da amizade

10 de novembro de 2012

A delicadeza do mundo (2)

Ilustração de Mozeko
"A delicadeza do mundo chega-nos
através de frases interrompidas
de sementes que nos dispersam
de paralelas pintadas..."

Tolentino Mendonça



A delicadeza do mundo, o belo e o inefável chegam-nos pela arte, pela literatura, pelas palavras conjugadas com sabedoria e sabor inesperado  pelos poetas e escritores, pelos artistas maiores, pelos ilustradores e ensaístas.
O belo e o horrível tornam-se arte e humanizam-nos e, humanizando-nos, divinizam-nos, tornam-nos mais inefáveis, mais densos, mais perto do centro do transcendente que nos engrandece.


PORTEFÓLIO DE LEITURAS tem criado, ao longo deste 1º aniversário que hoje celebramos, um  percurso pela arte literária, divulgando escritores e ilustradores. Porque de um portefólio digital se trata, vamos nele depositando sementes dispersas de poesia e de outras formas de literariedade, já por si eloquentes. Pontualmente, uma reflexão; outras vezes textos não literários, eleitos pela densidade da sua mensagem, como, a título de exemplo, as palavras de Muhammad Yunus, Prémio Nobel da Paz 2006.


Ilustrações de Miyuki
São referências muito usuais os poetas Nuno Júdice, José Tolentino Mendonça, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen, Manuel António Pina, Maria Gabriela Llansol, mas também a prosa de Gonçalo M. Tavares, José Saramago, Hermann Hesse, Tonino Guerra ou Juan José Millás, a par de outros clássicos da literatura portuguesa e universal.

São leituras lidas, leituras amadas, leituras partilhadas. Pleonasticamente.
                                                                                          Maria Carla Crespo