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23 de abril de 2012

Poesia discreta

Ilustração de Kaatje Vermeire
Onde a poesia se exibe como um espectáculo espectacular
não é poesia
onde a audácia do poema não é única
não é poesia
onde a poesia não é inocência de natureza fluvial
não é poesia
onde a poesia não é escandalosamente pura
não é poesia
onde a poesia não é filha do deserto nem da sede
não é poesia
onde a poesia não é presença viva que nasce da solidão e da ausência
não é poesia
onde a poesia não se oferece no seu abandono
não é poesia
onde a poesia não é poesia
não é poesia
António Ramos Rosa, in O Sol é Todo o Espaço, 2002

Sonhos dos livros


O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas - longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar

a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor
à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
Ilustração de Julia Humpfer
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. Às vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio - nada

aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,
à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.

Maria do Rosário Pedreira, in A Casa e o Cheiro dos Livros

A casa onde às vezes regresso é tão distante

Ilustração de Limeunhee
A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado do meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te 
o coração


Tolentino Mendonça, A que distância deixaste o coração

22 de abril de 2012

Sem ti

Ilustração de Sonja Dimovska

E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.

Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.



Eugénio de Andrade

Promessa

Ilustração de Émilie Vast

És tu a Primavera que eu esperava,
A vida multiplicada e brilhante,
Em que é pleno e perfeito cada instante.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética I

21 de abril de 2012

Momentos especiais


O principezinho voltou no dia seguinte.

- Era melhor teres vindo à mesma hora - disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro horas, às três, já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já hei-de estar toda agitada e inquieta: é o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito...São precisos rituais.
 
Ilustração de Limeunhee

- O que é um ritual? - perguntou o principezinho.
- Também é uma coisa de que toda a gente se esqueceu - respondeu a raposa. - É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias e uma hora, diferente das outras horas.

20 de abril de 2012

Vaidade

Ilustração de Cecelia Webber
...a flor nunca mais acabava de se arranjar, de se pôr bonita, sempre trancada no seu quarto verde. Escolhia as cores com todo o cuidado. Vestia-se vagarosamente, assentando as pétalas uma a uma. Não queria sair toda amarrotada, como as papoilas. Só queria aparecer no máximo esplendor da sua beleza. Oh, sim! Ela era mesmo muito vaidosa!

Ilustração de Dina


Os vaidosos nunca ouvem senão os elogios.

Saint-Exupéry, in O Principezinho 

É preciso muita paciência...

Ilustração de Limeunhee
- Só conhecemos aquilo que cativamos - disse a raposa. - Os homens, agora, já não têm tempo para conhecer nada. Compram as coisas já feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não têm amigos. Se queres um amigo, cativa-me!

- E o que é que é preciso fazer? - perguntou o principezinho.

- É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim, em cima da relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas todos os dias te podes sentar um bocadinho mais perto...

Saint-Exupéry, in O Principezinho

19 de abril de 2012

Camoniana

Ilustração de Alberto Godoy
Quem és tu, bárbara, que moras
num poema que se estuda nas escolas
e se lê em recitais,
- tu que te limitaste a ser amada
por um poeta que, se calhar, mais
não te deu em troca do amor
do que esse poema que tu, se calhar,
nunca chegaste a ouvir? Quem és,
ó mulher mais real do que esse
poeta que te cantou, e de cuja vida
ninguém sabe nada - a não ser
que te amou, e te deitou nesse
poema em que ainda vives, e respiras
como no dia em que ele o escreveu
lembrando-se do teu corpo, e dos
teus lábios, e dos dias, ou noites,
que contigo se passaram? Quem és,
mulher real e sonhada que habitas
todos os poemas que esse poema
inspirou, e todos os sonhos que
nessa bárbara encontraram uma imagem
precisa e definitiva? Volta-te
nesses versos, para que te vejamos
o rosto, e diz-nos o teu nome - o nome
autêntico, e não esse que o poeta
inventou para te chamar num poema
que de ti só guarda o segredo;
e adormece depois, esquecendo
o que de ti disseram, e os comentários
de que foste o pretexto, e as imagens
em que, cada vez mais, foste perdendo
a tua, e única, imagem.


                                                                   Nuno Júdice

18 de abril de 2012

Endechas a Bárbara Escrava

Ilustração de Alberto Godoy
Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que pera meus olhos
Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E. pois nela vivo,
É força que viva.

