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7 de dezembro de 2012

Os amantes sem dinheiro


Ilustração de Joanna Concejo



Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;  
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.



Eugénio de Andrade

6 de dezembro de 2012

Nos teus dedos nasceram horizontes

Ilustração de Tirabosco

Nos teus dedos nasceram horizontes

e aves verdes vieram desvairadas

beber neles julgando serem fontes.



Eugénio de Andrade, in As mãos e os frutos

Quase nada

Ilustração de Kelly Dyson
O amor
é uma ave a tremer
nas mãos duma criança. 
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.

Eugénio de Andrade, in Primeiros Poemas

4 de dezembro de 2012

A escola. A flor. A flor. A escola…

Ilustração de Agnes Keszeg


Ilustração de Marta Álvarez Minguéns



Tudo ia muito bem quando Godofredo entrou na minha aula. Pediu licença e foi falar com D. Cecília Paim. Só sei que ele apontou a flor no copo. Depois saiu. Ela olhou para mim com tristeza.
Quando terminou a aula, me chamou.
- Quero falar uma coisa com você, Zezé. Espere um pouco.
Ficou arrumando a bolsa que não acabava mais. Se via que não estava com vontade nenhuma de me falar e procurava coragem entre as coisas. Afinal se decidiu.
- Godofredo me contou uma coisa muito feia de você, Zezé. É verdade?
Balancei a cabeça, afirmativamente.
- Da flor? É, sim senhora.
- Como é que você faz?
- Levanto mais cedo e passo no jardim da casa do Serginho. Quando o portão está só encostado, eu entro depressa e roubo uma flor. Mas lá tem tanta que nem faz falta.
- Sim, mas isso não é direito. Você não deve fazer mais isso. Isso não é um roubo, mas já é um “furtinho”.
- Não é não, D. Cecília. O mundo não é de Deus? Tudo que tem no mundo não é de Deus? Então as flores são de Deus também…
Ela ficou espantada com a minha lógica.
- Só assim que eu podia, professora. Lá em casa não tem jardim. Flor custa dinheiro… E eu não queria que a mesa da senhora ficasse sempre de copo vazio.
Ela engoliu em seco.
- De vez em quando a senhora não me dá dinheiro para comprar um sonho recheado, não dá?
- Poderia lhe dar todos os dias. Mas você some…
- Eu não podia aceitar todos os dias…
- Por quê?
- Porque tem outros meninos pobres que também não trazem merenda.
Ela tirou o lenço da bolsa e passou disfarçadamente nos olhos.
- A senhora não vê a Corujinha?
- Quem é a Corujinha? 
Ilustração de Roseland
- Aquela pretinha do meu tamanho que a mãe enrola o cabelo dela em coquinhos e amarra com cordão.
- Sei. A Dorotília.
- É, sim, senhora. A Dorotília é mais pobre do que eu. E as outras meninas não gostam de brincar com ela porque é pretinha e pobre de mais. Então ela fica no canto sempre. Eu divido o sonho que a senhora me dá, com ela.
Dessa vez ela ficou com o lenço parado no nariz muito tempo.
- A senhora de vez em quando, em vez de dar para mim, podia dar para ela. A mãe dela lava roupa e tem onze filhos. Todos pequenos ainda. Dindinha, minha avó, todo sábado dá um pouco de feijão e de arroz para ajudar eles. E eu divido o meu sonho porque Mamãe ensinou que a gente deve dividir a pobreza da gente com quem é ainda mais pobre.
As lágrimas estavam descendo.
- Eu não queria fazer a senhora chorar. Eu prometo que não roubo mais flores e vou ser cada vez mais um aluno aplicado.
- Não é isso, Zezé. Venha cá.
Pegou as minhas mãos entre as dela.
- Você vai prometer uma coisa, porque você tem um coração maravilhoso, Zezé.
- Eu prometo, mas não quero enganar a senhora. Eu não tenho um coração maravilhoso. A senhora diz isso porque não me conhece em casa.
- Não tem importância. Pra mim você tem. De agora em diante não quero que você me traga mais flores. Só se você ganhar alguma. Você promete?
- Prometo, sim senhora. E o copo? Vai ficar sempre vazio? 

