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10 de outubro de 2015

Tempo instável

Ilustração de Lucy Campbell

Logo a seguir ao almoço começa a chover. É
uma sequência que não tem nada de lógico, e também
podia ter dito que, logo antes do almoço começou a chover. A
lógica disto é que foi depois de almoço que fui à janela
e ouvi o ruído da chuva; e quando abri a janela
a chuva caía com toda a força, isto é, com tanta força
que, na casa em frente, os lençóis pendurados a secar
escorriam água. Na realidade, a chuva que cai no outono
também traz a melancolia que atravessa as almas e as
enche de pensamentos obscuros. Ao ver esses lençóis
encharcados, pensei na cama onde estiveram, e nos corpos
que sobre eles se abraçaram, longe da chuva e da monotonia
dos cinzentos outonais. Com tudo isto, nem reparei
que a chuva deixou de cair, um pedaço de sol
despontou de entre as nuvens e os prédios, e os lençóis
ganharam vida, como se ainda sentissem o calor
desses corpos que o amor juntou.

Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável, D. Quixote, 2012, 2ª ed., p. 80

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