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6 de dezembro de 2014

A experiência do amor


Ilustração de Aaron Ayumi Piland 


Não é a culpa ou a autoflagelação que nos converte. Transforma-nos, sim, a experiência do amor (...). É no confronto com esse amor que mudamos. E por isso a única solidão na qual podemos confiar é a solidão que nos encaminha devagarinho para uma fonte.

Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 109

5 de dezembro de 2014

Devagarinho até à fonte

Ilustração de Ann Ernández
- Bom dia - disse o principezinho.
- Bom dia - disse o comerciante.
Era um comerciante de pílulas para matar a sede. Toma-se uma por semana e não se tem necessidade de beber.
- Por que vendes isso? - perguntou o principezinho.

- É uma grande economia de tempo - respondeu o comerciante. - Os peritos fizeram cálculos. Poupam-se cinquenta e três minutos por semana.
- E que se faz com cinquenta e três minutos?
- Faz-se o que se quiser...

Ilustração de Kim Minji

- Eu - disse o principezinho, de si para si -, se tivesse cinquenta e três minutos à minha disposição, ia a pé, devagarinho, até alguma fonte... 


Antoine de Saint-Exupéry, in O Principezinho


3 de dezembro de 2014

A vida é o que permanece

Ilustração de Chris Van Allsburg

Há um trabalho a fazer para passar do apego narcisista a uma idealização da vida, à hospitalidade da vida como ela nos assoma, sem mentira e sem ilusão, o que requer de nós um amor muito mais rico e difícil. Esse que é, em grande medida, um trabalho de luto, um caminho de depuração, sem renunciar à complexidade da própria existência, mas aceitando que não se pode demonstrá-la inteiramente.



Ilustração de Mika Nitta


A vida é o que permanece, apesar de tudo: a vida embaciada, minúscula, imprecisa e preciosa como nenhuma outra coisa. A sabedoria é a vida mesma: o real do viver, a existência não como trégua, mas como pacto, conhecido e aceite na sua fascinante e dolorosa totalidade.

                                             Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , pp. 112-113

2 de dezembro de 2014

O que é um abraço?

Ilustração de Bella Sinclair
     
Se calhar, a primeira forma do primeiro abraço que demos era apenas um agarrar-se para não cair. Porém, pouco a pouco, num processo paciente onde os corpos fazem a aprendizagem de si (e do amor), o abraço deixa de ser uma coisa que tu me dás ou que eu te dou, e surge como um lugar novo, um lugar que ainda não existia no mundo e que juntos encontramos.



Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 82

1 de dezembro de 2014

Anorexia de afetos

Ilustração de Shinya Okayama

Há um filme de Ingmar Bergman em que uma das personagens é uma rapariga anoréxica - e sabemos como a anorexia é um tipo de desinvestimento vital, que podemos tomar como símbolo de tantos outros. A rapariga vai falar com um médico e ele diz-lhe mais ou menos isto, que também vale para nós: "Olha, há só um remédio para ti, só vejo um caminho: em cada dia, deixa-te tocar por alguém ou por alguma coisa".


Tolentino Mendonça, "Deixa-te tocar"in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , pp. 67-68

24 de novembro de 2014

Secretária desarrumada



Gosto de ter a secretária desarrumada. Recortes de jornais, contas por pagar, cartas, papéis com recados, notas, relatórios, fotografias formam um padrão que me desenvolve o raciocínio.

Ilustrações de Juri Romanov

Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso, Porto Editora, 2011, 1ª ed., p. 12

22 de novembro de 2014

A pantera e o oftalmologista

Ilustração de Lim Heng Swee
- O seu caso não é para operar.

(...)

- Mas vai passar a ser. Quero um transplante de olhos. Pago o que for preciso.
Ela era doida, não havia dúvida nenhuma.

- Não. Para quê? É perfeitamente normal. Estas coisas não funcionam assim, há uma ética médica. O dinheiro não compra tudo.

- Ora, ora. Deixe-se de tretas. Se eu quiser uma cara, um nariz, umas mamas novas, isso é aceitável. Uns olhos novos não, porquê?

(...)

- E não quero uns olhos quaisquer. Quero que me transplante olhos de pantera.

                           
Miguel Miranda, "A pantera e o Oftalmologista", in A fome do licantropo e outras histórias
Porto Editora, 2014, 1ª ed., p. 99

12 de novembro de 2014

Andar acalma

Andar acalma. A marcha possui uma virtude salutar.

Ilustração de Alberto Ruggieri

O ato de colocar regularmente um pé à frente do outro, acompanhado pelo balançar cadenciado dos braços, a aceleração do ritmo respiratório, a ligeira estimulação do pulso, as atividades da vista e do ouvido necessárias à manutenção do equilíbrio - são ações que impelem o corpo e o espírito para uma convergência irresistível, permitindo que a alma, por muito atrofiada e traumatizada que esteja, cresça e se expanda.

                                                                    Patrick Süskind, in A pomba, Ed. Presença, 2014, 9ª ed., p. 81

9 de novembro de 2014

A pomba

Ilustração de Greg Becker

Quando lhe aconteceu isto da pomba, que de um dia para o outro mudou radicalmente a sua existência, já Jonathan Noel estava com mais de cinquenta anos, havia uns bons vinte anos que levava uma vida igual e sem incidentes e nunca lhe teria passado pela cabeça que ainda lhe pudesse vir a acontecer qualquer coisa de importante senão morrer. E dava-se por muito satisfeito com a sua sorte, pois não gostava de acontecimentos e detestava em particular aqueles que lhe abalavam o equilíbrio interior e perturbavam a ordem externa da vida.

