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7 de abril de 2013

O poema


Ilustrações de Kristina Swarner


O poema me levará no tempo
Quando eu já não for a habitação do tempo
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)




















Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

6 de abril de 2013

Frutos a voar

Ilustração de Afonso Cruz



O meu irmão corrigiu-me enquanto eu apontava  
para a árvore: não são frutos a voar,
são pássaros.



Afonso Cruz, "13 de Julho" in O livro do Ano

3 de abril de 2013

O milagre da amizade

Ilustrações de 
Jimmy Liao












A amizade não se procura, não se imagina, não se deseja; exercita-se...

A amizade não se deixa afastar da realidade, tal como o belo. E o milagre consiste, simplesmente, no facto de que ela existe.


Simone Weil, in A gravidade e a graça

2 de abril de 2013

Deserto


Às vezes, trago um deserto para casa. 

É quando me sinto sozinha.

Afonso Cruz, "14 de Julho" in O livro do Ano



Ilustrações de Laimonas Smergelis 


O meu irmão diz que é muito fácil fazer    
um oásis num deserto.



Basta juntar água.


Afonso Cruz, "15 de Julho" in O livro do Ano





31 de março de 2013

Reconheci tua presença

Ilustração de Laimonas Smergelis


Pela flor pelo vento pelo fogo
Pela estrela da noite tão límpida e serena
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia - por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci tua presença incerta
Tua presença fantástica e liberta


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Felicidade", in Livro Sexto 

30 de março de 2013

Caminho para a Páscoa


Ilustração de Laimonas Smergelis

Sozinha caminhei no labirinto


Aproximei meu rosto do silêncio e da treva 

Para buscar a luz dum dia limpo

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Labirinto" in Livro Sexto

29 de março de 2013

Eis-me

Ilustração de Laimonas Smergelis


Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto 

28 de março de 2013

Amar-se a si mesmo

Ilustração de Laimonas Smergelis

Não é porque Deus nos ama que nós devemos amá-Lo. É porque Deus nos ama que nos devemos amar. Como é possível amar-se a si mesmo sem este motivo?


O amor a si mesmo é impossível ao homem a não ser através deste subterfúgio.


Simone Weil, in A gravidade e a graça

Implicação humana

Ilustração de Laimonas Smergelis 

Aquele que nos criou sem nós não nos salvará sem nós.


Santo Agostinho

27 de março de 2013

A existência de Deus

Ilustração de Laimonas Smergelis 

Se amarmos Deus pensando que não existe, ele manifestará a sua existência.


Simone Weil, in A gravidade e a graça

26 de março de 2013

O milagre da vida

Ilustração de Moony Khoa Le


Sou contra a dessacralização das coisas e das pessoas. Pelo contrário, acredito que o milagre da vida continua a ser sagrado. O milagre é a explicação inocente do mistério real que habita o homem, do poder que nele se dissimula. Não se pode morrer inculto, profano. Se não procuramos saber por que viemos a este mundo, qual o sentido superior da nossa existência na Terra, o que nos resta é esta sociedade desencantada, ignorante e materialista.


Rui Chafes, "O perfume das buganvílias 17" , in Entre o céu e a terra, Documenta, 2012





24 de março de 2013

Alimentar-se de luz

Só a privação faz sentir a necessidade. E, em caso de privação, o homem não pode impedir-se de se voltar para não importa o quê de comestível. 
Só há um remédio para isto: uma clorofila que permita alimentar-se de luz.

Ilustração de Mike Worral
Não julgar. Todos os erros são semelhantes. Existe apenas um erro: não possuir a capacidade de se alimentar da luz. Porque, estando esta capacidade anulada, todos os erros são possíveis.

                                                                                                          Simone Weil, in A gravidade e a graça

Ovos de coelho

Ilustração de Oxana Zaika

Não, disse o meu irmão. Quem põe ovos de chocolate são os coelhos da Páscoa, não são as galinhas de chocolate.



Evidentemente.




Afonso Cruz, "7 de Abril", in O livro do ano 

23 de março de 2013

Acreditar que é aquilo


Ilustração de Sanuel Ribeyron

Uma mulher muito bonita que olha a sua imagem ao espelho pode muito bem acreditar que é aquilo. Uma mulher feia sabe que não é aquilo.

Simone Weil, in A gravidade e a graça

22 de março de 2013

Carregar primaveras

Ilustração de Isabel Hojas
Como é que as andorinhas - tão pequenas - podem carregar Primaveras tão grandes?

São como as formigas, disse-me a minha mãe.

Afonso Cruz, "30 de Março", in O livro do ano

21 de março de 2013

Poética

Ilustração de Amanda Cass

Quero que o meu poema fale de barcos e de azul, fale
do mar e do corpo que o procura, fale de pássaros e
do céu em que habitam. Quero um poema puro, limpo
do lixo das coisas banais, das contaminações de quem
só olha para o chão; um poema onde o sublime nos
toque, e o poético seja a palavra plena. É este poema
que escrevo na página branca com a parede que
acabou por ser caiada,com as suas imperfeições
apagadas pela luz do dia, e um reflexo de sol
a gritar pela vida. E quero que este poema desça
às caves onde a miséria se acumula, aos bancos onde
dormem os que não têm tecto nem esperança,
às mesas sujas dos restos da madrugada, às
esquinas onde a mulher da noite espera o último
cliente, ao desespero dos que não sabem para onde
fugir quando a morte lhes bate à porta. E canto
a beleza que sobrevive às frases comuns, às
palavras sujas pelo quotidiano dos medíocres,
aos versos deslavados de quem nunca ouviu
o grito do anjo. E digo isto para que fique, no
poema, como a pedra esculpida por um fogo divino.

Nuno Júdice, in A matéria do poema

Primavera

Ilustração de Juri Romanov




Fiquei à janela a ver a noite
deitar os pássaros nos ninhos. 


Afonso Cruz, "21 de Março" in O livro do Ano

20 de março de 2013

Anunciação da primavera


Ilustração de Marie Cardouat
São as primeiras frésias do ano:

vieram da Holanda 

para que a primavera entrasse 

em janeiro pela casa dentro. 

Com o seu aroma e o vento solar 

farei o lume,

farei o lume onde aquecer as mãos 

e de chama em chama regressar 

às oliveiras do sul lentas e claras, 

ao azul estendido nas pedras nuas 

da Cantareira, 

aos pardais ardendo nos ramos 

do crepúsculo com a luz derradeira.


Eugénio de Andrade, in Os lugares do lume

18 de março de 2013

Migalhas de palavras

Ilustração de Afonso Cruz



Gosto de atirar palavras aos pombos.



Apesar de eles preferirem migalhas.



Afonso Cruz, "30 de Junho", in O livro do ano

16 de março de 2013

Não chames ao mundo morada

Ilustracão de LooKarna

Não chames ao mundo morada, não lhe dês um nome 
pois falhas a tua Primavera
as sugestões atmosféricas tornam as paisagens equívocas
e nunca chegamos a perceber
como avança uma história
ou uma tempestade

Diante da janela iluminada
acredita apenas na duração
do amor

José Tolentino Mendonça