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16 de março de 2012

Treinar os músculos da paciência

Sarah Jane Szikora, Contraste nobre
Para treinar os músculos da paciência, o senhor Calvino colocava uma colher de café, pequenina, ao lado de uma pá gigante, pá utilizada habitualmente em obras de engenharia. A seguir, impunha a si próprio um objectivo inegociável: um monte de terra (50 quilos de mundo) para ser transportado do ponto A para o ponto B – pontos colocados a 15 metros de distância um do outro.
(…) E Calvino utilizava a minúscula colher de café para executar a tarefa de transportar o monte de terra de um ponto para outro (…)
(…) Calvino sentia estar a aprender várias coisas grandes com uma pequenina colher.
 
Gonçalo M. Tavares, "A colher", in O Senhor Calvino

O meu olhar é nítido como um girassol

Ilustração de Aki
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... 


Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar... 


Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

Alberto Caeiro, "Poema segundo" in O Guardador de Rebanhos

11 de março de 2012

Pedaços soltos do mundo

Ilustração de Carlos C. Lainez
Os artistas são os que passam a sua vida a ligar os pedaços soltos do mundo.                                                                                                                                                                                      Yves Simon


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Cidade



Ilustração de Carmen Guerrero
Ilustração de Carmen Guerrero
 








Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,

Ilustração de Aki
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,

Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética I, Caminho



9 de março de 2012

Pássaro em vertical

Ilustração de Gennine D. Zlatkis
Cantava o pássaro e voava

                cantava para lá

voava para cá

voava o pássaro e cantava

de

  repente

            um

               tiro

                  seco

      penas fofas

   leves plumas

mole espuma

  e um risco

      surdo

         n

         o

          r

          t

          e

     

          _

          s

          u

           l.


Libério Neves

6 de março de 2012

A força das palavras

Ilustração de Anna Himself
De novo as palavras de Gonçalo M. Tavares, numa reflexão sobre a crença de que as palavras têm relação com o real: de facto - diz o jovem escritor e filósofo -, palavra e ato, palavra e realidade são independentes. A linguagem é arbitrária, como ensinam os linguistas. Posso chamar mesa a um objeto com quatro pernas e um tampo, mas poder-lhe-ia chamar sofá ou cão ou montanha... A convenção quis se chamasse mesa. Também posso levantar dois dedos e dizer "tenho aqui cinco elefantes". É esse o mundo da literatura, que não copia o real, antes o transforma ou simplesmente o transporta. Paralelamente.

Um universo a saborear, com a força das palavras e dos textos. A força das palavras que advém da imagética, da semiótica, do seu sentido vital, da sua conotação, ou de uma inexplicável realidade, que perdura, século após século. A força das orações, concluía Gonçalo M. Tavares, não é uma força literária.

De onde vem, pois, tal força?    





4 de março de 2012

A crise e a queda segundo Gonçalo M. Tavares


Ilustração de Carlos Aponte
A crise remete-nos para a figura da queda, ilustrada neste texto de Gonçalo M. Tavares: 

Do alto de mais de trinta andares, alguém atira da janela abaixo os sapatos de Calvino e a sua gravata. Calvino não tem tempo para pensar, está atrasado, atira-se também da janela, como que em perseguição. Ainda no ar alcança os sapatos. Primeiro, o direito: calça-o; depois, o esquerdo. No ar, enquanto cai, tenta encontrar a melhor posição para apertar os atacadores. Com o sapato esquerdo falha uma vez, mas volta a repetir, e consegue. Olha para baixo, já se vê o chão. Antes, porém, a gravata; Calvino está de cabeça para baixo e com um puxão brusco a sua mão direita apanha-a no ar e, depois, com os seus dedos apressados, mas certeiros, dá as voltas necessários para o nó: a gravata está posta. Os sapatos, olha de novo para eles: os atacadores bem apertados; dá o último jeito no nó da gravata, bem a tempo, é o momento: chega ao chão, impecável.

