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2 de novembro de 2017

Eu, sabendo que te amo



 
il. Rima Koussa
Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.

 Nuno Júdice, in A Fonte da Vida

28 de outubro de 2017

Chegas tarde ao teu tempo

Ilustração de Sarah Jarrett

Chegas tarde ao teu tempo. Palavras duras

que escuto agora como uma derrota.

Mas já não sei de nenhum combate,

nem que tempo era o meu. É uma pena

não se ser ninguém, ter errado

o comboio, ter ficado sem malas,

adormecido no banco, passar ao largo,

e achar-se agora sem roupa limpa,

cansado, num hotel reles de uma só

e má estrela, que deve ser a minha.

Prescindirei de tudo menos do poeta

que fica do desastre. Fingirei ver

que no final de contas errei o século:

isto será Paris e eu Verlaine.

                                           Joan Margarit



24 de dezembro de 2016

O Natal é a espera que acontece

Ilustração de Marijan Ramljak



Isabel Figueiredo e Jorge Reis-Sá, in

Advento e Natal para crentes e não-crentes,

Paulus Editora, 2016

27 de novembro de 2016

A estrela

Ilustração de mj-Marijan Ramljak


Precisamos de uma estrela que desarme a noite
Precisamos de uma palavra transparente
que nos ofereça a possibilidade de um começo
Precisamos de uma esperança que se propague
Precisamos de lugares límpidos
fora e dentro de nós
Precisamos de reencontrar uma vida onde a prece
e o louvor voltem a ser possíveis
Precisamos de um gesto para dizer uma alegria
maior do que a alegria
Precisamos de acolher o dom
e o seu equilíbrio difícil e leve
Precisamos de alguém que em pleno inverno nos ensine
a trazer no coração a primavera a arder

José Tolentino Mendonça

8 de abril de 2016

Rua de nenhures


il. Anuska Allepuz


Cantas. Não sei bem onde,
mas atravessas as paredes da casa
e do coração. O amor indetectado
lança notas da música da terra
 não a das estrelas, que não há

Cantas. E o universo é uno,
é uno neste verso. 


Pedro Tamen

5 de abril de 2016

Cama



il. Leandro Lamas

Podia ser uma cama aberta no horizonte
e os teus cabelos num poente incendiado.
Podia ser o teu sexo num cume de monte,
e os teus seios despidos sobre este prado.
A mão que esconde mais do que oferece,
os olhos de presa dominando o caçador.
E os teus lábios que murmuram a prece
de quem só reza no instante do amor.
E se falasse dos teus olhos, dos teus braços
desse corpo em que me perco e te ganho,
não mais acabaria o que tem de acabar;
uma respiração de suspiros e de abraços
neste canto em que és tudo o que eu tenho,
nesta viagem em que não tem fundo o mar.

Nuno Júdice

3 de abril de 2016

Abro-te a porta do poema


 
il. Lorena Pugh

Abro-te a porta do poema; e tu
espreitas para dentro da estrofe, onde
um espelho te espera.

Nuno Júdice

1 de abril de 2016

Nunca são as coisas mais simples que aparecem


il. Diane Duda

Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.
                                                             Nuno Júdice

27 de março de 2016

Páscoa Feliz

 
il. Evgenia Gapchinska
Que os nossos olhos, feitos para olhar as estrelas, não morram a olhar para os nossos sapatos.

Tolentino Mendonça, in O tesouro escondido

25 de março de 2016

Pai, Pai, por que me abandonaste?

Ilustração de Gurbuz Dogan Eksioglu

Mas a imagem do homem continuava sozinha: a cabeça levantada que olhava o céu com uma expressão de infinita solidão, de abandono e de pergunta.
 
E do fundo da memória, trazidas pela imagem, muito devagar, uma por uma, inconfundíveis, apareceram as palavras:

– Pai, Pai, por que me abandonaste?
 
il. Vanja Todoric
 
Então compreendi por que é que o homem que eu deixara para trás não era um estranho. A sua imagem era exactamente igual à outra imagem que se formara no meu espírito quando eu li:

– Pai, Pai, por que me abandonaste?

Era aquela a posição da cabeça, era aquele o olhar, era aquele o sofrimento, era aquele o abandono, aquela a solidão.
Para além da dureza e das traições dos homens, para além da agonia da carne, começa a prova do último suplício: o silêncio de Deus.

Ilustração de Gurbuz Dogan Eksioglu

E os céus parecem desertos e vazios sobre as cidades escuras.


Sophia de Mello Breyner,"O Homem" in Contos Exemplares