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3 de dezembro de 2013

Balão ou mundo?


Ilustração de Anna Lisk
Um ou outro domingo, pela tarde, as mulheres desciam à Baixa para ver as montras. Geralmente iam por seu pé, alguma vez tomariam o carro eléctrico, que era o pior que me podia suceder nessa idade, porque não tardava a enjoar com o cheiro lá de dentro, uma atmosfera requentada, quase fétida, que me revolvia o estômago e em poucos minutos me punha a vomitar. Neste particular fui uma criança delicada. Com a passagem do tempo esta intolerância olfactiva (não sei que outro nome lhe poderei dar) foi diminuindo, mas o certo é que, durante anos, bastava-me entrar num carro eléctrico para sentir a cabeça a andar à roda. (...) Não me lembro das montras, nem é para falar delas que estou aqui, assuntos mais sérios me ocupam neste momento. Junto a uma das portas dos Armazéns Grandella havia um homem a vender balões, e, fosse por tê-lo eu pedido (do que duvido muito, porque se quem espera que se lhe dê é que se arrisca a pedir), fosse porque minha mãe tivesse querido, excepcionalmente, fazer-me um carinho público, um daqueles balões passou às minhas mãos. Não me lembro se ele era verde ou vermelho, amarelo ou azul, ou branco simplesmente. O que depois se passou iria apagar para sempre da minha memória a cor que deveria ter-me ficado pegada aos olhos para sempre, uma vez que aquele era nada mais nada menos que o meu primeiro balão em todos os seis ou sete anos que levava de vida.


Ilustração de Csil Cb


Íamos nós no Rossio, já de regresso a casa, eu impante como se conduzisse pelos ares, atado a um cordel, o mundo inteiro, quando, de repente, ouvi que alguém se ria nas minhas costas. Olhei e vi. O balão esvaziara-se, tinha vindo a arrastá-lo pelo chão sem me dar conta, era uma coisa suja, enrugada, informe, e dois homens que vinham atrás riam-se e apontavam-me com o dedo, a mim, naquela ocasião o mais ridículo dos espécimes humanos. Nem sequer chorei. Deixei cair o cordel, agarrei-me ao braço da minha mãe como se fosse uma tábua de salvação e continuei a andar. Aquela coisa suja, enrugada e informe era realmente o mundo.

                                          José Saramago, in As pequenas memórias, Caminho, 2006, pp.76-77

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