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26 de fevereiro de 2012

Agora as palavras

Ilustração de Salvia
Obedecem-me agora muito menos,
As palavras. A propósito
de nada resmungam, não fazem
caso do que lhes digo,
não respeitam a minha idade.
Provavelmente fartaram-se de rédea,
Não me perdoam
a mão rigorosa, a indiferença
pelo fogo de artifício.
Eu gosto delas, nunca tive outra
paixão. E elas durante muitos anos
também gostaram de mim: dançavam
à minha roda quando as encontrava.

Eugénio de Andrade, in O Sal da Língua

25 de fevereiro de 2012

Para um amigo tenho sempre um relógio


Ilustração de Aki
Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa, in Viagem através duma Nebulosa, 1960

A festa do silêncio

Ilustração de Gabriela Herrera

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.




Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não supresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Ilustração de Alexander Grishkevich


Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.



António Ramos Rosa, in Volante Verde

21 de fevereiro de 2012

Do conto à realidade

"Argine", de Julia Simeón, consubstancia o pensamento de Bachelard de que se sonha antes de se compreender. É a passagem do conto, do sonho à realidade. Um filme de animação muito terno.





20 de fevereiro de 2012

O ornitorrinco


Ilustração de Bobby Chiu & Kei Acedera
Umberto Eco, na obra Kant e o ornitorrinco, analisa o problema das categorias de interpretação a partir dos juízos teorizados pelo filósofo alemão, que se depara com "um animal que tem um pouco de toupeira, um pouco de lontra, um pouco de pato, um pouco de castor. É um "ornitorrinco", mas ele não o sabe".

É este o exemplo que Granieri (2006) dá, em Geração Blogue, ao explicar que a internet e os blogues em particular nos colocam perante "o problema do ornitorrinco", que nos obriga a "readaptar continuamente as nossas categorias de interpretação".

Ilustração de António João Santos
e João Rodrigues
A experiência de recém-bloguista, em Portefólio de Leituras, foi moldando também as minhas categorias de interpretação do mundo tecnológico. Várias ferramentas aqui têm tido expressão, ao longo de cerca de 3 meses e mais de 2000 cliques!

Ultrapassado o medo (quase pânico!) de manejar tanto inaudito artefacto tecnológico, tornei-me sua aliada. 

Na verdade, tentei responder a um repto. O desafio de partida - a que não podia escapar! - tornou-se um prazer quotidiano, quase um vício, na vontade de me superar e de ultrapassar os constrangimentos e desaires informáticos que sempre vão surgindo.


Ilustração de Sam Hyuen Kim

Deste abraço (ao blogue, ao Popplet, ao Slideshare, ao Facebook, à incorporação de vídeos, etc.) fica um rasto. Um rasto com chama de futuro.

O Portefólio de Leituras vai continuar, com os seus amáveis e fiéis seguidores e o recurso inestimável a Pinzellades al món, blogue de ilustradores de livros internacionais, que na sua omnipresença tem procurado criar um fio condutor ao longo deste diário digital sobre livros e leituras!

19 de fevereiro de 2012

A opulência rota


Ilustração de Jacqui Faye

Elegância necessita-se, a aparência é essencial e criar uma imagem credível, que fica bem, que impressiona, que tem impacto e nos faz passar por pessoas admiráveis, com dinheiro, bem falantes e bem posicionadas socialmente é o objetivo da farsa social em que nos envolvemos.


Ilustração de Carl Cneut




Em cada época, porém, ressurgem vozes que gritam; espreitam os bastidores da opulência visível e desvendam sótãos degradados; voltam do avesso os fatos dos fidalgos e descobrem os bolsos rotos; coscuvilham os dividendos dos milionários e encontram onzeneiros usurários, a viver à custa do povo, do seu suor e miséria.

Ilustração de Sonya Wimmer


O teatro vicentino, tal como as suas personagens-tipo, é universal e intemporal. O cómico serve a crítica social. A fazer rir, ridiculariza-se e moraliza-se a sociedade: a pelintrice, as conveniências, a preguiça apaixonada por um marido rico, a fidalguia com os sapatos rotos e tantos e tantos outros tipos sociais e psicológicos a saírem de baixo do guarda-roupa. 

