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17 de dezembro de 2014

Imitação do divino

Ilustração de Annika Hiltunen



Uma obra de arte tem um autor, e no entanto, quando é perfeita, possui algo de essencialmente anónimo. 

Imita o anonimato da arte divina.

             
Simone Weil, in A gravidade e a graça, Relógio d' Água, 2004, p. 149


16 de dezembro de 2014

O belo, o instante e o eterno

A beleza é a harmonia entre o acaso e o bem.

Ilustração de Annika Hiltunen

O belo encerra, entre outras uniões de contrários, a do instante e do eterno.

Simone Weil, in A gravidade e a graça, Relógio d' Água, 2004, p. 148





15 de dezembro de 2014

O que valem as palavras

As mesmas palavras (ex., um homem diz à sua mulher: amo-vos) podem ser vulgares ou extraordinárias, segundo o modo como são pronunciadas. E este modo depende da profundidade da região do ser de onde procedem, sem que a vontade possa fazer algo contra isso. 

Ilustração de Lyudmila Romanova 

E, por meio de uma harmonia maravilhosa, vão tocar, naquele que escuta, a mesma região. Assim, aquele que escuta pode discernir, se tiver discernimento, o que valem aquelas palavras.

Simone Weil, in A gravidade e a graça, Relógio d' Água, 2004, p. 70  

12 de dezembro de 2014

Mapa de odores

Ilustração de Aurélie Blanz 



O odor fica a ser assim uma espécie de mapa, uma fonte íntima de conhecimento.


Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 116

10 de dezembro de 2014

O odor único e irrepetível

Ilustração de Bella Sinclair
O odor é volátil, só conseguimos falar dele por metáforas, mas, na verdade, nada tem de abstrato. A sua volatilidade destina-se a materializar-se. Quando alguém derrama sobre a sua pele umas gotas de perfume, o mesmo perfume, fabricado pela indústria em quantidades colossais, passa a ser apenas seu. Torna-se a sua exalação. O corpo torna os perfumes irrepetíveis, pois absorve-os e reprodu-los de uma forma que é só sua. 


Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , pp. 115-116

9 de dezembro de 2014

O odor do instante

Ilustração de Auréie Blanz

Cada instante tem o seu odor. Cada estação. Cada pessoa. O odor imprime tonalidades afetivas a um instante que queremos distinguir de outro.


Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 115


8 de dezembro de 2014

Sem lentidão não há paladar


Ilustração de Andy Kehoe

Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 105

7 de dezembro de 2014

A pressa

Ilustração de Bella Sinclair

A pressa dá-nos (...) uma impressão de si que é fictícia. Ao contrário do que parece, o seu aliado é o esquecimento, não a memória. Tudo passou no mesmo galope com que entrou.

Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 106

A lentidão

Ilustração de Aaron Ayumi Piland 



Quando as coisas acontecem depressa demais, ninguém pode ter certeza de nada, de coisa nenhuma, nem de si mesmo.




Milan Kundera, in A lentidão

6 de dezembro de 2014

A experiência do amor


Ilustração de Aaron Ayumi Piland 


Não é a culpa ou a autoflagelação que nos converte. Transforma-nos, sim, a experiência do amor (...). É no confronto com esse amor que mudamos. E por isso a única solidão na qual podemos confiar é a solidão que nos encaminha devagarinho para uma fonte.

Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 109

5 de dezembro de 2014

Devagarinho até à fonte

Ilustração de Ann Ernández
- Bom dia - disse o principezinho.
- Bom dia - disse o comerciante.
Era um comerciante de pílulas para matar a sede. Toma-se uma por semana e não se tem necessidade de beber.
- Por que vendes isso? - perguntou o principezinho.

- É uma grande economia de tempo - respondeu o comerciante. - Os peritos fizeram cálculos. Poupam-se cinquenta e três minutos por semana.
- E que se faz com cinquenta e três minutos?
- Faz-se o que se quiser...

