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5 de julho de 2012

A espuma do café

Ilustração de Moony Khoa Le










Quando penso na existência de deus,
preciso de um café. Porém, tal como,
ao encher a chávena, sei que o café existe
por baixo da espuma, mesmo que
o não veja, também devia acreditar
que, por trás das nuvens, existe o deus em que
não acredito porque não o consigo ver. E ao
ligar um argumento ao outro, começo a perceber que não
há qualquer razão para não acreditar em deus, tal
como não tenho nenhuma razão para não acreditar 
no café cujo calor sinto na chávena, quando a aperto
para me aquecer, enquanto a espuma se não desfaz. E
poderia se este o motivo por que, ao olhar para o céu,
devia ter a mesma sensação de quem só espera que
as nuvens passem para ver esse deus
que elas escondiam. No entanto,
a verdade que me impediu de voltar a acreditar
na existência de deus foi que tive de beber
o café já frio, depois do tempo em que esperei
que a espuma se desfizesse para acreditar
que havia café na chávena, e um deus
no céu.


Nuno Júdice, "Nova suma teológica", in Fórmulas de uma luz inexplicável

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