Manuel António Pina
Um blogue que se alimenta de e com ilustrações e palavras, sobretudo textos literários.
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17 de novembro de 2014
12 de novembro de 2014
Andar acalma
Andar acalma. A marcha possui uma virtude salutar.
O ato de colocar regularmente um pé à frente do outro, acompanhado pelo balançar cadenciado dos braços, a aceleração do ritmo respiratório, a ligeira estimulação do pulso, as atividades da vista e do ouvido necessárias à manutenção do equilíbrio - são ações que impelem o corpo e o espírito para uma convergência irresistível, permitindo que a alma, por muito atrofiada e traumatizada que esteja, cresça e se expanda.
| Ilustração de Alberto Ruggieri |
O ato de colocar regularmente um pé à frente do outro, acompanhado pelo balançar cadenciado dos braços, a aceleração do ritmo respiratório, a ligeira estimulação do pulso, as atividades da vista e do ouvido necessárias à manutenção do equilíbrio - são ações que impelem o corpo e o espírito para uma convergência irresistível, permitindo que a alma, por muito atrofiada e traumatizada que esteja, cresça e se expanda.
Patrick Süskind, in A pomba, Ed. Presença, 2014, 9ª ed., p. 81
9 de novembro de 2014
A pomba
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| Ilustração de Greg Becker |
Quando lhe aconteceu isto da pomba, que de um dia para o outro mudou radicalmente a sua existência, já Jonathan Noel estava com mais de cinquenta anos, havia uns bons vinte anos que levava uma vida igual e sem incidentes e nunca lhe teria passado pela cabeça que ainda lhe pudesse vir a acontecer qualquer coisa de importante senão morrer. E dava-se por muito satisfeito com a sua sorte, pois não gostava de acontecimentos e detestava em particular aqueles que lhe abalavam o equilíbrio interior e perturbavam a ordem externa da vida.
Patrick Süskind, in A pomba, Ed. Presença, 2014, 9ª ed.,p.7
8 de novembro de 2014
O doutor queijo
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| Ilustração de Kristian Adam |
Ela apreciou o especialista. O doutor Roquefort era um homem minúsculo, de cabeça rapada e olhos em fenda, como um monge budista. Tinham-lhe dito que era o melhor, porém, a sua figura era tudo menos impressionante. Se ao menos tivesse cabelos brancos, talvez irradiasse mais sabedoria e incutisse mais confiança. Uma dúvida insidiosa instalava-se nela, seria ele mesmo bom? Gostava de confiar, mas o primeiro impacto não era impressionante. Um médico com nome de queijo, era o que ele era.
Miguel Miranda, "A pantera e o Oftalmologista", in A fome do licantropo e outras histórias, Porto Editora, 2014, 1ª ed., p. 95
6 de novembro de 2014
O penetra
- Olha a fila, ó penetra!
- É preciso ter lata!
- Entrar assim de calçadeira, à frente de todos!
- Penetra! Seu penetra!
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| Ilustração de Ellie Horie |
O autocarro arrancou e ele sorriu, o dia começava bem.
Saiu duas paragens adiante, sem pagar bilhete. Aplicou o mesmo golpe mais duas vezes e foi andando, sem gastar uma moeda e passando à frente de todos os cordatos passageiros em espera nas paragens.
- Penetra!
Miguel Miranda, "O Penetra compulsivo", in A fome do licantropo e outras histórias, Porto Editora, 2014, 1ª ed., p. 104
4 de novembro de 2014
Privacidade
O que é o privado nos nossos dias?
Uma das involuntárias consequências da revolução informática é ter volatilizado as fronteiras que o separavam do público e ter confundido ambos num happening em que todos somos ao mesmo tempo espectadores e atores, no qual nos mostramos reciprocamente exibindo a nossa vida privada e nos divertimos observando a alheia, num strip tease generalizado em que nada já ficou a salvo da mórbida curiosidade de um público depravado pela idiotice.
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| Ilustração de Daria Petrilli |
O desaparecimento do privado, o facto de ninguém respeitar a intimidade alheia, ela ter-se convertido numa paródia que excita o interesse geral e haver uma indústria informativa que alimenta sem tréguas e sem limites esse voyeurismo universal, é uma manifestação de barbárie. Pois com o desaparecimento do domínio do privado muitas das melhores criações e funções do humano deterioram-se e aviltam-se, começando por tudo aquilo que está subordinado ao cuidado de certas formas, como o erotismo, o amor, a amizade, o pudor, as maneiras, a criação artística, o sagrado e a moral.
Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, pp. 150-151
3 de novembro de 2014
O tamanho da mala
Podemos estar a viajar vida fora com uma mala pequena ou uma mala grande. Não conta o tamanho das malas. Se elas estão cheias, porque são realmente pequenas ou porque nós a tornamos assim, teremos de retirar delas alguma coisa se quisermos colocar outras novas no seu lugar. E acontece passarmos a vida nisso: acumulando, esvaziando, acumulando.
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| Ilustração de Wonil Suh |
A frugalidade não depende do tamanho da mala.
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| Ilustração de Jacek Yerka |
O viajante frugal é aquele que tomou a decisão prévia de transportar consigo o essencial, deixando sempre na sua bagagem um espaço disponível.
José Tolentino Mendonça, in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014,
1ª ed., pp. 99-100
2 de novembro de 2014
Os amigos morrem-nos
Os amigos não morrem simplesmente:
morrem-nos, uma força atroz mutila-nos da sua companhia e continuamos a viver com esses vazios entre os ossos.
Luis Sepúlveda, "Jantar com poetas mortos" in A Lâmpada de Aladino e outras histórias para vencer o esquecimento, Porto Editora, 2008, 1ª ed., p. 29
1 de novembro de 2014
O que é a frugalidade?
...a frugalidade não se confunde com a pobreza.
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| Ilustração de Abigail Halpin |
O que é então a frugalidade? É a escolha do pouco, de viver com pouco, procurando encontrar aí, ou retirar daí, o máximo sentido.
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| Ilustração de Marc Potts |
A frugalidade desprende-se, distancia-se, ganha consciência crítica, não abdica da sua liberdade. A frugalidade é um estilo. Há uma frase de Henry David Thoreau que a ilumina especialmente. E ela diz: "A riqueza de um homem é proporcional não ao número de bens que ele pode possuir, mas ao número de coisas a que ele pode renunciar".
José Tolentino Mendonça, in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., pp. 98-99
31 de outubro de 2014
Romeu e Julieta
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| Ilustração de Gabriela Andrade |
Romeu da Baviera era duque; Julieta apenas bela. Como muitas vezes, o poder ajoelhou-se frente à beleza; como sempre, a beleza fingiu resistir, mas logo se rendeu.
Gonçalo M. Tavares, A História de Julieta, a santa da Baviera, in Histórias Falsas, Caminho, 2014, 7ª ed., p. 15
28 de outubro de 2014
A Bíblia é para comer
25 de outubro de 2014
São piores os homens que os corvos
24 de outubro de 2014
Corvos
23 de outubro de 2014
Cabeça em ovo de avestruz
22 de outubro de 2014
Bilhete de identidade
O maravilhoso não escurece
21 de outubro de 2014
Arquitecto
20 de outubro de 2014
Dois mundos
19 de outubro de 2014
Braille
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| Ilustração de Keiko Shibata |
Leio o amor no livro
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos,
no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.
Nuno Júdice, in Geometria variável, D. Quixote, 2005, 1ª ed., p. 79
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