Ilustração de Kim Minji

- Eu - disse o principezinho, de si para si -, se tivesse cinquenta e três minutos à minha disposição, ia a pé, devagarinho, até alguma fonte... 


Antoine de Saint-Exupéry, in O Principezinho


3 de dezembro de 2014

A vida é o que permanece

Ilustração de Chris Van Allsburg

Há um trabalho a fazer para passar do apego narcisista a uma idealização da vida, à hospitalidade da vida como ela nos assoma, sem mentira e sem ilusão, o que requer de nós um amor muito mais rico e difícil. Esse que é, em grande medida, um trabalho de luto, um caminho de depuração, sem renunciar à complexidade da própria existência, mas aceitando que não se pode demonstrá-la inteiramente.



Ilustração de Mika Nitta


A vida é o que permanece, apesar de tudo: a vida embaciada, minúscula, imprecisa e preciosa como nenhuma outra coisa. A sabedoria é a vida mesma: o real do viver, a existência não como trégua, mas como pacto, conhecido e aceite na sua fascinante e dolorosa totalidade.

                                             Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , pp. 112-113

2 de dezembro de 2014

O que é um abraço?

Ilustração de Bella Sinclair
     
Se calhar, a primeira forma do primeiro abraço que demos era apenas um agarrar-se para não cair. Porém, pouco a pouco, num processo paciente onde os corpos fazem a aprendizagem de si (e do amor), o abraço deixa de ser uma coisa que tu me dás ou que eu te dou, e surge como um lugar novo, um lugar que ainda não existia no mundo e que juntos encontramos.



Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 82

1 de dezembro de 2014

Anorexia de afetos

Ilustração de Shinya Okayama

Há um filme de Ingmar Bergman em que uma das personagens é uma rapariga anoréxica - e sabemos como a anorexia é um tipo de desinvestimento vital, que podemos tomar como símbolo de tantos outros. A rapariga vai falar com um médico e ele diz-lhe mais ou menos isto, que também vale para nós: "Olha, há só um remédio para ti, só vejo um caminho: em cada dia, deixa-te tocar por alguém ou por alguma coisa".


Tolentino Mendonça, "Deixa-te tocar"in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , pp. 67-68

24 de novembro de 2014

Secretária desarrumada



Gosto de ter a secretária desarrumada. Recortes de jornais, contas por pagar, cartas, papéis com recados, notas, relatórios, fotografias formam um padrão que me desenvolve o raciocínio.

Ilustrações de Juri Romanov

Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso, Porto Editora, 2011, 1ª ed., p. 12

22 de novembro de 2014

A pantera e o oftalmologista

Ilustração de Lim Heng Swee
- O seu caso não é para operar.

(...)

- Mas vai passar a ser. Quero um transplante de olhos. Pago o que for preciso.
Ela era doida, não havia dúvida nenhuma.

- Não. Para quê? É perfeitamente normal. Estas coisas não funcionam assim, há uma ética médica. O dinheiro não compra tudo.

- Ora, ora. Deixe-se de tretas. Se eu quiser uma cara, um nariz, umas mamas novas, isso é aceitável. Uns olhos novos não, porquê?

(...)

- E não quero uns olhos quaisquer. Quero que me transplante olhos de pantera.

                           
Miguel Miranda, "A pantera e o Oftalmologista", in A fome do licantropo e outras histórias, 
Porto Editora, 2014, 1ª ed., p. 99

12 de novembro de 2014

Andar acalma

Andar acalma. A marcha possui uma virtude salutar.

Ilustração de Alberto Ruggieri

O ato de colocar regularmente um pé à frente do outro, acompanhado pelo balançar cadenciado dos braços, a aceleração do ritmo respiratório, a ligeira estimulação do pulso, as atividades da vista e do ouvido necessárias à manutenção do equilíbrio - são ações que impelem o corpo e o espírito para uma convergência irresistível, permitindo que a alma, por muito atrofiada e traumatizada que esteja, cresça e se expanda.

                                                                    Patrick Süskind, in A pomba, Ed. Presença, 2014, 9ª ed., p. 81