Eis uma síntese esquemática da crítica vicentina. Qualquer transposição para a atualidade é um exercício de lucidez!


18 de fevereiro de 2012

Mestre Gil e o Carnaval



Carnaval, de Simona Valentino

Gil Vicente foi mestre e ímpar na crítica a partir do ridículo e do burlesco. Provocando o riso, criticava as práticas, os hábitos, a moral vigente, os usos e costumes: "ridendo castigat mores".

Ler ou reler Mestre Gil é torná-lo atual neste Carnaval. Os paralelismos podem surpreender-nos!...



14 de fevereiro de 2012

A verdade do amor

Ilustração de Lauraballa
Não conheço outra verdade nesta terra
tão certa como a que diz o amor,
e que no peito o coração encerra
quanto mais o faz bater o calor.

Nuno Júdice, Geometria Variável

O que é o amor

Ilustração de Jiri Borski

Pergunto-te o que é o amor? E tu
dizes-me que o amor é perguntar-se por ele, e é
a dúvida que entra nessa pergunta"

Nuno Júdice, Cartografia de Emoções

Medir a voz do amor

Ilustração de Beatrice Alemagna
Há dias e acontecimentos que despertam as palavras, num sopro anímico, ao encontro de realidades indizíveis, inexprimíveis como o amor.

Alguns ousam deixar-se encaminhar, suster pelo fulgor de um arrebatamento de paixão ou íntima e nobre expressão de amor. Escrevem, escrevinham, ditam o que o coração pressente e as palavras leem.

Poesia, porém, só nos lábios dos poetas... Só eles sabem medir a voz do amor...

Maria Carla Crespo

12 de fevereiro de 2012

TIC e Literatura Portuguesa

Como apresentar projetos pessoais de literatura? Como traduzir o gosto pela pesquisa, o prazer da procura, do processo e do resultado? Como promover engenho e arte, num processo construtivo, em portefólio?
Autopsicanálise, de Nigel Buchanan
Esta reflexão tem por base bibliografia na área das TIC, mas aplica-se sobretudo à prática pedagógica em  Literatura Portuguesa, disciplina de opção em escolas que promovem as humanidades. Este esquema é, pois, quase um exercício de autopsicanálise, realizado no Popplet.

11 de fevereiro de 2012

Cenário com os pés de fora

Neve, de Virginia Lee
Deitamo-nos com a cama por fazer.
Uma pilha de blusas cai. Chão de verão.
Amor à tardinha com a vida desarrumada,
as coisas a meio. Até o silêncio está desarrumado.
Gosto deste cenário.
Há nele uma verdade que nem mesmo sei.
O meu quarto antigo sempre em desalinho
com os livros no chão ao pé da cama. Sentir
que a vida não é uma coisa útil e a horas,
e tu menos ainda, sem dobra no lençol
e os pés de fora. Foi isto que quis
na minha vida. Sem buracos de ozono,
sem buracos de fome ou de balas
atravessando os lençóis do mundo.

 Rosa Alice Branco

9 de fevereiro de 2012

A janela

Biblioteca, de Mihay Bodo

Uma das janelas de Calvino, a com melhor vista para a rua, era tapada por duas cortinas que, no meio, quando se juntavam, podiam ser abotoadas. Uma das cortinas, a do lado direito, tinha botões e a outra, as respectivas casas.

Calvino, para espreitar por essa janela, tinha primeiro de desabotoar os sete botões, um a um. Depois sim, afastava com as mãos as cortinas e podia olhar, observar o mundo. No fim, depois de ver, puxava as cortinas para a frente da janela, e fechava cada um dos botões. Era uma janela de abotoar. (...)

