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5 de abril de 2012

Ilustração de Laimonas Smergelis

A poesia é o perde / ganha, e nesta perda inscreve-se a possibilidade surpreendente, inesperada, não óbvia, não programada, não prevista, não estabelecida, mas é tantas vezes a porta (a única porta) por onde o imprevisto de Deus pode entrar na nossa história.


José Tolentino Mendonça, As crises são grandes mestres -
Para uma teologia da crise

Urgentemente

Ilustração de Laimonas Smergelis

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade

Frente a frente


Ilustração de Nerida de Jong
Nada podeis contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco.



 
Eugénio de Andrade

4 de abril de 2012

Talvez de noite

Ilustração de Catrin Welz-Stein
Não abras a porta,
se for o sublime diz que não estou,
já temos palavras de mais, sentimentos de mais.


A glicínia não floriu este ano,
antes floria à volta de tudo
o que resta de azul à nossa volta,
envelheceu, anima-a só o desejo de voltar a casa, de ser uma casa.


Manuel António Pina, in Como se desenha uma casa

3 de abril de 2012

A espera

Ilustração de Alexander Astashonok


O jardim ainda estava meio adormecido, fechado sobre si mesmo.



Ana Teresa Pereira, in A Pantera (2011:52)

2 de abril de 2012

De pequenino se forma o leitor

Ilustração de Dibupoly

A leitura estimula  o cérebro, aumenta os conhecimentos, desenvolve a linguagem, facilita a abertura ao mundo, forma para a vida.

1 de abril de 2012

Folha seca


Ilustração de Anna Silivoncik
Todas as flores aspiram a ser fruto
Todas as manhãs a ser noite,
Não há nada de eterno na Terra
A não ser a mudança, a fuga.

Mesmo o mais belo dos Verões anseia
Por conhecer o Outono, o definhar.
Aguenta-te, folha, mantém-te calma,
Quando o vento te quiser arrebatar.

Deixa estar, não tentes defender-te
Que aconteça o que tiver de ser.
Deixa o vento, que te arranca e parte,
De regresso a casa conduzir-te.

Hermann Hesse, in Elogio da Velhice

A cerejeira em flor


Ilustração de Robert Dunn
O camponês afeiçoou-se a uma cerejeira desde que sua mulher faleceu. Todas as manhãs a visitava, afagando seu tronco. No mês em que o camponês esteve de cama, com bronquite, também a cerejeira adoeceu. Depois levantou-se e voltou a acariciá-la e a falar-lhe e, rapidamente, a cerejeira de mil folhas enfeitou seus ramos.

Um dia, no mercado, ao comprar uma foice, o camponês sentiu um irresistível desejo de regressar aos seus campos. Parecia-lhe que a cerejeira precisava de si. Encontrou-a toda florida, sorrindo para ele.

Sentou-se, então, sob a árvore, com as costas apoiadas no tronco e, de improviso, sobre o corpo do camponês, choveram todas as pétalas da cerejeira em flor.

Tonino Guerra, in Histórias para uma noite calmaria

A uma cerejeira em flor

Ilustração de Silvia Lugli



Acordar, ser na manhã de abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.


Eugénio de Andrade

Noite fechada

André Carrilho, Lisboa que amanhece
Lembras-te tu do sábado passado,
Do passeio que demos, devagar,
Entre um saudoso gás amarelado
E as carícias leitosas do luar?

Bem me lembro das altas ruazinhas,
Que ambos nós percorremos de mãos dadas:
Às janelas palravam as vizinhas;
Tinham lívidas luzes as fachadas.

Não me esqueço das coisas que disseste
(...)

Cesário Verde

31 de março de 2012

E por vezes


Ilustração de Charlie Bearman
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
Nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a vida nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto dos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira

30 de março de 2012

Poesia

Ilustração de Gooroovoo



A poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala duma vida ideal mas duma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.

Sophia de Mello Breyner Andresen

29 de março de 2012

O ilustrador de livros

Ilustração de Rita Cardelli
No princípio era o branco
A terra que as palavras
Cederam ao autor
O pintor leu o fogo
A cabra a ovelha e o corvo
O poeta em bicicleta
Pedalando pelo ar
E atiçou-os no branco
E tingiu-os devagar
Agora o livro é mas o branco escorre ainda
Pelos caminhos dessa imagem
Sulcada pelo olhar

                                                     João Pedro Mésseder

Quase nada

Ilustração de Eugenia Gapchinska
O amor
é uma ave a tremer
nas mãos duma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.

Eugénio de Andrade

28 de março de 2012

As mãos e os frutos

Ilustração de Vladimir Olenberg



V

Nos teus dedos nasceram horizontes
e aves verdes vieram desvairadas
beber neles julgando serem fontes.


Eugénio de Andrade

26 de março de 2012

Madrigal

Klimt, O Beijo






Tu tinhas um nome, e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor.

Eugénio de Andrade

Foi para ti que criei as rosas

Ilustração de Karla Gudeon
Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
E dei às romãs a cor do lume.


Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde dos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
Um corpo aberto como os animais.


Eugénio de Andrade in As mãos e os frutos

A Figueira

Ilustração de Eugenia Gapchinska
Não tenho mãos para o azul.
Sonho com o mar
que não está longe mas não vejo
arder.
Só a sombra parece estar em casa
debaixo dos meus ramos:
canta baixinho enquanto se descalça.

Eugénio de Andrade, in Com o sol em cada sílaba 

25 de março de 2012

Liberdade


Ilustração de Marie Cardouat

O poema é
A liberdade

Um poema não se programa
Porém a disciplina
— Sílaba por sílaba —
O acompanha

Sílaba por sílaba
O poema emerge
— Como se os deuses o dessem
O fazemos
                                    

    Sophia de Mello Breyner Andresen

24 de março de 2012

O jardim da minha vida

Ilustração de Claire Barone
Havia ainda outro jardim o da minha vida
exíguo é certo mas o do meu olhar
são talvez dois pássaros que se amam
um sobre o outro ou dois cães de pé
é sempre a mesma inquietação

este delírio branco ou o rumor
da chuva sobre flancos e barcos
o inverno vai chegar
sobre a palha ainda quente a mão
uma doçura de abelha muito jovem

era o sopro distante das manhãs sobre o mar
e eu disse sentindo os seus passos nos pátios do
coração
é o silêncio e por fim o silêncio
vai desabar

Eugénio de Andrade,Sobre Flancos e Barcos (Véspera de água)