                                        Luís de Camões

17 de abril de 2012

Não adormeças

Ilustração de Sam Hyuen Kim

Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs
com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

Ilustração de Carme Solé Vendrell
O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.

                                                                            Maria do Rosário Pedreira, in A Casa e o Cheiro dos Livros

Que é a poesia?

Ilustração de Juri Romanov


uma ilha
cercada
de palavras
por todos
os lados.

Cassiano Ricardo

16 de abril de 2012

O cheiro da escrita

Ilustração de Alice Vilhena
E depois estava a escrever... estava a escrever de novo. As  personagens eram só personagens, a casa era só uma gravura, e não havia amor, e não havia sofrimento.

O livro estava a tomar a sua forma definitiva e ela descobria coisas novas nele, estranhas simetrias (assustadoras simetrias), por vezes uma anotação na margem dava um sentido inquietante às outras palavras... E ela encontrava-se naquele estado que não tinha nome, consciência alterada, talvez um estado de graça, e o livro era só a parte visível do que estava a acontecer. E por vezes levantava-se e olhava em volta, porque sentia, muito forte, dentro do quarto, o cheiro da pantera.
Ilustração de Helene Terlien

Ana Teresa Pereira, in A Pantera (2011:85)
 
 
E era um cheiro quente e doce. Um cheiro vivo. Ela criara uma coisa.

ibidem (p.88)

15 de abril de 2012

Amendoeira em flor

Van Gogh, Amendoeira em flor


Um dia sentou-se à secretária e abriu o caderno de capa dura (ramos de amendoeira e céu de um azul único, pormenor de um quadro de Van Gogh) que comprara anos antes em Amesterdão.

Ana Teresa Pereira, in A Pantera (2011:84)

Escrita indefinível

Ilustração de Graham Franciose


De vez em quando distraía-se com a beleza profunda do lugar, e com qualquer coisa de indefinível, quase perigoso, que pairava nas águas, mas isso era parte da sua escrita.
O crepúsculo estava a chegar e os pássaros tinham ficado silenciosos e uma neblina leve formava-se sobre as águas, entre os juncos. Kate ouviu o som de um ramo a partir-se e voltou-se bruscamente, embora soubesse que só podia ser ele.

Ana Teresa Pereira, in A Pantera (2011:77)

14 de abril de 2012

Medo da escrita

Ilustração de Liu Ye


E na mala levava os seus notebooks, o seu livro. Queria começar a escrevê-lo, e ao mesmo tempo tinha um medo enorme de o fazer.


Ana Teresa Pereira, in A Pantera (2011:83)

13 de abril de 2012

Justiça e poder maquiavélico

Ilustração de Marie Desbons
Uma mulher processa um homem em tribunal por difamação de carácter, alegando que lhe chamou porca. O homem é considerado culpado e obrigado a pagar-lhe uma indemnização. Após o julgamento, o homem pergunta ao juíz:

- Isto significa que nunca mais poderei chamar porca à senhora Harding?
- Correcto - responde o juíz.
- E isso  significa que não posso chamar senhora Harding a uma porca?
- Não - diz o juíz -, o senhor é livre de chamar  senhora Harding a uma porca. Não é crime.
O homem olha a senhora Harding nos olhos e diz:
- Boa tarde, senhora Harding.


Thomas Cathcart e Daniel Klein, (2007: 85), in Platão e um Ornitorrinco entram num bar...Filosofia com humor

12 de abril de 2012

Escuto


Ilustração de Violetno
Escuto mas não sei
se o que oiço é silêncio
ou Deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
o ressoar das planícies do vazio
ou a consciência atenta
que nos confins do universo
me decifra e fita.

Apenas sei que caminho como quem
é olhado, amado e conhecido
e por isso em cada gesto ponho
solenidade e risco.

  Sophia de Mello Breyner Andresen

Rapariga descalça

Ilustração de Mariana Kalacheva
Chove. Uma rapariga desce a rua.
Os seus pés descalços são formosos.
São formosos e leves: o corpo alto
parte dali, e nunca se desprende.

A chuva em abril tem o sabor do sol:
cada gota recente canta na folhagem.
O dia é um jogo inocente de luzes,
de crianças ou beijos, de fragatas.

Uma gaivota passa nos meus olhos.
E a rapariga – os seus formosos pés –
canta, corre, voa, é brisa, ao ver
o mar tão próximo e tão branco.

Eugénio de Andrade

Descalça vai para a fonte


Ilustração de David Galchutt


Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.


Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.




Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.
                                                                                                                          
                                                                  
                                                                                 Luís de Camões