Gonçalo M. Tavares, 1º sonho de Calvino in O Senhor Calvino

Ilustração invertida
Aparentemente, esta personagem só se preocupa com a sua aparência física. É uma primeira leitura. Outra interpretação possível é a de que mantém a calma e o equilíbrio quando está a cair.

O que fazemos quando caímos e o que é importante nesses momentos? De que serve ser inteligente quando se cai? Ou ser muito belo? Ou muito poderoso? - interrogações lançadas por Gonçalo M. Tavares na Sessão de Estudos "O mal e a alegria em tempos sombrios" (Metanoia).
 

1 de março de 2012

Canção



Tinha um cravo no meu balcão;
veio um rapaz e pediu-mo
– mãe, dou-lho ou não?

Sentada, bordava um lenço de mão;
veio um rapaz e pediu-mo
– mãe, dou-lho ou não?

Dei um cravo e dei um lenço,
só não dei o coração;
mas se o rapaz mo pedir
– mãe, dou-lho ou não?

Eugénio de Andrade

27 de fevereiro de 2012

Perde-se com a idade um não sei quê


Perde-se com a idade um não sei quê
que era talvez sombra e sabor e até tristeza
e assim temos outra paz de inclinação 
em clareiras limpas tocadas de algum eco
melancólico e lúcido. E quase sem ilusão
entregamo-nos ao âmbito de uma paz
que é a medida do mundo quando nada
se nos oferece senão o habitar
Ilustrações de Sam Hyuen Kim
aquelas horas de um universo que
é no silêncio glória obscura e transparente
Assim nos inebriamos também da madurez
procurando a inocente incandescência
do tempo quando ilumina as clareiras
e é como se nada ainda fosse passado
na onda lenta que ascende sobre o peito
e que desperta um vago núcleo que inicia

António Ramos Rosa, in O Livro da Ignorância, 1988

Hino

Ilustração de Alexander Grishkevich
O poema serve para alimentarmos a cumplicidade.

O poema serve para nomearmos o indizível, para expressarmos o silêncio, para bebermos os dois do copo da beleza e da magnanimidade.

O poema serve para nos lermos e dizermos de nós.

O poema serve o sublime.


Maria Carla

26 de fevereiro de 2012

Arte poética


Ilustração de Dennis Wojkiewicz

Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao seu silêncio outro silêncio,
se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes
e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.

Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.


Ilustração de Duy Huynh


Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou ajudar a dormir o inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.


Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.

                                                                         António Ramos Rosa, in Sílex, 1980

Agora as palavras

Ilustração de Salvia
Obedecem-me agora muito menos,
As palavras. A propósito
de nada resmungam, não fazem
caso do que lhes digo,
não respeitam a minha idade.
Provavelmente fartaram-se de rédea,
Não me perdoam
a mão rigorosa, a indiferença
pelo fogo de artifício.
Eu gosto delas, nunca tive outra
paixão. E elas durante muitos anos
também gostaram de mim: dançavam
à minha roda quando as encontrava.

Eugénio de Andrade, in O Sal da Língua

25 de fevereiro de 2012

Para um amigo tenho sempre um relógio


Ilustração de Aki
Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa, in Viagem através duma Nebulosa, 1960

A festa do silêncio

Ilustração de Gabriela Herrera

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.




Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não supresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Ilustração de Alexander Grishkevich


Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.



António Ramos Rosa, in Volante Verde

21 de fevereiro de 2012

Do conto à realidade

"Argine", de Julia Simeón, consubstancia o pensamento de Bachelard de que se sonha antes de se compreender. É a passagem do conto, do sonho à realidade. Um filme de animação muito terno.





20 de fevereiro de 2012

O ornitorrinco


Ilustração de Bobby Chiu & Kei Acedera
Umberto Eco, na obra Kant e o ornitorrinco, analisa o problema das categorias de interpretação a partir dos juízos teorizados pelo filósofo alemão, que se depara com "um animal que tem um pouco de toupeira, um pouco de lontra, um pouco de pato, um pouco de castor. É um "ornitorrinco", mas ele não o sabe".

