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15 de abril de 2012

Amendoeira em flor

Van Gogh, Amendoeira em flor


Um dia sentou-se à secretária e abriu o caderno de capa dura (ramos de amendoeira e céu de um azul único, pormenor de um quadro de Van Gogh) que comprara anos antes em Amesterdão.

Ana Teresa Pereira, in A Pantera (2011:84)

Escrita indefinível

Ilustração de Graham Franciose


De vez em quando distraía-se com a beleza profunda do lugar, e com qualquer coisa de indefinível, quase perigoso, que pairava nas águas, mas isso era parte da sua escrita.
O crepúsculo estava a chegar e os pássaros tinham ficado silenciosos e uma neblina leve formava-se sobre as águas, entre os juncos. Kate ouviu o som de um ramo a partir-se e voltou-se bruscamente, embora soubesse que só podia ser ele.

Ana Teresa Pereira, in A Pantera (2011:77)

14 de abril de 2012

Medo da escrita

Ilustração de Liu Ye


E na mala levava os seus notebooks, o seu livro. Queria começar a escrevê-lo, e ao mesmo tempo tinha um medo enorme de o fazer.


Ana Teresa Pereira, in A Pantera (2011:83)

13 de abril de 2012

Justiça e poder maquiavélico

Ilustração de Marie Desbons
Uma mulher processa um homem em tribunal por difamação de carácter, alegando que lhe chamou porca. O homem é considerado culpado e obrigado a pagar-lhe uma indemnização. Após o julgamento, o homem pergunta ao juíz:

- Isto significa que nunca mais poderei chamar porca à senhora Harding?
- Correcto - responde o juíz.
- E isso  significa que não posso chamar senhora Harding a uma porca?
- Não - diz o juíz -, o senhor é livre de chamar  senhora Harding a uma porca. Não é crime.
O homem olha a senhora Harding nos olhos e diz:
- Boa tarde, senhora Harding.


Thomas Cathcart e Daniel Klein, (2007: 85), in Platão e um Ornitorrinco entram num bar...Filosofia com humor

12 de abril de 2012

Escuto


Ilustração de Violetno
Escuto mas não sei
se o que oiço é silêncio
ou Deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
o ressoar das planícies do vazio
ou a consciência atenta
que nos confins do universo
me decifra e fita.

Apenas sei que caminho como quem
é olhado, amado e conhecido
e por isso em cada gesto ponho
solenidade e risco.

  Sophia de Mello Breyner Andresen

Rapariga descalça

Ilustração de Mariana Kalacheva
Chove. Uma rapariga desce a rua.
Os seus pés descalços são formosos.
São formosos e leves: o corpo alto
parte dali, e nunca se desprende.

A chuva em abril tem o sabor do sol:
cada gota recente canta na folhagem.
O dia é um jogo inocente de luzes,
de crianças ou beijos, de fragatas.

Uma gaivota passa nos meus olhos.
E a rapariga – os seus formosos pés –
canta, corre, voa, é brisa, ao ver
o mar tão próximo e tão branco.

Eugénio de Andrade

Descalça vai para a fonte


Ilustração de David Galchutt


Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.


Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.




Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.
                                                                                                                          
                                                                  
                                                                                 Luís de Camões

11 de abril de 2012

Coração habitado

Ilustração de Mariana Kalacheva
Aqui estão as mãos.
São os mais belos sinais da terra.
Os anjos nascem aqui:
frescos, matinais, quase de orvalho,
de coração alegre e povoado.

Ponho nelas a minha boca,
respiro o sangue, o seu rumor branco,
aqueço-as por dentro, abandonadas
nas minhas, as pequenas mãos do mundo.

Alguns pensam que são as mãos de deus
— eu sei que são as mãos de um homem,
trémulas barcaças onde a água,
a tristeza e as quatro estações
penetram, indiferentemente.

Não lhes toquem: são amor e bondade.
Mais ainda: cheiram a madressilva.
São o primeiro homem, a primeira mulher.

