Um blogue que se alimenta de e com ilustrações e palavras, sobretudo textos literários.
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23 de dezembro de 2012
Poema do Natal
22 de dezembro de 2012
Ternura
21 de dezembro de 2012
Natal e não dezembro
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| Ilustração de Eva Vásquez |
Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.
David Mourão-Ferreira, in Cancioneiro de Natal
20 de dezembro de 2012
Espuma da tarde
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| Ilustração de Rafal Olbinski |
A janelinha tinha sido feita para abrir sobre um quintal, demasiado fundo para um salto, mas onde havia um limoeiro. O limoeiro abriu os braços e disse-me vem. Não ouvi mais nada, pois nessa altura já eu lá estava de costas num regaço de folhas, puas e limões. O que me acontecia parecia uma carícia e nem doeu nem sangrou.
Lídia Jorge, "Espuma da tarde", in Marido e outros contos
19 de dezembro de 2012
Mulheres
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| Akzhana Abdalieva |
Sem se saber porquê, a percentagem de mulheres belas, até uma certa idade, é superior à dos homens. Há as esguias como bambus, há as doces como se paradas, e há as curvas como estradas de montanha. Cada uma com o seu encanto. É só preciso olhar, nem é preciso descobrir. E depois há as feias.
Lídia Jorge, "António", in Marido e outros contos, Dom Quixote
Nudez especial
16 de dezembro de 2012
Cozinha, metáfora de mobilidade
O antropólogo [Claude Lévi-Strauss] ensina-nos que a cozinha é metáfora da própria existência humana, pois distingue o homem, precisamente esta capacidade de viver na transformação, numa mobilidade que não é só geográfica.
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| Ilustração de Solenn Larnicol |
Ora a metáfora da cozinha fala da transformação como um benefício.
Tolentino Mendonça, "Pensar Deus a partir do cru e do cozido",
in Nenhum caminho será longo, Para uma teologia da amizade
15 de dezembro de 2012
Misturas de criatividade
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| Ilustração de Solenn Larnicol |
A cozinha é o lugar da instabilidade, da procura, da incerteza, das misturas inesperadas, das soluções imprevistas, das receitas adaptadas. A cozinha é o lugar da criatividade e da recomposição.
Tolentino Mendonça, "Pensar Deus a partir do cru e do cozido",
in Nenhum caminho será longo, Para uma teologia da amizade
13 de dezembro de 2012
Tristeza à esquina de
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| Ilustração de Olga Ionaytis |
Manuel Alegre, "City square" in O Quadrado, D. Quixote
12 de dezembro de 2012
O regresso
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| Ilustração de Kai Pannen |
Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.
Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.
Manuel António Pina in Como se desenha uma casa
A frase
Uma tristeza canta debaixo de água. Uma tristeza azul, uma tristeza negra. Uma tristeza canta debaixo de água.
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| Ilustração de Lucile Gomez |
Esta é a frase. Eu sou a frase em busca de uma história. Não digo de autor porque estou na cabeça dele sem ele saber porquê.
Manuel Alegre, in O Quadrado, D. Quixote
10 de dezembro de 2012
Cansada, mas feliz
Ao chegar a Calcutá entrei em Motijhil, um dos bairros mais pobres da cidade. Não levava dinheiro nem tinha para onde ir, mas confiava que Deus me ajudaria. A primeira coisa que fiz foi montar uma escola na rua, num espaço entre barracas. A lama servia-nos de quadro preto. Ia traçando nele as letras do alfabeto bengali para ensinar as crianças a ler e a escrever.
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| Ilustração de Deirdre Gill |
Elas sentavam-se no chão à minha volta, pois não tínhamos nem cadeiras nem mesas...nem nada! Bom, na verdade, tínhamos muito: as crianças tinham um interesse enorme em aprender e eu tinha muita vontade de as ensinar.
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| Ilustração de Cristina Fuentes |
Aquelas que vinham sujas eram lavadas numa tina. Cada dia tinha mais alunos. E depois das aulas ia visitar os doentes.
Carmen Gil, in Teresa de Calcutá, il. Mercè Galí, Didáctica Editora, col. Chamo-me...
Direitos humanos
A árvore de Natal
9 de dezembro de 2012
Conversa no presépio
Da árvore nascia um brilhar maravilhoso que pousava sobre todas as coisas. Era como se o brilho de uma estrela se tivesse aproximado da Terra. Era o Natal. E por isso uma árvore se cobria de luzes e os seus ramos se carregavam de extraordinários frutos em memória da alegria que, numa noite muito antiga, se tinha espalhado sobre a Terra.
E no presépio as figuras de barro, o Menino, a Virgem, São José, a vaca e o burro, pareciam continuar uma doce conversa que jamais tinha sido interrompida. Era uma conversa que se via e não se ouvia.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in A Noite de Natal
O frio brilhava
As velas estavam acesas e a sua luz atravessava o cristal. Em cima da mesa havia coisas maravilhosas e extraordinárias: bolas de vidro, pinhas douradas e aquela planta que tem folhas com picos e bolas encarnadas. Era uma festa.
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| Ilustração de Anna Koroleva |
Era o Natal.
Então Joana foi ao jardim. Porque ela sabia que nas Noites de Natal as estrelas são diferentes.
Abriu a porta e desceu da escada da varanda. Estava muito frio mas o próprio frio brilhava.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in A Noite de Natal
8 de dezembro de 2012
A música das festas
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| Ilustração de Jessica Piqueras |
Nos dias de festa, do fundo das sombras do interior do armário saíam os copos. Saíam claros, transparentes e brilhantes, tilintando no tabuleiro. E para Joana aquele barulho de cristal a tilintar era a música das festas.
Joana deu uma volta à roda da mesa. Os copos já lá estavam, tão frios e luminosos que mais pareciam vindos do interior de uma fonte de montanha do que do fundo de um armário.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in A Noite de Natal
A linha musical do encantamento
A linha musical do encantamento
Sophia, in O Búzio de Cós e outros
poemas
7 de dezembro de 2012
Os amantes sem dinheiro
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| Ilustração de Joanna Concejo |
Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.
Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.
Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.
Eugénio de Andrade
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