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12 de abril de 2015

O amor não se adia


Ilustração de Clément Lefèvre
Eu tinha começado a ensinar. Era muito nova então. Quase tão nova como as meninas que eu ensinava. E tive um grande desgosto. (...)

Se vos conto este desgosto tão grande, não é para vos entristecer. Mas para vos ajudar a compreender, como só então eu pude compreender, o valor da vida. O amor da vida. O valor de um gesto de amor. O seu «preço», que dinheiro algum consegue comprar. (...)

Numa turma uma aluna faltava há dias. Era a Aurora. Morena, de grandes olhos cheios de doçura. Talvez triste. A Aurora estava doente. Num hospital da cidade, numa enfermaria. Num imenso hospital. (...)

— Vou vê-la no próximo domingo – anunciei às companheiras.(...)

Ilustração de Juanbjuan

Mas o próximo domingo foi cheio de Sol. (...) E eu, a professora, ainda jovem, que gostava do Sol, fui passear. Ver mar? Campos verdes? Flores? Já nem me lembro. E da Aurora me lembraria se a tivesse ido visitar. 

Começava a Primavera. 
Adiei a visita naquele próximo domingo, para outro dia, para outro próximo domingo. 

Ilustração de Sergey Smirnov


Hoje sei que o amor dos outros se não adia.

Aurora esperou-me toda a tarde de domingo, na sua cama branca, de ferro. 

Tinha posto uma fita vermelha a segurar os cabelos escuros. Esperava-me, esperava a minha visita, cuja promessa as companheiras lhe haviam transmitido. (...)

Ilustração de Shiori Matsumoto

— Estou à espera da professora… 

Ilustração de Kelli Murray


No dia seguinte a doença foi mais poderosa que a sua juventude, a sua doçura, a sua esperança. 
A cabeça escura, sem a fita vermelha, adormeceu-lhe profundamente na almofada, talvez incómoda, do hospital. 

Ilustração de Chichi Huang

Sabemos todos já, amigos, que há vida e morte. Também isso temos de aprender. 


Matilde Rosa Araújo "A fita vermelha", in O Sol e o Menino dos Pés Frios, 
Livros Horizonte, 1998, 9ª ed., pp. 25-27