E amanhece.



Eugénio de Andrade

10 de abril de 2012

Um amigo...


Ilustração de Laimonas Smergelis




...é o lugar da terra
onde as maçãs brancas são mais doces.


Eugénio de Andrade, in "Dissonâncias"

O amor afasta o nevoeiro




Tom fez um gesto, como se afastasse o nevoeiro do cabelo dela.


Ana Teresa Pereira, in A Pantera (2011:53)

9 de abril de 2012

Gratuidade


Ilustração de Laimonas Smergelis


O amor e o espanto, o riso e o dia, a alegria e a dança são sem porquê.



Tolentino Mendonça

8 de abril de 2012

Tudo é canto!

Ilustração de Laimonas Smergelis


A palavra nasceu:
nos lábios cintila.

Carícia ou aroma,
mal poisa nos dedos.

De ramo em ramo voa,
na luz se derrama.

A morte não existe:
tudo é canto e chama.

Eugénio de Andrade, "Metamorfoses da palavra"

Parafuso no vento

Primeiro o menino viu uma estrela
pousada nas pétalas da noite
E foi contar para a turma.
A turma falou que o menino zoroava.

Logo o menino contou que viu o dia
parado em cima de uma lata
Igual que um pássaro pousado sobre uma pedra.
Ele disse: Dava a impressão que a lata amparava o dia.
A turma caçoou.
Mas o menino começou a apertar parafuso no vento.

A turma falou: Mas como você pode apertar
parafuso no vento
Se o vento nem tem organismo.
Mas o menino afirmou que o vento tinha organismo
E continuou a apertar parafuso no vento.

                                                                          
Manoel de Barros, "O vidente" (poeta brasileiro)


Ilustrações de Laimonas Smergelis
Por vezes não entendemos as metáforas.

É preciso  olhos novos, novos sons, para descobrir como a esperança mora por detrás de um gesto: o de um menino que continua a acreditar que é possível “apertar parafuso no vento”. Com persistência. Com esperança. Com gesto renovado. Eis a Páscoa.

A noite anuncia o dia

Ilustração de Laimonas Smergelis
De palavra em palavra
a noite sobe
aos ramos mais altos

e canta o êxtase do dia.


Eugénio de Andrade

7 de abril de 2012

Ah, um dia...

Ilustração de Laimonas Smergelis


Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.
                                     
                                              Eugénio de Andrade, in Metamorfoses da casa

6 de abril de 2012

O baile das sombras


Ilustração de Laimonas Smergelis
O pior é ter atravessado a vida sem naufrágios, isto é, ter permanecido à superfície das coisas, ter dançado o baile das sombras perdidos na inconsistência, ter ficado aprisionados no pântano do "diz-que-diz", das aparências, dos lugares comuns, e não ter sido jamais precipitado, não ter ido jamais até ao fim, até ao fundo, de uma dimensão profunda de si e das relações.


Christiane, Singer, Do bom uso das crises, apud Tolentino Mendonça, op.cit.

Construção da confiança


Ilustração de Laimonas Smergelis
O caminho crente não é o caminho da construção de uma certeza, mas é o caminho da construção de uma confiança, e isto são coisas muito diferentes.

José Tolentino Mendonça, As crises são grandes mestres -
 
Para uma teologia da crise

5 de abril de 2012

Ilustração de Laimonas Smergelis

A poesia é o perde / ganha, e nesta perda inscreve-se a possibilidade surpreendente, inesperada, não óbvia, não programada, não prevista, não estabelecida, mas é tantas vezes a porta (a única porta) por onde o imprevisto de Deus pode entrar na nossa história.


José Tolentino Mendonça, As crises são grandes mestres -
Para uma teologia da crise

Urgentemente

Ilustração de Laimonas Smergelis

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade

Frente a frente


Ilustração de Nerida de Jong
Nada podeis contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco.



 
Eugénio de Andrade