Ilustração de Dudnik
- Nunca esse copo vai ficar vazio. Quando eu olhar para ele vou sempre enxergar a flor mais linda do mundo. E vou pensar: quem me deu esta flor foi o meu melhor aluno. Está bem?
Agora ela ria. Soltou minhas mãos e falou com doçura.
- Agora pode ir, coração de ouro...
 .
José Mauro de Vasconcelos in O Meu Pé de Laranja Lima

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Uma flor



Ilustração de Olivier Tallec

Ninguém tinha levado uma flor sequer para minha professora D. Cecília Paim. Devia ser porque ela era feia. Se ela não tivesse uma pintinha no olho, não era tão feia. Mas era a única que dava um tostão pra mim para comprar sonho recheado no doceiro de vez em quando, quando chegava o recreio.
Comecei a reparar nas outras aulas e todos os copos sobre a mesa tinham flores. Só o copo da minha continuava vazio.
(…)
Uma manhã apareci com uma flor para minha professora. Ela ficou muito emocionada e disse que eu era um cavalheiro.
 (…)
E todos os dias fui tomando gosto pelas aulas e me aplicando cada vez mais. Nunca viera uma queixa contra mim de lá…


 José Mauro de Vasconcelos in O Meu Pé de Laranja Lima

2 de dezembro de 2012

À procura do Natal


Levo o rapazinho pela mão. Digo-lhe:

- Vou enfeitar uma pequena árvore de Natal, tão pequena que entre no teu coração para sempre, e se te esqueceres de tudo o que existe à tua volta, dela não te esquecerás.

- Como é que sabes? - pergunta ele.

Ilustração de Stephen Mackey

- Como é que sei? Não sei. Estas coisas nascem debaixo das nossas pálpebras enquanto velamos, e ainda mais quando estamos a dormir; também nascem quando sonhamos de olhos abertos ou estamos profundamente calados, concentrados, o que alguns chamam orar, já te tinha explicado isto quando fomos ver os pombos-correios àquela vila do outro lado do rio, lembras-te, sobretudo quando dormimos e sabemos que dormimos recebemos muitas informações; também te digo que alguns acontecimentos ainda não acontecidos chegam até nós enquanto observamos a paisagem, e até a nossa rua quando de repente ela se despe dos objectos, os movimentos param, o ruído cessa, e a rua fica sozinha e nossa, inseparavelmente nossa, habitual e diferente.

Continuamos a andar, mão na mão. Eu tenho luvas de pele fina, tu tens uma luva de lã, só uma, perdeste a outra?
(...) Perdi-a - diz o pequeno.
É bom aprendermos a perder. O importante é não perdermos o nosso nome entre tantos nomes no mundo. (...) 


Jorge Listopad, "À procura do Natal", in Um Natal assim, (2008), Quidnovi

1 de dezembro de 2012

Uma história que começa pelo fim

Ilustração de Will Bulas
Eram uma vez um príncipe e uma princesa que se casaram e foram felizes para sempre. 

Mas “para sempre” é muito tempo e, com o passar dos anos, a felicidade do príncipe e da princesa começou a ter um sabor estranho e a tornar-se, como hei-de dizer?, um pouco aborrecida.

- Que saudades eu tenho de quando era guardadora de patos!, dizia a princesa.

- E eu que saudades tenho de quando era sapo, e esperava que tu chegasses e me beijasses para quebrar o feitiço!, dizia melancolicamente o príncipe.


(O príncipe e a princesa estavam já a ficar velhos e  confundiam frequentemente as coisas, misturando com a sua história as histórias de outros príncipes e outras princesas de que tinham ouvido falar).
Ilustração de Marianna Kalacheva
Um dia, passeando nos jardins do palácio, de mãos dadas, como sempre, concluíram que eram felizes há tanto tempo que já nem sabiam bem o que era a felicidade, e que, se ao menos se lembrassem de alguma coisa infeliz, talvez pudessem de novo aperceber-se de como eram felizes.

Chamaram então os cortesãos para que eles lhes falassem de coisas infelizes e tristes. Mas os cortesãos, como já tinha passado muito tempo, também já não se lembravam. A única coisa de que um deles, depois de um grande esforço, foi capaz de lembrar-se foi de que lhe parecia que estar triste era triste. 