Patrick Süskind, in A pomba, Ed. Presença, 2014, 9ª ed.,p.7

8 de novembro de 2014

O doutor queijo

Ilustração de Kristian Adam


Ela apreciou o especialista. O doutor Roquefort era um homem minúsculo, de cabeça rapada e olhos em fenda, como um monge budista. Tinham-lhe dito que era o melhor, porém, a sua figura era tudo menos impressionante. Se ao menos tivesse cabelos brancos, talvez irradiasse mais sabedoria e incutisse mais confiança. Uma dúvida insidiosa instalava-se nela, seria ele mesmo bom? Gostava de confiar, mas o primeiro impacto não era impressionante. Um médico com nome de queijo, era o que ele era.



             Miguel Miranda, "A pantera e o Oftalmologista", in A fome do licantropo e outras históriasPorto Editora, 2014, 1ª ed., p. 95

6 de novembro de 2014

O penetra

- Olha a fila, ó penetra!
- É preciso ter lata!
- Entrar assim de calçadeira, à frente de todos!
- Penetra! Seu penetra!


Ilustração de Ellie Horie
O autocarro arrancou e ele sorriu, o dia começava bem.
Saiu duas paragens adiante, sem pagar bilhete. Aplicou o mesmo golpe mais duas vezes e foi andando, sem gastar uma moeda e passando à frente de todos os cordatos passageiros em espera nas paragens.
- Penetra!


Miguel Miranda, "O Penetra compulsivo", in A fome do licantropo e outras histórias, Porto Editora, 2014, 1ª ed., p. 104 


4 de novembro de 2014

Privacidade

O que é o privado nos nossos dias? 


Uma das involuntárias consequências da revolução informática é ter volatilizado as fronteiras que o separavam do público e ter confundido ambos num happening em que todos somos ao mesmo tempo espectadores e atores, no qual nos mostramos reciprocamente exibindo a nossa vida privada e nos divertimos observando a alheia, num strip tease generalizado em que nada já ficou a salvo da mórbida curiosidade de um público depravado pela idiotice.



Ilustração de Daria Petrilli

O desaparecimento do privado, o facto de ninguém respeitar a intimidade alheia, ela ter-se convertido numa paródia que excita o interesse geral e haver uma indústria informativa que alimenta sem tréguas e sem limites esse voyeurismo universal, é uma manifestação de barbárie. Pois com o desaparecimento do domínio do privado muitas das melhores criações e funções do humano deterioram-se e aviltam-se, começando por tudo aquilo que está subordinado ao cuidado de certas formas, como o erotismo, o amor, a amizade, o pudor, as maneiras, a criação artística, o sagrado e a moral.

Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, pp. 150-151

3 de novembro de 2014

O tamanho da mala

Podemos estar a viajar vida fora com uma mala pequena ou uma mala grande. Não conta o tamanho das malas. Se elas estão cheias, porque são realmente pequenas ou porque nós a tornamos assim, teremos de retirar delas alguma coisa se quisermos colocar outras novas no seu lugar. E acontece passarmos a vida nisso: acumulando, esvaziando, acumulando. 

Ilustração de Wonil Suh

A frugalidade não depende do tamanho da mala. 


Ilustração de Jacek Yerka


O viajante frugal é aquele que tomou a decisão prévia de transportar consigo o essencial, deixando sempre na sua bagagem um espaço disponível.   


José Tolentino Mendonça, in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 
1ª ed., pp. 99-100

2 de novembro de 2014

Os amigos morrem-nos


Os amigos não morrem simplesmente:



morrem-nos, uma força atroz mutila-nos da sua companhia e continuamos a viver com esses vazios entre os ossos.




Luis Sepúlveda, "Jantar com poetas mortos" in A Lâmpada de Aladino e outras histórias para vencer o esquecimento, Porto Editora, 2008, 1ª ed., p. 29

1 de novembro de 2014

O que é a frugalidade?

...a frugalidade não se confunde com a pobreza. 

Ilustração de Abigail Halpin








O que é então a frugalidade? É a escolha do pouco, de viver com pouco, procurando encontrar aí, ou retirar daí, o máximo sentido. 








Ilustração de Marc Potts

A frugalidade desprende-se, distancia-se, ganha consciência crítica, não abdica da sua liberdade. A frugalidade é um estilo. Há uma frase de Henry David Thoreau que a ilumina especialmente. E ela diz: "A riqueza de um homem é proporcional não ao número de bens que ele pode possuir, mas ao número de coisas a que ele pode renunciar".


José Tolentino Mendonça, in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., pp. 98-99

31 de outubro de 2014

Romeu e Julieta

Ilustração de Gabriela Andrade

Romeu da Baviera era duque; Julieta apenas bela. Como muitas vezes, o poder ajoelhou-se frente à beleza; como sempre, a beleza fingiu resistir, mas logo se rendeu.

Gonçalo M. Tavares, A História de Julieta, a santa da Baviera, in Histórias Falsas, Caminho, 2014, 7ª ed., p. 15

28 de outubro de 2014

A Bíblia é para comer

Ilustração de Fabián Rivas

Literalmente, a Bíblia é para comer.


José Tolentino Mendonça, in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., p. 85