É este o exemplo que Granieri (2006) dá, em Geração Blogue, ao explicar que a internet e os blogues em particular nos colocam perante "o problema do ornitorrinco", que nos obriga a "readaptar continuamente as nossas categorias de interpretação".

Ilustração de António João Santos
e João Rodrigues
A experiência de recém-bloguista, em Portefólio de Leituras, foi moldando também as minhas categorias de interpretação do mundo tecnológico. Várias ferramentas aqui têm tido expressão, ao longo de cerca de 3 meses e mais de 2000 cliques!

Ultrapassado o medo (quase pânico!) de manejar tanto inaudito artefacto tecnológico, tornei-me sua aliada. 

Na verdade, tentei responder a um repto. O desafio de partida - a que não podia escapar! - tornou-se um prazer quotidiano, quase um vício, na vontade de me superar e de ultrapassar os constrangimentos e desaires informáticos que sempre vão surgindo.


Ilustração de Sam Hyuen Kim

Deste abraço (ao blogue, ao Popplet, ao Slideshare, ao Facebook, à incorporação de vídeos, etc.) fica um rasto. Um rasto com chama de futuro.

O Portefólio de Leituras vai continuar, com os seus amáveis e fiéis seguidores e o recurso inestimável a Pinzellades al món, blogue de ilustradores de livros internacionais, que na sua omnipresença tem procurado criar um fio condutor ao longo deste diário digital sobre livros e leituras!

19 de fevereiro de 2012

A opulência rota


Ilustração de Jacqui Faye

Elegância necessita-se, a aparência é essencial e criar uma imagem credível, que fica bem, que impressiona, que tem impacto e nos faz passar por pessoas admiráveis, com dinheiro, bem falantes e bem posicionadas socialmente é o objetivo da farsa social em que nos envolvemos.


Ilustração de Carl Cneut




Em cada época, porém, ressurgem vozes que gritam; espreitam os bastidores da opulência visível e desvendam sótãos degradados; voltam do avesso os fatos dos fidalgos e descobrem os bolsos rotos; coscuvilham os dividendos dos milionários e encontram onzeneiros usurários, a viver à custa do povo, do seu suor e miséria.

Ilustração de Sonya Wimmer


O teatro vicentino, tal como as suas personagens-tipo, é universal e intemporal. O cómico serve a crítica social. A fazer rir, ridiculariza-se e moraliza-se a sociedade: a pelintrice, as conveniências, a preguiça apaixonada por um marido rico, a fidalguia com os sapatos rotos e tantos e tantos outros tipos sociais e psicológicos a saírem de baixo do guarda-roupa. 

Eis uma síntese esquemática da crítica vicentina. Qualquer transposição para a atualidade é um exercício de lucidez!


18 de fevereiro de 2012

Mestre Gil e o Carnaval



Carnaval, de Simona Valentino

Gil Vicente foi mestre e ímpar na crítica a partir do ridículo e do burlesco. Provocando o riso, criticava as práticas, os hábitos, a moral vigente, os usos e costumes: "ridendo castigat mores".

Ler ou reler Mestre Gil é torná-lo atual neste Carnaval. Os paralelismos podem surpreender-nos!...



14 de fevereiro de 2012

A verdade do amor

Ilustração de Lauraballa
Não conheço outra verdade nesta terra
tão certa como a que diz o amor,
e que no peito o coração encerra
quanto mais o faz bater o calor.

Nuno Júdice, Geometria Variável

O que é o amor

Ilustração de Jiri Borski

Pergunto-te o que é o amor? E tu
dizes-me que o amor é perguntar-se por ele, e é
a dúvida que entra nessa pergunta"

Nuno Júdice, Cartografia de Emoções