Daquela janela o mundo não era igual.
Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Calvino

4 de fevereiro de 2012

Para que poema e vida coincidam


Inverno, de Alexander Grishkevich
Use o poema para elaborar uma estratégia

de sobrevivência no mapa da sua vida. Recorra
aos dispositivos da imagem, sabendo que
ela lhe dará um acesso rápido aos recursos
da sua alma. Evite os atolamentos
da tristeza, e acenda a luz que lhe irá trazer
uma futura manhã quando o seu tempo
se estiver a esgotar. Se precisar de
substituir os sentimentos cansados
da existência, reinstale o desejo
no painel do corpo, e imprima os sentidos
em cada nova palavra. Não precisa
de dominar todos os requisitos do sistema:
limite-se a avançar pelo visor da memória,
procurando a ajuda que lhe permita sair
do bloqueio. Escolha uma superfície
plana: e deslize o seu olhar pelo
estuário da estrofe, para que ele empurre
a corrente das emoções até à foz. Verifique
então se todas as opções estão disponíveis: e
descubra a data e a hora em que o sonho
se converte em realidade, para que poema
e vida coincidam.

Nuno Júdice, in Guia de Conceitos Básicos

28 de janeiro de 2012

O indizível

Ilustração de Vladimir Olenberg

Não é fácil anunciar a partida de alguém que amamos. Só os poetas sabem traduzir o indizível e são capazes de nos substituir quando andamos um dia inteiro às voltas, entre sentimentos, recordações, factos e vivências, para escrever duas linhas e comunicar uma vida.

Esta manhã fui surpreendida com a notícia da morte de uma amiga. Não sei se teve ou não consciência da sua partida; pode ter descansado “ignorante da morte”, mas sem dúvida “certa da sua ressurreição”, como diria Eugénio de Andrade, poeta que elegi para dar voz ao meu balbuciar de palavras contidas. 

Maria Carla Crespo





27 de janeiro de 2012

Uma espera em desassossego



Mesmo quando os livros se empilham na mesa de cabeceira, esperando a possibilidade de me entregar a cada um de um fôlego, sem conseguir encontrar uns dias inteiros plenos de leitura exclusiva, mesmo assim, Deus vem a público, de António Marujo, é para mim uma curiosidade que não resisto a juntar  brevemente aos outros volumes.

A personalidade de Abbé Pierre desassossega-me a espreitar as páginas da sua entrevista e a, com ele, parar os ponteiros do relógio...

23 de janeiro de 2012

O néctar da literatura

"Para se chegar a boas leituras é necessário ler de tudo até que a experiência leitora deixe a sua marca".

FERNÁNDEZ, Juan José Lage, in Animar a leer desde la biblioteca


Jeong Jong Hae
Esta é uma postura de leitura válida para quem começa a desbravar as letras ou para quem se obriga a gostar de determinado livro, autor ou estilo. Se a escola não instituísse um cânone literário, muitos perderiam na vida a oportunidade de se cruzarem com Cesário Verde, Pessoa, Vergílio Ferreira, Sophia ou Saramago, entre muitos outros nomes maiores da literatura portuguesa. O mesmo é verdade para os autores dos cancioneiros medievais, para as crónicas de Fernão Lopes..., para tantas e tantas páginas de literatura, sem esquecer o magistral Eça, que tiveram o intuito de nos deixar provar o que é literatura, mesmo que pontualmente a possamos abandonar.

Genevieve Despres (pormenor)
Tenho as minhas dúvidas sobre se é preciso ler de tudo, aí compreendendo o banal, o fútil, o óbvio. Não será a literatura um alimento do espírito? Entender-se-ia que numa degustação de vinho se provasse todo o tipo de vinho, sem o cuidado prévio de dar a saborear os melhores aromas e sabores do precioso néctar? Assim na literatura.

21 de janeiro de 2012

Leitor perfeito


Ilustração de Rafael Mendoza de Gyves



"A aprendizagem da leitura é progressiva. Cada vez que lemos, aprendemos a ler melhor, enriquecemos o nosso conhecimento de leitura.

O leitor nunca é perfeito."

                                                        Smith, 1986
                                                                                                    

                            
                                               

20 de janeiro de 2012

Bibliotecas íntimas


Ilustração de Mary Blair
Ler em voz alta, ler em silêncio, ser capaz de transportar na mente bibliotecas íntimas de palavras lembradas são capacidades extraordinárias que adquirimos através de métodos incertos.

     Manguel