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7 de agosto de 2015

creio que o amor tem asas de ouro

Ilustrações de Marie Cardouat


creio nos anjos que andam pelo mundo,
creio na deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve dantes,

creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,



creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro. amém.


Natália Correia

4 de agosto de 2015

Os amigos


 
Ilustração de Angela Morgan

Voltar ali onde

 A verde rebentação da vaga

 A espuma o nevoeiro o horizonte a praia

 Guardam intacta a impetuosa

 Juventude antiga -

 Mas como sem os amigos

 Sem a partilha o abraço a comunhão

 Respirar o cheiro a alga da maresia

 E colher a estrela do mar em minha mão



Sophia de Mello Breyner Andresen, in Musa

31 de julho de 2015

Não sou nada


Ilustração de  Mario Rosales Arredondo



Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Álvaro de Campos, in "Tabacaria"

30 de julho de 2015

Come chocolates, pequena, come chocolates


Ilustração de Linda Olafsdottir



(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)




 Álvaro de Campos, in "Tabacaria"


29 de julho de 2015

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave



Ilustração de Robert Neubecker

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.


                                                                                     Alberto Caeiro

28 de julho de 2015

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia


 
Ilustração de Colin Thompson


Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus. 



(...)


Alberto Caeiro

26 de julho de 2015

Compreender com os olhos

Ilustração de Claire Mojher
(...)



Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza. 



Alberto Caeiro, "Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia" in Eu só penso no sol

21 de julho de 2015

Nada entre nós tem o nome da pressa

Nada entre nós tem o nome da pressa.
Conhecemo-nos assim, devagar, o cuidado
traçou os seus próprios labirintos. Sobre a pele
é sempre a primeira vez que os gestos acontecem. Porém,

se se abrir uma porta para o verão, vemos as mesmas coisas - 
o que fica para além da planície e da falésia; a ilha,
um rebanho, um barco à espera de partir, uma palavra
que nunca escreveremos. Entre nós


Ilustração de Casey O'Connell



o tempo desenha-se assim, devagar.
Daríamos sempre pelo mais pequeno engano.

           Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 43

19 de julho de 2015

oh, se pudesses voltar

oh, se pudesses voltar, mostrava-te as sete luas que se vêem
da janela do meu quarto. E os sete sóis, se nele quisesses
passar mais de uma noite. Nada disto te revelei antes,
que eram segredos meus - e eu, aos segredos, guardo-os
até ser tarde [de mais] para contá-los.

 
Ilustração de Joanna Concejo


oh, se pudesses voltar, havia de levar-te a ver o jardim,
por trás da casa, onde há uma nespereira que é só minha
e a cuja sombra podíamos ler no verão, se o verão viesse
e tu quisesses passá-lo só comigo. E também a clarabóia,
no telhado, que tem um vidro a menos por onde, de vez
em quando, caem estrelas; e tão pequenas que se perdem nos olhos
de quem se põe assim, a olhá-las, sem saber de onde vêm -


dizem que são anjos que as lançam devagar para aquecer
as noites. Talvez também te mostrasse os anjos se voltasses.


                               Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p.77