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2 de abril de 2012

De pequenino se forma o leitor

Ilustração de Dibupoly

A leitura estimula  o cérebro, aumenta os conhecimentos, desenvolve a linguagem, facilita a abertura ao mundo, forma para a vida.

1 de abril de 2012

Folha seca


Ilustração de Anna Silivoncik
Todas as flores aspiram a ser fruto
Todas as manhãs a ser noite,
Não há nada de eterno na Terra
A não ser a mudança, a fuga.

Mesmo o mais belo dos Verões anseia
Por conhecer o Outono, o definhar.
Aguenta-te, folha, mantém-te calma,
Quando o vento te quiser arrebatar.

Deixa estar, não tentes defender-te
Que aconteça o que tiver de ser.
Deixa o vento, que te arranca e parte,
De regresso a casa conduzir-te.

Hermann Hesse, in Elogio da Velhice

A cerejeira em flor


Ilustração de Robert Dunn
O camponês afeiçoou-se a uma cerejeira desde que sua mulher faleceu. Todas as manhãs a visitava, afagando seu tronco. No mês em que o camponês esteve de cama, com bronquite, também a cerejeira adoeceu. Depois levantou-se e voltou a acariciá-la e a falar-lhe e, rapidamente, a cerejeira de mil folhas enfeitou seus ramos.

Um dia, no mercado, ao comprar uma foice, o camponês sentiu um irresistível desejo de regressar aos seus campos. Parecia-lhe que a cerejeira precisava de si. Encontrou-a toda florida, sorrindo para ele.

Sentou-se, então, sob a árvore, com as costas apoiadas no tronco e, de improviso, sobre o corpo do camponês, choveram todas as pétalas da cerejeira em flor.

Tonino Guerra, in Histórias para uma noite calmaria

A uma cerejeira em flor

Ilustração de Silvia Lugli



Acordar, ser na manhã de abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.


Eugénio de Andrade

Noite fechada

André Carrilho, Lisboa que amanhece
Lembras-te tu do sábado passado,
Do passeio que demos, devagar,
Entre um saudoso gás amarelado
E as carícias leitosas do luar?

Bem me lembro das altas ruazinhas,
Que ambos nós percorremos de mãos dadas:
Às janelas palravam as vizinhas;
Tinham lívidas luzes as fachadas.

Não me esqueço das coisas que disseste
(...)

Cesário Verde

31 de março de 2012

E por vezes


Ilustração de Charlie Bearman
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
Nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a vida nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto dos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira

30 de março de 2012

Poesia

Ilustração de Gooroovoo



A poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala duma vida ideal mas duma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.

Sophia de Mello Breyner Andresen

29 de março de 2012

O ilustrador de livros

Ilustração de Rita Cardelli
No princípio era o branco
A terra que as palavras
Cederam ao autor
O pintor leu o fogo
A cabra a ovelha e o corvo
O poeta em bicicleta
Pedalando pelo ar
E atiçou-os no branco
E tingiu-os devagar
Agora o livro é mas o branco escorre ainda
Pelos caminhos dessa imagem
Sulcada pelo olhar

                                                     João Pedro Mésseder

Quase nada

Ilustração de Eugenia Gapchinska
O amor
é uma ave a tremer
nas mãos duma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.

Eugénio de Andrade

28 de março de 2012

As mãos e os frutos

Ilustração de Vladimir Olenberg



V

Nos teus dedos nasceram horizontes
e aves verdes vieram desvairadas
beber neles julgando serem fontes.


Eugénio de Andrade

26 de março de 2012

Madrigal

Klimt, O Beijo






Tu tinhas um nome, e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor.

Eugénio de Andrade

Foi para ti que criei as rosas

Ilustração de Karla Gudeon
Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
E dei às romãs a cor do lume.


Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde dos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
Um corpo aberto como os animais.


Eugénio de Andrade in As mãos e os frutos

A Figueira

Ilustração de Eugenia Gapchinska
Não tenho mãos para o azul.
Sonho com o mar
que não está longe mas não vejo
arder.
Só a sombra parece estar em casa
debaixo dos meus ramos:
canta baixinho enquanto se descalça.

Eugénio de Andrade, in Com o sol em cada sílaba 

25 de março de 2012

Liberdade


Ilustração de Marie Cardouat

O poema é
A liberdade

Um poema não se programa
Porém a disciplina
— Sílaba por sílaba —
O acompanha

Sílaba por sílaba
O poema emerge
— Como se os deuses o dessem
O fazemos
                                    

    Sophia de Mello Breyner Andresen

24 de março de 2012

O jardim da minha vida

Ilustração de Claire Barone
Havia ainda outro jardim o da minha vida
exíguo é certo mas o do meu olhar
são talvez dois pássaros que se amam
um sobre o outro ou dois cães de pé
é sempre a mesma inquietação

este delírio branco ou o rumor
da chuva sobre flancos e barcos
o inverno vai chegar
sobre a palha ainda quente a mão
uma doçura de abelha muito jovem

era o sopro distante das manhãs sobre o mar
e eu disse sentindo os seus passos nos pátios do
coração
é o silêncio e por fim o silêncio
vai desabar

Eugénio de Andrade,Sobre Flancos e Barcos (Véspera de água)

23 de março de 2012

Aniversário

Ilustração de Graham Franciose
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino.
O que fui - ai meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa.
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Para, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos, Poesias

22 de março de 2012

Endzeit

Atrás de ti o caminho luminoso
como se o abismo tivesse uma cabeleira branca

Tolentino Mendonça


Ilustração de Virginia Lee

Primavera

Ilustração de Charlotte Gastaut



a face breve
enuncia o esplendor


Tolentino Mendonça, in A Noite abre Meus Olhos

21 de março de 2012

O poema

Ilustração de Ole Sigurd Walla
O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.

Tolentino Mendonça

Poesia


Ilustração de Andrei Zadorine
No armazém onde apodreciam as batatas, com o cheiro

a terra e raticida dos velhos sacos de estopa, sentei-me

a ler romances de capa e espada nas tardes de calor. Ali,

uma obscuridade de pedra e madeira protegia-me da

luz; um longínquo ruído de cigarras misturava-se

ao voo monótono de sombrios besouros; e do papel

envelhecido dos livros saía o furor de uma paixão que
só nos romances existia. Ah!, em que alcovas secretas

se encontravam os heróis antigos? Que sedas e

cortinas davam acesso a corpos exaustos? Que

ácidas frases traíam decepções de amor? É que

o tempo era feito, então, de tardes sem fim, num
Ilustração de Graham Franciose

tédio solar, multiplicado pela brancura monótona

do horizonte, como se o próprio céu cobrisse a vida

com a sua mortalha luminosa. O romance

chegava ao fim demasiado depressa; os maus

morriam e os bons ganhavam com excessiva facilidade;
a última página não passava de um tímido abraço de

amantes, calando o que viria para além disso. Então, fechando

o livro, dava-se por que a tarde entrava no declínio;

já não se ouviam cigarras, e os besouros escondiam-se
Ilustração de Kirill Chelushkin
nalguma trave do tecto. Sob os sacos, por entre fardos

de palha e peças de máquina, os fantasmas começavam

a acordar. Era o que esse tempo tinha para dar: nem

luz nem treva, nem morte nem vida. Os minutos de

hesitação entre o fim de um livro e o princípio da noite;

e o abrir da porta para o quintal, onde um vento quente

se metia por dentro da lenha já pronta para o forno do pão.

                                                         Nuno Júdice, in Teoria Geral do Sentimento, 1999