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17 de outubro de 2012

A mulher na poesia de Cesário Verde


Degas, Repasseuses
A poesia de Cesário apresenta dois tipos opostos de mulher: a mulher esplêndida, madura, destrutiva e essencialmente frígida, associada com a cidade e com o Norte, e a jovem simples, terna e vulnerável, associada com o campo ou com os valores opostos à cidade. (...)

O erotismo citadino expresso em imagens que são a antítese da caracterização do amor, desconfinado possível no campo, o momento intemporal do mar sem praias, é um erotismo de humilhação que reduz o amante à condição de servo ou presa fascinada, criando uma reacção sado-masoquista entre a mulher, que personifica o artifício da cidade, e a sua complacente vítima.
(...)

Em contraste com a mulher depredatória identificada com a cidade, “A débil” representa um tipo feminino que é o oposto complementar das esplêndidas, frígidas, fulgurantes e desdenhosas aristocratas emblemáticas da síndroma erótica de humilhação. “A débil” do título do poema (...) está na cidade, mas não lhe pertence, passa por ela como uma personificação das qualidades que lhe são diametralmente opostas.

Inspira no poeta o desejo de protegê-la e de estimá-la, não o desejo perverso de se prostrar a seus pés.

Hélder Macedo, in "Nós" - Uma leitura de Cesário Verde

A débil

Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso,
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura,
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.    



Edgar Degas, O absinto
          
"Ela aí vem!" disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, – talvez que o não suspeites! –
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarca,
Triste eu saí. Doía-me a cabeça.
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca.

Adorável! Tu, muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

Sorriam, nos seus trens, os titulares;
E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
A tua boa mãe, que te ama tanto,
Que não te morrerá sem te casares!

Soberbo dia! Impunha-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma família, um ninho de sossego,
Desejava beijar sobre o teu peito.

Com elegância e sem ostentação,
Atravessavas branca, esvelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E de altos funcionários da nação.

"Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!"
De repente, paraste embaraçada
Ao pé dum numeroso ajuntamento.

E eu, que urdia estes fáceis esbocetos,
Julguei ver, com a vista de poeta,
Uma pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.

E foi, então, que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és ténue, dócil, recolhida,
Eu, que sou hábil, prático, viril.


Cesário Verde, 1875