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10 de maio de 2012

Poema

Ilustração de Ford Smith
Se o sol se atravessa no caminho de um homem,
a luz pode empurrá-lo para o sonho. Então, fecha
os olhos; espera que as imagens se apaguem
do seu horizonte; e entra no vazio que a treva
lhe oferece. O sol, porém, continua
a brilhar. E ele insiste em manter os olhos
fechados. Anda, com passos hesitantes, num
caminho de luz; as mãos procuram um apoio
na sombra que não encontra. E quando volta
a abrir os olhos, os sonhos continuam à sua
frente, como se fizessem parte do seu destino.

                                          Nuno Júdice, in A matéria do poema

8 de maio de 2012

O que seria de nós, os velhos...

Ilustração de Antonio Seijas

O que seria de nós, os velhos, se não tivéssemos esse livro ilustrado que é a memória, toda essa riqueza de experiências vividas! Seria uma situação lamentável, seríamos uns miseráveis. Deste modo, porém, somos imensamente ricos e não nos limitamos a arrastar uma carcaça cansada, de encontro ao fim e ao esquecimento; somos guardiães de um tesouro que viverá e resplandecerá enquanto nós próprios respirarmos.

                                                                                                          Hermann Hesse, in Elogio da Velhice

7 de maio de 2012

Os papéis de K.

Quando lemos uma obra, o que nos faz reconhecer que estamos perante uma obra literária? O que nos diz que ou se se trata ou não de literatura ?

Ilustração de Sam Hyuen Kim
Perante Os Papéis de K., de Manuel António Pina, a suspeita começou com a leitura da contra-capa (abstendo-me da irredutibilidade de estar perante o vencedor do Prémio Camões 2011), que anunciava a relação escritor/leitor e a relação ficcional do leitor com o próprio texto e fazia adivinhar uma construção narrativa complexa, para não dizer hábil.

A leitura de tão breves páginas (cerca de 70) foi emocionante, imparável. E surpreendente. Surpreendente pela clareza e fluidez (quase contenção!) da linguagem num processo narrativo que vai desvelando as personagens que se inventam e reinventam. Terá sido, afinal, tudo inventado?

"De qualquer modo, a memória é uma ficção e o passado uma espécie de sonho que nos sonha tanto quanto o sonhamos nós. Mas será que dois homens podem sonhar o mesmo sonho, ou o mesmo sonho sonhá-lo a ambos?" (p. 75).

Sonho, ficção, alucinação, construção... não será isso mesmo a literatura? Construção, sim, pois à aparente simplicidade, ao aparente fluir da escrita subjaz a arquitetura narrativa na construção, no entretecer de apagar e refazer (desfazer?) as personagens e a diegese.

Manuel António Pina, Os Papéis de K., uma questão indubitável de literatura. Para quem gosta de apreciar a arte da escrita. Para ler e reler. E envolver-se.

Mª Carla Crespo

6 de maio de 2012

Mãos de mãe

Ilustração de Annette Mangseth
Noite após noite, a minha mãe vinha aconchegar-me, mesmo quando eu já deixara há muito de ser criança. Tal como outrora, inclinava-se sobre mim, afastava o meu cabelo comprido e beijava-me a testa.

Não me lembro de quando o gesto das suas mãos a afastar o meu cabelo começou a irritar-me. Mas aborrecia-me deveras que ela passasse as mãos ásperas e gastas pelo trabalho sobre a minha pele macia. Uma noite gritei, zangada:

—Não faças mais isso! As tuas mãos são muito ásperas!

A minha mãe não disse nada, mas nunca mais aquele gesto de amor rematou os meus dias. Continuei acordada muito tempo depois de ter proferido aquelas palavras, que agora me perseguiam. Contudo, o orgulho abafou a consciência e não consegui dizer-lhe o quanto lamentava tê-las proferido.
Os anos foram passando, sem que a memória daquela noite se apagasse. O incidente, que ora parecia recente ora se afigurava longínquo, nunca me saiu da mente e eu comecei a ter saudades daquele gesto que reprimira.

Hoje a minha mãe já ultrapassou os setenta anos e as mãos que outrora achei tão ásperas ainda trabalham para mim e para os meus. É ela que tem sido a nossa médica, ao procurar no armário o remédio para aliviar uma dor de estômago ou de um joelho ferido dos mais novos. É ela que faz o melhor frango frito do mundo, que tira as nódoas das calças de ganga como eu nunca consegui, que ainda insiste em servir gelado a qualquer hora do dia ou da noite. Ao longo dos anos, as mãos da minha mãe trabalharam durante horas incontáveis, muito antes de haver máquinas de lavar e tecidos resistentes que não engelham.