Mas quando lhe perguntaram o que era estar triste ficou longos minutos em silêncio, a puxar pelas recordações, e não conseguiu lembrar-se de mais nada (a não ser, lembrou-se de repente, de que deixara as chaves de casa no bolso das calças que tinha mandado para a lavandaria!).
 - O que eu dava por um pouco, um pouco só, de tristeza! – dizia o príncipe abanando a cabeça.
- Assim nem sabemos se somos felizes ou não. Devemos ser, mas não temos a certeza…- acrescentava a princesa.


Ilustração de Nadezhda Illarionova
Pediram ajuda à Fada Madrinha, que lhes fazia todas as vontades, mas a Fada Madrinha era uma Fada Boa e não podia fazer maldades nem provocar tristeza, e por isso não lhes pôde valer.
Passou muito, muito tempo, até que um dia, o Bobo, que tinha frequentemente ideias malucas, teve uma ideia maluca: e se tudo aquilo fosse uma grande maldade da Bruxa Má? Se ela tivesse rodeado o príncipe e a princesa de felicidade por todos os lados e os tivesse aprisionado? Se todos, até ele, que também era (julgava que era, mas também já não tinha a certeza…) feliz, fossem afinal prisioneiros da Bruxa Má? 
Era uma ideia maluca, e o Bobo não se atreveu a falar a ninguém. Mas, a partir desse dia, passou a procurar desesperadamente uma saída que desse para Qualquer-Sítio, por onde pudesse passar para o outro lado da muralha da felicidade. Até que, numa certa tarde, decidiu meter-se por um buraco que lhe pareceu apropriado para ir dar a Qualquer-Sítio.
Porém, ao longo de tantos e tantos anos de felicidade, o Bobo tinha engordado muito e, mal se enfiou no buraco, ficou preso pela barriga, sem poder continuar nem voltar para trás.

O príncipe e a princesa deram pela falta do Bobo e ficaram muito aflitos, porque eram muito, muito amigos dele. Ajudados pelos cortesãos, procuraram-no por toda a parte. Mas chegou a noite e o Bobo não apareceu. 
Ilustração de Maria Pace-Wynters
Então, nessa noite, ao jantar, a princesa, olhando a cadeira vazia do Bobo à mesa, sentiu uma impressão estranha: uma espécie de não sabia bem o quê, não sabia bem onde, como se o seu coração, de repente, se tivesse tornado mais pequeno. 
E o príncipe pegou-lhe na mão e sussurrou:
- Também eu. Será que… - a sua voz estremeceu – será que estamos tristes?!
E então, de repente, perceberam:
- Estamos tristes, estamos tristes!, gritaram os dois, saltando alvoroçados nos cadeirões.
Ficaram contentíssimos por estarem tristes. Mas, ao mesmo tempo, ficaram tristes. Porque continuavam sem saber o que teria acontecido ao Bobo. 
- Que grande infelicidade, disse a princesa voltando a sentar-se. – E se o Bobo morreu? – E, pela primeira vez desde há muitos, muitos anos, dos seus olhos correram de novo, ligeirinhas, as lágrimas. Estavam tão desabitadas, as lágrimas, que, primeiro, assomaram timidamente aos cantos dos olhos da princesa, espreitando, hesitantes, e só depois ganharam coragem e se decidiram a correr-lhe, duas a duas, pelas faces.
- São salgadas, disse, surpreendida, a princesa.
- As saladas?..., perguntou o príncipe sem compreender.
- Não, as lágrimas…

Nas semanas seguintes, como o Bobo continuava sem aparecer, o príncipe e a princesa passaram terríveis dias de tristeza e aflição.
Até que, como esteve muito tempo sem comer, metido no buraco, o Bobo emagreceu. E tanto emagreceu que, finalmente, conseguiu safar-se, e voltou, cheio de fome, ao Palácio, onde foi recebido com grandes festas.

 
Ilustração de Marianna Kalacheva
E voltaram todos a viver felizes para sempre.
                                                                                                Manuel António Pina, in Histórias que me contaste tu