Agora, os meus filhos já são crescidos e independentes e o meu pai já faleceu. Em ocasiões especiais, vou passar a noite com ela.

E foi assim que, numa véspera do Dia de Ação de Graças, quando eu começava a adormecer no quarto da minha infância, senti uma mão conhecida, que passava, hesitante, pelo meu rosto, para afastar o cabelo da minha testa. Quando um beijo, sempre igualmente gentil, pousou no meu sobrolho, recordei, pela milésima vez, a noite em que a minha voz jovem e ríspida soara indignada:
Il. Annette Mangseth (pormenor)
—Não faças mais isso. As tuas mãos são muito ásperas!

Então, segurando a mão da minha mãe, disse-lhe o quanto lamentava aquela noite. Pensei que, como eu, ela se lembrasse... Mas a minha mãe não sabia do que eu estava a falar, pois há muito que tinha esquecido e perdoado.

Naquela noite, adormeci profundamente grata pela presença da minha mãe e pelo carinho das suas mãos.

E a culpa que eu tinha carregado durante tantos anos desvaneceu-se.

Louisa Godissart McQuillen
Jack Canfield, Mark Victor Hansen
A Second Chicken Soup for the Woman’s Soul
HCIbooks, Deerfield Beach, 1998
(Tradução e adaptação)

Poema à mãe


Ilustração de Sam Hyuen Kim
No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
 

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
       Era uma vez uma princesa
      no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.       
Ilustração de Nichole Lillian


                                  Eugénio de Andrade, in Os Amantes Sem Dinheiro

5 de maio de 2012

Da mãe à explosão da flor

Ilustração de Cececila Webber

Era como se o tivessem exposto nu
na esperança de que o sol o esfolasse
ou a chuva lavasse aquela mancha
vinda das trevas do ventre materno,
das entranhas de todas as mães
de sua mãe, secretamente, até explodir
e ser flor aberta no seu corpo.

                                            Eugénio de Andrade, in Matéria Solar

4 de maio de 2012

Sesimbra

Ilustração de Fuco Ueda



Primeiro a mão, ou antes, o mar,
só depois a rosa, a dança do ar.

Eugénio de Andrade

2 de maio de 2012

Deus escreve direito


Ilustração de Luís Silva
Deus escreve direito por linhas tortas
E a vida não vive em linha recta
Em cada célula do homem estão inscritas
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas ao espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porém em cada célula desde o início
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens que ser real
Por isso não percas nunca o teu fervor mais austero
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é teu sol tua luz teu alimento

                                                Sophia de Mello Breyner Andresen

1 de maio de 2012

Primavera

Ilustração de Lorena Alvarez
Primavera que Maio viu passar
Num bosque de bailados e segredos
Embalando no anseio dos teus dedos
Aquela misteriosa maravilha
Que à transparência das paisagens brilha.

                      
              Sophia de Mello Breyner Andresen



30 de abril de 2012

O mistério de ser pessoa

Ilustração de Margarita Sikorskaia


Que misteriosa é esta coisa de se ser uma “pessoa”. (…) Como é que estabelecemos uma relação com alguém? Que é que define esse alguém? (…) Porque uma pessoa não é o feitio do corpo, a face, o modo de falar, de gesticular, de realizar toda a infinita maneira de se manifestar. (…) A última e definitiva realidade dela, aquilo dela com que estabelecemos as nossas relações é o indizível dela, que é aquilo para que falamos, que sentimos que ela é, a indefinível presença que está nela, o “espírito” que isso anima…
                                                                                                                                         


Vergílio Ferreira, in Conta-Corrente III,   pp. 218-219

28 de abril de 2012

Dança

Ilustração de Christiane Vleugels


Quem como eu em silêncio tece
Bailados, jardins e harmonias?
Quem como eu se perde e se dispersa
Nas coisas e nos dias?



Como uma flor incerta entre os teus dedos
Há harmonia de um bailar sem fim,
 E tens o silêncio indizível dum jardim
Invadido de luar e de segredos.



Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética I

27 de abril de 2012

As casas

Ilustração de Joana Concejo
As casas habitadas são belas 
se parecem ainda uma casa vazia 
sem a pretensão de ocupá-las 
tornam-se ténues disposições 
os sinais da nossa presença: 
um livro 
a roupa que chegou da lavandaria 
por arrumar em cima da cama 
o modo como toda a tarde a luz foi 
entregue ao seu silêncio 

Em certos dias, nem sabemos porquê 
sentimo-nos estranhamente perto 
daquelas coisas que buscamos muito 
e continuam, no entanto, perdidas 
dentro da nossa casa 


José Tolentino Mendonça

26 de abril de 2012

O fio de um cabelo

 
Abandono a casa o horto o lugar à mesa
o casaco de que gostava, sobre o leito dobrado
esta verdade quase banal
que toda a vida fui

Não abro a porta quando batem
(às vezes batiam só por engano)
não avalio o balanço das certezas
o que separa uma forma da outra
sempre me escapou

Ontem começava a clarear
o ar frio que vinha dos campos
julguei-o de passagem e afinal
era um segredo que meu corpo
de uma vez por todas contava 
ao meu corpo

Mas quando tombei sobre a terra
perdido como o fio de um cabelo
(aqueles que primeiro caem
da cabeça de um rapaz
e por não serem notados
são mais perdidos ainda)
estavas junto de mim

Lançaste ao fogo cidades
 afogaste os exércitos
no vermelho mar da sua ira
hipotecaste terras tão preciosas
para estares junto de mim

Tolentino Mendonça
 
Ilustracão de Noemí Villamuza
 

25 de abril de 2012

E alegre se fez triste


Ilustração de Mitsuru Watanabe
Aquela clara madrugada que
Viu lágrimas correrem no teu rosto
E alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno Agosto

Ela só viu meus dedos nos teus dedos
Meu nome no teu nome e demorados
Viu nossos olhos juntos nos segredos
Que em silêncio dissemos separados

A clara madrugada em que parti
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
Por onde o automóvel se afastava

E viu que a pátria estava toda em ti
E ouviu dizer adeus essa palavra
Que fez tão triste a clara madrugada

Manuel Alegre, in O Canto e as Armas




Liberté



Sur mes cahiers d'écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable de neige
J'écris ton nom

Sur les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J'écris ton nom

      
Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J'écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts

Sur l'écho de mon enfance
J'écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J'écris ton nom

Sur tous mes chiffons d'azur
Sur l'étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J'écris ton nom

Sur les champs sur l'horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J'écris ton nom

Sur chaque bouffée d'aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J'écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l'orage
Sur la pluie épaisse et fade
J'écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J'écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J'écris ton nom

Sur la lampe qui s'allume
Sur la lampe qui s'éteint
Sur mes maisons réunies
J'écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J'écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J'écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J'écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J'écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attendries
Bien au-dessus du silence
J'écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J'écris ton nom

Sur l'absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J'écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l'espoir sans souvenir
J'écris ton nom
Ilustração de Inna Panesenko

Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer






Paul Eluard, in Poésies et vérités, Ed. de Minuit, 1942

24 de abril de 2012

O silêncio

Ilustração de Laimonas Smergelis
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

                                  
                                                              Eugénio de Andrade

23 de abril de 2012

Poesia discreta

Ilustração de Kaatje Vermeire
Onde a poesia se exibe como um espectáculo espectacular
não é poesia
onde a audácia do poema não é única
não é poesia
onde a poesia não é inocência de natureza fluvial
não é poesia
onde a poesia não é escandalosamente pura
não é poesia
onde a poesia não é filha do deserto nem da sede
não é poesia
onde a poesia não é presença viva que nasce da solidão e da ausência
não é poesia
onde a poesia não se oferece no seu abandono
não é poesia
onde a poesia não é poesia
não é poesia
António Ramos Rosa, in O Sol é Todo o Espaço, 2002

Sonhos dos livros


O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas - longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar

a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor
à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
Ilustração de Julia Humpfer
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. Às vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio - nada

aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,
à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.

Maria do Rosário Pedreira, in A Casa e o Cheiro dos Livros

A casa onde às vezes regresso é tão distante

Ilustração de Limeunhee
A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado do meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te 
o coração


Tolentino Mendonça, A que distância deixaste o coração

22 de abril de 2012

Sem ti

Ilustração de Sonja Dimovska

E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.

Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.



Eugénio de Andrade